A crítica teatral como caminho de desobediência na Tribuna do Cretino - Alana Lima

Tribuna do Cretino - Vol.01 - N°01 - 2025 - ISSN: 3086-1179

Alana Lima[1]

Faz dez anos que escrevi minha primeira crítica pra Tribuna. Na época eu era uma caloura do curso técnico em Teatro da Escola de Teatro e Dança da UFPA, recém-formada em Letras – língua portuguesa e ouvia pelos corredores "quem é essa menina e quem ela pensa que é pra criticar um espetáculo?". Começo essa escrita com esse relato porque penso que é marcante na trajetória da tribuna a "crítica ao crítico". Conheci a Tribuna pelo Edson Fernando, meu então professor de Técnicas Corporais I, disciplina inicial do curso técnico. Ele já era coordenador da revista e um grande incentivador da reflexão crítica sobre o teatro da cidade. Veja bem, eu disse reflexão crítica – e não exatamente a crítica escrita. Mas acredito que a revista Tribuna do Cretino nasce exatamente dessa sede, dessa fome, dessa força do Edson em ser um fazedor de teatro que reflete o seu fazer. Achava isso bonito à época e hoje acho que isso me motivou nos últimos 10 anos a seguir fazendo teatro em Belém.

Tenho uma relação afetiva com a Tribuna, pois vivi várias fases na revista e assumi lugares diversos ao longo desses anos. Comecei escrevendo críticas despretensiosas, passei a fazer a revisão ortográfica das edições impressas, participei de diversos bate-papos em atividades vinculadas ao projeto e, hoje, escrevo como corpo editorial. To achando chique, acho que realizei um sonho de infância – trabalhar em uma revista. Faço questão de escrever esse texto em tom informal, como uma conversa, porque sempre foi assim que me chegou a paixão pela crítica teatral. Em 2015 eu realmente não era ninguém pra criticar um espetáculo, era apenas público – e isso já era suficiente. Esse foi meu primeiro aprendizado com o Edson e que nunca me saiu da mente: o crítico não é um intelectual com grandes habilidades de escrita, com um conhecimento técnico e capacidade de sistematizar suas percepções em um texto. Na verdade, ele até pode ser tudo isso, mas não precisa. O crítico é, antes de tudo, plateia. E olha que mágico imaginar que uma garota recém-chegada ao universo técnico do teatro se sentiu motivada o suficiente pra escrever sua reflexão crítica sobre um espetáculo – essa perspectiva sempre me agradou, porque ela me traz uma noção de acesso que acredito e defendo no teatro. Escrever sobre teatro deve, antes de qualquer coisa, ser exercício coletivo de reflexão sobre o que a gente faz e o que ainda queremos fazer.

Acontece que há uma brecha nessa minha fala e na forma como vejo e defendo a crítica, essa brecha se repete nos últimos 10 anos em quase todos os momentos em que a Tribuna é posta em debate – gente que faz teatro não sabe receber crítica. Quero acreditar que melhoramos nos últimos anos. Mas sempre houve uma complexidade em quem assume o risco de pensar o teatro que estamos fazendo e escrever sobre isso, publicar, expor sua voz e seu saber, sua análise e suas incoerências. O crítico foi por muito tempo o temor dos espetáculos. "Olha, o crítico veio!" – frase que sei que o Edson ouviu muitas vezes ao sentar na plateia do teatro. O ponto que me agrada aqui é que a Tribuna é exatamente sobre isso, sobre o incômodo de mexer com o vespeiro, de movimentar a cena em outras esferas, de abrir espaços de escrita para quem chegou ontem ou há 20 anos no teatro da cidade. Há algo de profundamente subversivo na escrita que nasce do chão da cena. A Tribuna não é apenas uma revista de crítica teatral — é um espaço de troca e criação do pensamento em teatro, de estímulo à reflexão e à pesquisa sobre a cena. A crítica não é um espelho, nem um ataque, mas parte do que também é fazer teatro: convocar, provocar, convidar pra jogo.

Aproveito, então, pra convocar pro jogo um cara que adoraria falar de crítica teatral, Foucault. Em "O que é um autor?" ele nos convida a deslocar o olhar sobre o gesto da escrita. O autor, para ele, não é origem nem centro do sentido, mas uma função que organiza o campo dos discursos — um ponto móvel que se desfaz na própria trama das palavras. Partindo dessa lógica, a Tribuna reinventa o que a gente entende por autoria na crítica teatral: ali, o "crítico" não é o dono da voz, mas aquele que empresta seu corpo à escuta do teatro e o transforma em reflexão escrita. Cada texto da revista parece soprar uma pergunta foucaultiana: e se a crítica fosse também uma cena? E se o escrever sobre teatro fosse uma continuação do próprio ato de encenar?

