A Deusa da loucura é louca?
Experimento Cênico: O Elogio da Loucura
Solo Teatral de Claudia Maués
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Maria Eduarda Ribeiro Luz[1]
A apresentação "Elogio da Loucura" é um curto monólogo interpretado pela atriz Claudia Maués, apresentado na Escola de Teatro e Dança da UFPA. A obra apresenta diversas camadas de interpretação e propõe uma reflexão sobre a forma como os seres humanos costumam utilizar a palavra "loucura" para justificar atitudes cruéis, violentas e moralmente erradas.
Na apresentação, a loucura é personificada através da figura da Deusa da Loucura, uma personagem feminina que questiona constantemente a responsabilidade que colocam sobre ela. Durante a narrativa, são citados exemplos de agressores, abusadores e criminosos que atribuem suas ações a um "momento de loucura", enquanto a personagem busca mostrar que maldade e violência não devem ser justificadas dessa forma.
A obra também propõe uma reflexão sobre como a sociedade constrói determinados significados em torno da loucura, trazendo uma visão diferente daquela normalmente associada apenas ao caos ou algo negativo. A apresentação é inspirada no livro "Elogio da Loucura", de Erasmo de Rotterdã.
Cenário e iluminação:
Apesar de possuir poucos elementos cenográficos, a ausência de um cenário elaborado não prejudicou a construção da narrativa. Pelo contrário, fez com que toda a atenção do público se voltasse para a atriz e para os símbolos presentes na apresentação. Os refletores posicionados no chão permaneceram ligados durante praticamente toda a performance, utilizando luzes vermelhas e azuis que criavam uma atmosfera mística, intensa e quase ritualística. O contraste das cores no corpo da atriz reforçava a sensação de algo simbólico e imaginário, fortalecendo a construção visual da Deusa da Loucura.
Figurino:
O figurino teve papel importante na construção da personagem. Os acessórios, folhas, flores, cordões e demais detalhes criavam uma estética marcante, quase divina. Os olhos desenhados nas mãos e na testa chamavam atenção visualmente e simbolicamente, remetendo à ideia dos "olhos que tudo veem". O figurino não funcionava apenas como elemento estético, mas como parte da narrativa visual da personagem.
Conclusão:
Por ser um monólogo, toda a responsabilidade de conduzir a narrativa estava concentrada em uma única intérprete. Isso exigia presença cênica, domínio corporal e capacidade de manter a atenção do público. O início da apresentação, marcado por movimentos corporais mais hipnotizantes e uma atmosfera mística, introduzia o espectador ao universo simbólico da obra antes mesmo do desenvolvimento principal das falas.
Mesmo sem ter lido o livro que inspirou a apresentação, foi possível compreender sua principal mensagem. A obra constrói uma crítica social importante ao questionar o hábito de responsabilizar a "loucura" por atos violentos e cruéis. Além disso, a subjetividade presente na montagem faz com que diferentes espectadores construam interpretações diferentes sobre a experiência. A atmosfera criada pela iluminação, pela construção corporal da atriz e pela estética visual fortaleceu o caráter místico da apresentação, criando uma experiência marcante e reflexiva.
Maio de 2026
[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;
Elogio da Loucura
Solo Teatral de Claudia Maués
Direção:
- Elcio Lima
Dramaturgia:
Claudia Maués
Figurino:
Claudia Maués
Elcio Lima
Trilha Sonora:
A deusa da Loucura, de Oswaldo Montenegro
Sonoplastia:
Elcio Lima
Produção:
Claudia Maués e Elcio Lima
Apoio:
Thiago Ramos
