A Grande Vereda de Karine Jansen – Por Raphael Andrade

06/03/2026

Tribuna do Cretino - Vol.02-N°02-2026 / ISSN 3086-1179

Raphael Andrade[1]

Há trajetórias que não cabem na simples sucessão de cargos, espetáculos ou títulos acadêmicos. Algumas vidas se desenham como caminhos. Trilhas abertas no meio do mato, veredas largas que muitos atravessam depois. A trajetória de Karine Jansen pertence a esse tipo de história. Uma história que, pouco a pouco, deixou de ser apenas pessoal para tornar-se parte da memória cultural do teatro paraense. Como lembra Paul Ricoeur (2007), toda memória individual quando compartilhada e transmitida, passa a integrar o tecido mais amplo da memória coletiva.

Durante mais de vinte anos de dedicação à Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, Jansen percorreu com intensidade as quatro grandes frentes da universidade: ensino, pesquisa, extensão e administração. Dizer isso de maneira burocrática reduziria a dimensão de sua presença. Na prática, Karine fez algo mais raro: habitou a universidade com o corpo inteiro. Nesse sentido, sua trajetória confirma aquilo que Paulo Freire (1996) compreende como uma prática educativa encarnada na experiência, na qual ensinar não se limita à transmissão de conteúdos, mas envolve a partilha de mundos, histórias e sensibilidades.

Na sala de aula, formou gerações de atores, diretores, pesquisadores e professores. Na pesquisa, abriu caminhos para pensar o teatro e a performance a partir de nossas próprias territorialidades amazônicas, recusando a ideia de que o pensamento artístico precisaria sempre vir de fora para adquirir legitimidade. Essa perspectiva dialoga com debates contemporâneos sobre epistemologias situadas, que reconhecem a importância do território e da experiência local na produção de conhecimento (Santos, 2019).

Na extensão, fez a arte transbordar para além dos muros institucionais. Na administração, participou de processos estruturais que ajudaram a consolidar a Escola de Teatro e Dança como um espaço vivo de criação, reflexão e produção de conhecimento. Nesse percurso, a universidade deixa de ser apenas uma instituição e passa a funcionar como um espaço de encontro e de construção coletiva.

A artista em questão pertence a uma geração que decidiu permanecer. Em um tempo em que muitos artistas e intelectuais acreditavam que seria preciso partir para que suas trajetórias ganhassem reconhecimento, ela escolheu outro caminho. Escolheu ficar. Escolheu fazer do Pará o centro de sua experiência artística e intelectual. Essa decisão ecoa reflexões sobre pertencimento e territorialidade cultural, nas quais permanecer também se constitui como gesto político e epistemológico (Hall, 2006).

Ainda bem que Karine Jansen é nossa! Ainda bem que permaneceu neste território. Ainda bem que decidiu investir sua inteligência, sua sensibilidade e sua inquietação criadora na construção da arte produzida aqui. A história do teatro paraense certamente seria outra sem a presença persistente de artistas que decidiram permanecer, construir e transformar.

Ela foi também uma das pioneiras a desenvolver reflexões e práticas sobre performance no Norte do Brasil. Quando esse campo ainda encontrava poucos espaços de discussão na região, ela já investigava suas possibilidades, compreendendo o corpo como lugar de criação, pensamento e memória. Como observa Diana Taylor (2013), a performance constitui um modo de transmissão de saberes que ultrapassa os arquivos escritos, inscrevendo memória e conhecimento no próprio corpo.

Tive a honra de ser seu aluno no curso técnico em Teatro e também na Licenciatura em Teatro. Mais que professora e "mestra do meu barco", Karine foi minha orientadora. Em determinado momento, pude ajudá-la a organizar seu vasto portfólio artístico e acadêmico. Folhear aquelas centenas de páginas foi como assistir a uma narrativa viva da história recente do teatro paraense. Espetáculos, projetos, pesquisas, encontros, desafios institucionais, desafios físicos, conquistas coletivas. Tudo ali pulsava como um grande arquivo de memória.

Há algo profundamente bonito nesse gesto de lembrar. Porque trajetórias como a de Karine não se constroem apenas por obras concluídas. Elas se constroem, sobretudo, por processos, encontros e experiências compartilhadas. Como sugere Victor Turner (1982), o teatro e a performance são também espaços de encontro e de transformação, nos quais as experiências humanas são reelaboradas coletivamente.

Por isso, seu memorial, defendido há pouco tempo, apresenta-se quase como uma dramaturgia da vida. Um tecido de lembranças que revela como o teatro pode atravessar a existência de uma pessoa e, ao mesmo tempo, transformar a vida de muitos outros. A sua direção de "Grande Sertão: Veredas", que finalizará no início de 2026, surge então como um gesto simbólico de travessia. Um momento em que uma artista que dedicou décadas à formação e à criação decide encerrar um ciclo institucional dentro da Escola de Teatro e Dança da UFPA.

Mas quem conhece o sertão de Guimarães Rosa sabe que nenhuma vereda termina de fato. Pois as veredas se bifurcam, prolongam-se, multiplicam-se. Uma termina para que a outra comece. A própria ideia de travessia, tão presente na obra rosiana (Rosa, 1956), parece oferecer uma imagem poderosa para compreender esse momento da trajetória de Karine.

A professora, pesquisadora, atriz, diretora, encenadora, advogada, mãe, e mulher Ana Karine Jansen de Amorim (não exatamente nessa ordem) encerra aqui um ciclo. Contudo, aquilo que construiu ao longo de mais de duas décadas já não pertence apenas ao passado. Permanece vivo na memória de seus alunos, nas montagens que dirigiu, nas pesquisas que orientou, nas metodologias que criou e nos caminhos que abriu para o teatro e para a performance na Amazônia.

Sua trajetória tornou-se matéria da história. E quando a história de uma artista passa a confundir-se com a história de um lugar, já não se fala apenas de uma carreira. Fala-se de um caminho aberto no tempo.

Uma vereda.


Uma GRANDE vereda.


A vereda de Karine Jansen.

E nós, que tivemos o privilégio de caminhar por ela, sabemos que nenhuma travessia termina quando o caminho se fecha. Ela continua nos passos de quem segue adiante.

Belém, 06 de Março de 2026


[1] Discente de Karine Jansen. Entre todos os diplomas, títulos e cargos que a vida acadêmica pode conceder, esta permanece sendo, talvez, a minha maior titulação.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora Unicamp, 2007.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1956.

SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo. Coimbra: Almedina, 2019.

TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.

TURNER, Victor. From ritual to theatre: the human seriousness of play. New York: PAJ Publications, 1982.