A Marginal Manuela
Montagem Teatral: Marginal
3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Arth Souza Silva Lopes[1]
Foi um outro dia para acentuar o meu risco de vida. Tentaram me assaltar, mas eu revidei e botei os ladrões para correr. Eles queriam alguma coisa da minha mochila, mal eles sabiam que eu carrego o mundo nela, que eu não ia deixar e que eu ia preferir, sem pensar, morrer mais uma vez, deixando meu impulso por justiça gritar mais alto que a minha própria sobrevivência. Esse acontecido foi o estopim para tomar a decisão: "Hoje, eu vou faltar uma parte da aula e vou assistir Marginal!" Assim o fiz, e que bom que o fiz. Pude me pôr a processar melhor o que me ocorreu no dia e me identificar profundamente com o que eu viria presenciar.
Ao assistir Marginal, no Teatro Universitário Cláudio Barradas (TUCB), na sessão única e última, às 19h30, do dia 03 de julho de 2026, me depararei com um espetáculo que equilibra uma imensa força poética, psíquica e política. A peça traz a trajetória de Manuela, uma mulher trans preta que vive em situação de rua, qual acaba tendo que lidar com as forças/vozes da sua mente permeada de traumas, quais se revelam memórias/rupturas que afetam sua identidade/realidade ao se confrontar com a difícil situação de quem não tem o que comer, e endosso a pergunta que move o espetáculo, é a mesma que baseia a vida de muitas cidadãs e cidadãos, brasileiras e brasileiros: "Existir ou sobreviver?"
Logo de cara, surge a silhueta de uma pessoa deitada projetada numa panada branca que faz alusão a entrada de uma barraca, a intérprete-atriz atravessa, a luz a encontra. O público é arrebatado pela presença cênica de Anastacia Marshelly, dando vida a Manuela, provocando o público com frases de afrontamento, do tipo: "Tão olhando o quê?". Com muitos anos de experiência e um domínio corporal vindo de sua bagagem como excelente dançarina e intérprete, Anastacia apresenta um arcabouço e uma firmeza ímpar no palco. Eu digo: Presença!
Essa potência, contudo, acabou revelando uma desvantagem nos outros três integrantes do elenco. E, aqui, é importante ressaltar que não se trata de uma competição de quem é melhor ou pior, ou uma avaliação que não considera que o ofício artístico requer experiência. O que importa – o que deve ser levado em consideração – é o relato daquilo que ficou evidente na cena: uma ausência de experiência cênica das outras pessoas atuantes, e que, evidentemente, se esforçaram muito para tentar alcançar a sua presencialidade.
Essas três pessoas atuantes dividiam-se na personificação da mente de Manuela, representando as instâncias da psicanálise freudiana: o Id (o impulso), o Ego (o equilíbrio) e o Superego (a moralidade). Embora o grupo tenha enfrentado dificuldades para alcançar o ápice dessa firmeza em cena, houve resgates importantes.
A atriz que fez o Id e o ator que fez o Superego conseguiram, em determinados momentos, chegar perto de um presencialidade condizente ao da protagonista. O destaque absoluto do trio vai para o ator que interpretou o Superego, o único que conseguiu dar durabilidade para uma força de presença cênica condizente, com uma excelente leitura do ambiente, ele utilizou "cacos" oportunos e geniais na relação com a plateia, ditando o ritmo e contribuindo imensamente para a construção coletiva de algumas cenas.
Outro ponto que salta aos olhos é a cenografia. Pensada a partir do contexto de vulnerabilidade da personagem, a ambientação reconstrói a expectativa social da rua através de resíduos sólidos descartáveis e reaproveitados. É uma solução criativa e uma alternativa sustentável, louvável diante de uma provável e frequente situação de escassez de recursos para produção teatral na cidade. O lixo espalhado, propondo uma imersão, funciona perfeitamente como metáfora para a mente conturbada, traumatizada e sofrida de Manuela em sua relação com o Id, o Ego e o Superego.
Porém, o conceito esbarrou um pouco na funcionalidade. Houve uma visível dificuldade de algumas pessoas atuantes em se relacionarem com esses objetos no meio do caminho. O mapa de movimentação pelo espaço cênico acabou atrapalhado pelo "entulho"; as pessoas atuantes pisavam, desequilibravam-se e, em certos momentos, precisavam bater na cenografia para retirá-la do caminho. Embora as recuperações tenham sido muito rápidas, o vaivém de objetos que deveriam fixar a ambientação gerou ruído – talvez essa relação tenha sido intencional. Mas é possível ajustar a intimidade com o cenário pela sua grande importância na linguagem visual do espetáculo para que a imersão não quebre a ilusão cênica.
