A neve derrete no inferno verde
Montagem Teatral: O tempo que a chuva não levou
Montagem: Grupo Cuíra do Pará
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Hudson Andrade[1]
"Muita neve. Muito branco." Foi assim que o Adriano Barroso se referiu à obra de Anton Tchekhov (1860 – 1904), um dos grandes dramaturgos russos que nos legou clássicos do teatro muitos anos atrás, quando discutíamos textos para montagens teatrais. Pois foi exatamente Barroso que adaptou a obra Tio Vânia, cuja primeira encenação foi em 1897 e a primeira montagem russa, em 1899, para o Teatro de Arte de Moscou, com direção de Constantin Stanislavski. E é exatamente pela dramaturgia que eu desejo começar a tecer esses cipós. Tchekhov (vou escrever assim, tá bom?! Achei fino!) é considerado um escritor da condição humana. Alguém que escreveu obras que, nas palavras do diretor Antonio Abujamra: "não escreveu obras há mais de cem anos, ele escreveu ontem sobre nós aqui, sempre" (2007). Os escritos de Tchekhov são reconhecidos por serem ricos em detalhes, sem romantização nem idealização da realidade, com enredos complexos, irônicos e filosóficos. Nos textos curtos dos personagens revela-se uma enorme complexidade. Agora imagine ser a pessoa que traduz todo esse universo russo, branco e gelado para as amazônicas paisagens verdejantes, suarentas, não raro sufocantes. Ao invés da estepe, árvores gigantescas que invadem um casarão antigo de cujos galhos brotam casulos. Aquelas pessoas que ostentam algo que não mais são ou têm permanecem. Seus jogos de poder, seus desejos obscuros, sua solidão. Isso é igual. As falas saem aos borbotões e vai-se criando uma narrativa caudalosa como rios. Podemos dizer que velhice, solidão, sonhos desfeitos, rumos perdidos são naquela Rússia e no Brasil de hoje, semelhantes. Não devemos, por ora, julgar se isso é bom, ou mau. O trabalho de Adriano Barroso é muito bom. Tem identidade própria e particularidades que não vemos em outros de seus escritos. E comunica. Não se torna algo capaz de nos distanciar do original, mas acende a vontade para quem, como eu, que não li essa dramaturgia, de conhecer a fonte.
Nessa tessitura vegetal que me proponho chego à encenação. A cenografia de Jeff Cecim traz para dentro da Casa Cuíra, local desta primeira temporada, a floresta. Como em outros momentos da história, a Amazônia come aquilo que a invade. Nós somos colocados dentro dessa casa-mata (ou dessa selva-lar) cheia de sombras não importa seja dia ou noite. Parte do elenco sai de redes-casulos como larvas que não aprenderam nem aprenderão a voar. Seguirão rastejando. Santana propõe sua direção com figurinos sobrepostos, volumosos, maquiagem carregada – ambos terrosos –, personagens fluidos, atuações exigentes. Sob sua direção os atores têm condições de criar, mas ele dificilmente aceita pouco e se isso acontece – e acontece! – não é porque ele não tenha feito a sua parte. Não cabe histrionismo nem apatia – ainda que isso apareça – e nesse sentido nós, público, mantemo-nos em atenção constante. É curioso que na divulgação se leia Direção e Encenação de Paulo Santana. Certamente não são a mesma coisa e eu particularmente, rejeito esse epíteto de diretor em meus trabalhos porque tem um ar arrogante e porque, na minha perspectiva, é uma relação vertical entre quem conduz a montagem, o elenco e equipe técnica. Uma última palavra nem sempre discutida. Mas entendo seu sentido enquanto a instância que, ao fim e ao cabo, define (ou determina) as escolhas da poética adotada. Sendo um trabalho para o qual foi convidado – o grupo original de Santana é o Palha – e com as demandas de atender a um edital, cabe esse lugar do diretor.
Cinco almas nos contam essa história. Da cena inicial, numa antessala, onde Babá (Safira Clausberg) nos situa no tempo e espaço onde se desenrolará a trama, às cenas no interior da casa-mata, os personagens nos exigem atenção, apesar de que não quebram a quarta parede ainda que estejam a centímetros de nós. O tronco desse grupo é Luiz Carlos Girard. Seu tio Firmino é um personagem que vai do cômico ao trágico numa velocidade alucinante. Sua presença cênica é firme, sua ótima prosódia garante que sorvamos o texto seja em sussurros, sejam aos gritos (e há muitos...). estar em cena com ele é um exercício de atuação constante, de atenção. Do contrário: sal! como diríamos local e atualmente. Nas palavras do próprio autor sobre suas obras, as cenas se amontoam, se apertam, ofuscam umas às outras e diluem a impressão do conjunto. Não temos essa sensação em O Tempo, porque algumas atuações acabam puxando o ritmo para baixo, desconectadas de uma pulsação maior, interpretativas. Se não prejudicam o conjunto de forma significativa, surgem como lacunas que nos permitiria sair dessa atmosfera não fosse exatamente o todo.
O tempo que a Chuva não Lavou é um espetáculo que merece muito ser visto. Que deve ser visto para olhar para nós, para o teatro russo, para a condição humana – objetivo de todas as obras de teatro, segundo Bárbara Heliodora (1923 – 2015). Deve ser visto para celebrar o teatro feito no e para o Pará, para o Brasil. Que mostra uma Amazônia não clichê, "acabocada" e por isso, universal.
Meu salve e minha gratidão a cada pessoa que compôs esse emaranhado de galhos e raízes.
Julho de 2026
[1] Ator e diretor teatral. Participante do Minicurso "Crítica teatral e semiótica: estudos introdutórios" promovido pelo projeto de extensão TRIBUNA DO CRETINO em 2025;
Ficha Técnica:
O tempo que a chuva não levou
Inspirado na obra "Tio Vânia" de Anton Tchékhov
Elenco:
Luiz Carlos Girrard, Luis Girrard, Elias Hage,
Iracy Vaz, Mariana Da Paz, Safira Clausberg
Direção e Encenação:
Paulo Santana
Adaptação:
Adriano Barroso
Produção:
Zê Charone
Coprodução:
Grupo Cuíra do Pará
Coordenação de projeto:
Olinda Charone
Criação de Cenografia e Figurino:
Jef Cecim
Criação de sonoplastia e Luz:
Isabella Bravim
Operação de Sonoplastia:
Jon Rent
Costura e Customização de Figurinos:
Telma Lima
Maquiagem:
Safira Clausberg
Social Media:
Brunno Euller
