A Consciente e Divertida Casa em Curto-Circuito

26/07/2026

Montagem: Casa em Curto-Circuito

3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA

Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179

Arth Souza Silva Lopes[1]

Eu não sei como começar a falar sobre este espetáculo, talvez eu comece pondo que a gente entende que a comédia de costumes se consolidou quando teve a ousadia de expor as hipocrisias da convivência social, através de temas como ganância, ambição e "desvios morais". Mas na Casa em Curto-Circuito, a gente observa uma inversão do gênero quando não o é usado para ridicularizar os vícios das elites, mas para desnudar a hipocrisia da neuronormatividade.

O espetáculo apresenta o cotidiano caótico de uma família: Rita, a mãe centrada e firme; Jorge, o pai provedor e afetuoso; e Lia, a filha adolescente de 15 anos que não é muito bem compreendida. Entre as arrumanças da casa, cansaço do trabalho CLT, e a corrida para ir à escola, a encenação expõe como as "regras de convivência" impostas pela sociedade falham em acolher quem está em outras formas de rotina.

Um dos acertos da direção e da dramaturgia está no uso de um certo tipo de distanciamento. A narrativa do cotidiano doméstico é interrompida em alguns momentos, após algumas tiradas cômicas, o celular esquecido no forno e os absurdos de um liquidificador que pifa expelindo fumaça, as personagens se prontificam diante da plateia, não é o único momento em que há a quebra da quarta parede, mas nesses em específico oferecem ao público depoimentos de uma honestidade tocante.

O depoimento da jovem Lia é um soco no estômago da neurotipicidade. Surge a partir de uma sonoplastia barulhenta de buzinas, ruídos, a TV e o liquidificado ligados esquecido por Jorge, simula o caos da sua mente. Lia expõe a chateação de ter sua hipersensibilidade sensorial tratada como "besteira", qualquer coisa, questiona a plateia se elas também conseguiram ouvir aquela barulheira. O seu discurso não é um pedido de isolamento social, mas um grito por empatia e compreensão sem que precise anular sua própria essência, ela alega que apesar de precisar se isolar para se regular, ela não quer que as pessoas se afastem definitivamente e vão embora, ela pede para que elas possam retornar e não deixar ela sozinha.

Para mim, o momento mais denso do espetáculo, é quando Rita narra a trajetória da maternidade, os percalços na escola e o diagnóstico da filha, a frase: "O que foi que eu fiz de errado?", ecoa a dor de milhares de mães típicas. No entanto, o diagnóstico da filha espelhou o seu próprio diagnostico tardio como pessoa com TEA (Transtorno do Espectro Autista) também. Mas o ápice emocional surge quando ela explica que precisa cuidar de todos em sua volta, e questiona de forma demolidora: "Mas quem é que cuida de mim?". A cena do abraço permitido, superando a hipersensibilidade sensorial de Rita em prol do afeto da filha Lia, é de uma beleza ímpar.

O pai da família interrompe o momento pedindo aplausos da plateia pelo momento tocante, mas ele também ganha uma dimensão humanizadora. Jorge expõe a angústia de passar a vida tentando "preencher o silêncio" sendo uma pessoa com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), mostrando que a hiperatividade e o esquecimento não são meros desleixos, mas uma engrenagem que tenta, a seu modo, sustentar e amar aquela família.

Eu assisti o espetáculo nas suas duas sessões, na primeira noite foi a que mais me agradou, acredito que pelo fato de eu ter ficado na primeira fileira. No segundo dia, fiquei numa das últimas fileiras, percebi alguns momentos de fraqueza na projeção. No entanto, o espetáculo demonstrou um cenário setorizado, com uma plataforma elevada para o quarto de Lia, a cozinha a frente do seu quarto, a sala ao lado do quarto de Lia e a mesa de refeições próxima ao proscênio, considero que o desenho apresenta bem a geografia do caos doméstico, quando objetos vazão de um setor para o outro da casa.

Ficou evidente que a dramaturgia estava viva, permitindo que o elenco jogasse com o imprevisto, como o hilário momento em que Jorge "quebra o braço" de Rita numa tentativa de cena "caliente" atrás do sofá embalada pela assistente virtual "Janja" – que acabava se configurando como uma personagem praticamente entregando a partir da sonoplastia alguns efeitos cômicos A maleabilidade do texto para o improviso, evidenciada diversas vezes pelas variações entre as sessões, dá um ar de frescor em saber que tudo é imprevisível e ao mesmo tempo absurdo, como no primeiro dia o entregador de pedidos de comida vem de bike e no outro vem de barco.

A maquiagem cumpre um papel poético. Rita e Lia trazem peças de quebra-cabeça desenhadas no rosto; Jorge carrega desenhado no rosto flores de girassol. Longe de serem meros detalhes, os símbolos dialogam com os figurinos e colaboram para a identidade visual dos personagens.

Após vários outros espetáculos da 3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA, o espetáculo Casa em Curto-circuito veio para encerrar com um respiro consciente e divertido. É leve sem ser fútil, é extremamente sensível sem descambar para o sentimentalismo barato. É perceptível um processo de cura no teatro, que as pessoas atuantes trazem muito de si para a cena, afinal, o elenco é composto por pessoas com neurodivergência, – e a cura aqui é sobre denunciar e tentar superar a falta de compreensão da sociedade.

A mensagem final é urgente: não se trata de encaixar as peças de um quebra-cabeça à força, mas de exercer a alteridade. Entender que o outro é o outro. É um espetáculo que sai do palco direto para o peito do espectador, se esse o permitir ser tocado. O espetáculo precisa rever certos pontos de direção, no sentido de não deixar muitas repetições se tornarem demasiadas – vale o pleonasmo, porque nem toda repetição fica demasiada. Mas aqui eu planto a certeza de que este espetáculo tem potencial para circular por outros espaços cênicos mundo a fora. Quando eu assisti no primeiro dia, eu sentir isso.

Julho de 2026

[1] ARTH é pessoa não-binária, afro-amazônida, multiartista, artivista, pesquisadora e arte-educadora, nascida e criada na periferia entre o bairro Jurunas e Condor, em Belém (PA). Atualmente, está vinculada ao Mestrado Profissional em Artes da Cena - Turma Especial: Laboratório em Artes e Mediação Cultural, pelo Programa de Pós-graduação Profissional em Artes da Cena (PROA) da Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH). É especialista em Artes (UFPel), possui graduação em Letras Língua Portuguesa (UFPA) e formação técnica em Teatro (ETDUFPA), está em formação superior em Licenciatura Em Teatro (UFPA). Atua transitando entre o palco e a rua nas áreas de Artes, Cultura e Sociedade. Como ator/atriz-criadora, desenvolve dramaturgias pretas e amazônidas a partir de vivências periféricas. Além do palco ocupa a rua ao integrar o movimento Hip-Hop como slammer e slammaster do SLAM COMPARÊNCIA no bairro do Guamá e ser integrante do Coletivo Hip-Hop Pai D'Égua.

Ficha Técnica:

Casa em curto-circuito

Elenco:

Beatrice, Lolita, Mac

Direção:

Nivea Cruz, Cau Oliveira, Ester Ribeiro

Texto e Dramaturgia:

Nivea Cruz

Cenografia:

Diogo Lira, Érica Góes e Ronald Almeida

Iluminação:

Érica Góes

Sonoplastia:

Jam Sancas

Share