A Loucura Nossa de Cada Dia.
Experimento Cênico: O Elogio da Loucura
Solo Teatral de Claudia Maues
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Andréa Rocha[1]
A cena, que é uma livre adaptação da atriz Claudia Maués para o texto de Erasmo Roterdã "O elogio da Loucura" (livro, Os grandes clássicos da literatura), com direção de Élcio Lima. O texto fala sobre a loucura, apresentado em um monologo de 30min. aproximadamente, onde a atriz traz no figurino junto com a iluminação, uma atmosfera solar com flores amarelas e estampas em tons de verde, a maquiagem compõe a personagem com olhos desenhados na testa e nas palmas das mãos, representando uma ampla visão do que pode ser a loucura. A personagem é a Deusa da Loucura, que passa a defender o seu reinado, falando do lado "são" da loucura. Ou seja, da loucura criativa, libertadora, que as artes entendem tão bem. Sobre uma luz em tom vermelho a personagem fala dessa loucura que transforma, a loucura da transgressão tão necessária. Nice da Silveira, psiquiatra brasileira que revolucionou o tratamento dentro dos manicômios brasileiros, dizia: "Não se curem além da conta, Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura"[2]
Nice da Silveira, considerada uma psiquiatra rebelde, dedicou-se a psiquiatria sem nunca aceitar as formas de tratamento da época. Em 1946, ela fundou a seção de terapia ocupacional, onde montou os ateliês de atividades expressivas, levando a arte como ferramenta terapêutica, e uma opção mais humanizada aos tratamentos convencionais. O trabalho de Nice da Silveira nos mostra que, a arte e a loucura andam juntas, todo artista tem um pouco de loucura como companheira – por ter escolhido a arte como ofício em um mundo capitalista. A loucura é necessária para o exercício da criação, da transgressão, também necessária num mundo opressor. Como cita a Deusa: "Cada um tem um pouco de loucura dentro de si"; uma loucura que anda lado a lado com a liberdade. A liberdade da imaginação da criança que cria mundos e amigos imaginários, a liberdade do idoso que ao longo da vida aprende que não precisa se preocupar com julgamentos alheios, assim como Nice da Silveira lutou pela liberdade do ser considerado louco, a liberdade de ser um ser humano, com capacidade criativa e não um animal que precisa ser domesticado. Com o elogio à loucura a deusa defende o seu reinado com paixão, que também anda lado a lado com a loucura.
Que a loucura nossa de cada dia nos dê a arte.
Maio de 2026
[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;
[2] Nise da Silveira, Vida e Obra – Uma psiquiatra rebelde https://share.google/oAtmg02dL9BzAPU7S