Assim, em meio às críticas dos corredores, das mesas de bar, das salas de esperas dos espaços alternativos da cidade, há um espaço virtual onde falar sobre teatro é ato de transformação, de movimento poético. A Tribuna é a continuidade da cena, é o papo entre quem faz e quem consome, é o lugar da permanência teatral quando o encontro parece ter acabado. Lembro com carinho de uma ação do projeto lá em 2015, as Sabatinas Críticas, que proporcionavam um espaço aberto de debate após a crítica. Então o espetáculo acontecia, mas seguia reverberando em forma de texto e depois de debate a céu aberto entre diretores, elenco, público e crítico. Sempre vou sentir falta desse local de troca entre nós, que fazemos e pensamos teatro e acredito na Tribuna como essa força que segue tentando criar diálogos essenciais.

Não posso deixar de apontar também um aspecto pedagógico que muito me toca na crítica teatral – a formação da plateia. Aciono Flávio Desgranges quando propõe que o teatro precisa pensar uma pedagogia para o espectador, como caminho de acessibilizar a linguagem, mas principalmente de fazer o teatro chegar em quem não o vê como demanda essencial. Quando falo de demanda essencial, me refiro à comida, água, saúde pública... as estruturas de poder do estado não querem que a gente pense a arte como demanda essencial, mas ela o é. Quais armas nós temos, então, para formar esse público em relação ao direito e à urgência da arte? Ocupação das ruas, relações em rede com espaços comunitários e periféricos, articulações entre grupos e, por que não, a crítica. E aqui não a crítica sisuda, acadêmica, intelectualizada a tal ponto que é ilegível a grupos diversos, mas a crítica que aprendi em 2015 com o Edson Fernando – a que pode ser feita pelo público leigo, ávido, interessado em conectar suas vivências e saberes com o espetáculo que assiste. Eu, moradora e mobilizadora do bairro do Guamá, em Belém, vejo em minha vizinhança grandes críticos de arte que só precisam de um pontapé de estímulo pra, quem sabe, comentar e escrever sobre o que veem. Entendam, não estou aqui sendo contra a crítica acadêmica, estruturada, pensada a partir de referenciais técnicos e teóricos, mas defendo que não somente essa crítica precisa de espaço, pois ela já ocupa um lugar de privilégio social e de acesso limitado a uma minoria populacional – os intelectuais da arte.

Seguindo nessa lógica, defendo a crítica como um movimento de descolonização de pensamento e prática teatral, especialmente quando se trata do teatro da Amazônia. A Tribuna também pode ser lida como esse espaço de voz e protagonismo de artistas, público e pesquisadores amazônidas falando sobre o que se faz aqui – e é muita coisa, a gente sabe. Produzir escritas diversas sobre arte no nosso território é, por si só, um movimento de resistência política, poética e identitária. Uma pedagogia da descolonização reconhece nas práticas do corpo, nas nossas vozes, nos nossos fazeres cênicos a potência de outros modos de existir no mundo – e aqui convoco as palavras e perspectivas pedagógicas de Luiz Rufino, em Vence-Demanda. Ao escrever sobre o teatro da Amazônia, a Tribuna convoca uma outra geografia da crítica — uma que não se curva aos centros, mas se ergue do chão úmido, das águas e dos quintais. Ela pratica o que Rufino chama de pedagogia do encantamento: uma forma de conhecer que é também uma forma de curar. O texto crítico deixa de ser arma de julgamento e se torna gesto de partilha, de comunhão com as obras e com quem as cria.

Sem querer reforçar ilusões, mas acreditando firmemente em nossa capacidade de movência e mudança perante ao reconhecimento da identidade teatral da Amazônia, afirmo que a Tribuna propõe uma crítica que é criação — uma escrita que se insubordina à lógica colonial de quem fala sobre com superioridade e hierarquia de saber. É escrita que se deixa atravessar, que se contamina, que se reconhece cretina no melhor sentido: aquela que desobedece as ordens, ri das hierarquias, que não aceita as fronteiras entre o que é arte e o que é vida, entre o que é autor e o que é comunidade.

Escrever sobre teatro, assim, é também criar mundos. É continuar o espetáculo por outros meios. É fazer da crítica um gesto político e poético de desobediência — um modo de dizer que o teatro, quando escrito a partir do corpo e do território, não cabe em definições, mas se espalha como palavra que não morre, não se encerra. A Tribuna é, portanto, um espaço de criação, problematização e reencantamento do olhar — onde o ato de pensar é também o ato de sonhar e de existir em liberdade.

Outubro de 2025

[1] Palhaça, educadora, produtora cultural na Amazônia paraense. Membro do comitê editorial da Tribuna do Cretino, do Coletivo de animadores de caixas e da Ubuntu produções artísticas. 

Referências

DESGRANGES, Flávio. A pedagogia do espectador. 2001.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos: estética, literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. v. 3, p. 1-44.

RUFINO, Luiz. Vence-demanda: Educação e descolonização. Rio de Janeiro, Mórula, 2021.