No que se refere aos aspectos de sonoplastia e iluminação, o espetáculo operou de forma muito precisa dentro do tempo dito "certo" – o que difere de outras experiências no TUCB. Havia um certo delay nos equipamentos de luz – como sempre –, mas esse atraso acabou combinando com a atmosfera fragmentada da peça. O maior mérito por amarrar essa engrenagem técnica foi de quem estava atuando. Anastacia Marshelly conseguiu entrar perfeitamente no ritmo da luz, da musicalidade e da sonoplastia. Como protagonista, foi ela quem conduziu e sustentou o espetáculo, se relacionando de forma expressiva e inteligente com as oscilações e limitações técnicas que os equipamentos do TUCB possuem.
E aqui relato uma coisa interessante: Algumas pessoas espectadoras demonstraram não aprovar o desfecho de Manuela, que termina a peça amarrada por seus próprios pensamentos e sai de cena esculachada pelo Id, Ego e Superego. Mas cabe a provocação: que desfecho positivo, seja poético ou realista, seria possível criar para uma persona na condição de vulnerabilidade extrema de Manuela?
É aí que reside a grande virada de chave do espetáculo. Quando a personagem sai de cena toda amarrada, ocorre um blackout. Ao retornarem, as pessoas atuantes revelam que tudo aquilo foi uma grande encenação convocando a equipe técnica para arrumar o cenário. O uso da metalinguagem, o teatro dentro do teatro, as artes cênicas revelando a si mesmas, transforma a experiência. No final das contas, o espetáculo responde ao seu próprio dilema entregando a arte como resposta. Diante da pergunta "Existir ou sobreviver?", o teatro surge como o espaço onde, finalmente, é possível existir.
Marginal possui uma força poética, psíquica e política grandiosa e necessária, capaz de nos provocar profundamente, nos arrancar lagrimas e altos risos. Que as observações aqui relatadas sirvam de mola propulsora para que este espetáculo volte a ser encenado outras vezes. Bem, eu super assistiria de novo e acredito que outras, muitas outras pessoas deveriam assistir também...
Julho de 2026
[1] ARTH é pessoa não-binária, afro-amazônida, multiartista, artivista, pesquisadora e arte-educadora, nascida e criada na periferia entre o bairro Jurunas e Condor, em Belém (PA). Atualmente, está vinculada ao Mestrado Profissional em Artes da Cena - Turma Especial: Laboratório em Artes e Mediação Cultural, pelo Programa de Pós-graduação Profissional em Artes da Cena (PROA) da Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH). É especialista em Artes (UFPel), possui graduação em Letras Língua Portuguesa (UFPA) e com formação técnica em Teatro (ETDUFPA), em formação superior em Licenciatura Em Teatro (UFPA). Atua transitando entre o palco e a rua nas áreas de Artes, Cultura e Sociedade. Como ator/atriz-criadora, desenvolve dramaturgias pretas e amazônidas a partir de vivências periféricas, além de integrar o movimento Hip-Hop como slammer e slammaster do SLAM COMPARÊNCIA no bairro do Guamá e ser integrando do Coletivo Hip-Hop Pai D'Égua.
Ficha Técnica:
Marginal
Elenco:
Anastacia Marshelly
Bianca Alencar Machado
JP Meirelles
Robert Trindade
Produção Executiva:
Jéssica Jardim Cruz e Mateus Monteiro Piedade
Dramaturgia e Direção Geral:
Jéssica Jardim Cruz
Direção sonora e conceito artístico:
Mateus Monteiro Piedade
Cenografia:
Manuela Castro
Desenho de iluminação e operação de luz:
Nathan Lavareda
Assistente de iluminação:
Ster Ribeiro
Figurino:
Márcia Cristina
Apoio:
Laysa Gabrielle, Jam Sancas e Júlia Rosa dos Anjos
Operador de som:
Mac Silva
Mídia:
Luana Valadares e Bianca
Orientadores:
Adriano Furtado e Carmem Virgolino
Fotografia:
Victoria Rodrigues
Ajuda e apoio:
Gil, Bea Eleres, Priscila Alves de Alencar.
