A Sagração da Floresta: Tecendo Corpos, Terras e Primaveras Perenes na Amazônia Que Dança – Por Lindemberg Monteiro

29/03/2026

Mostra Cênica dos Cursos Técnicos da ETDUFPA 2025

Tribuna do Cretino - Vol.02 - Nº02 - 2026 - ISSN 3086-1179

Lindemberg Monteiro dos Santos[1]

No palco da existência, onde o tempo cicatriza e a memória floresce, o espetáculo A Sagração da Floresta emerge não apenas como dança, mas como um rito de resistência e renascimento. Diante da releitura contemporânea da obra de Stravinsky, que em 1913 ecoava um sacrifício, a Amazônia paraense oferece uma inversão poética e visceral: aqui, o fim se transmuta em um princípio sem fim, a morte ritual em uma escuta profunda, e o sacrifício em uma vibrante celebração da vida. É um manifesto cênico que, nas palavras da Profª Drª Mayrla Andrade, habita e cria, tornando o corpo, a terra e a ancestralidade indissociáveis.

O Corpo como Território: Memória, Matriarcado e Manifestos Visíveis

Em cena, dezesseis mulheres dão forma a essa epifania. Não são meras intérpretes, mas guardiãs de uma identidade paraense, nortista e amazônidas, revelada em gestualidades sendo atravessada por movimentos sejam eles, coreografados e improvisados metricamente na trilha sonora.

Se Lélia Gonzalez nos ensinou sobre o "quilombismo" como forma de aquilombamento e resistência contra a opressão histórica, este espetáculo dança essa tese. O corpo, tornado quilombo em movimento, é o primeiro território a ser defendido, a primeira fronteira a ser reafirmada. Ele se torna um atlas vivo, onde cada gesto é uma "escrevivência", um testemunho corpóreo, ressoando com a profunda sabedoria de Conceição Evaristo, que nos convida a narrar e habitar nossas próprias histórias, rompendo silêncios e invisibilidades.

A celebração do sagrado feminino não se dá em um altar etéreo, mas na força telúrica que emana dessas mulheres. A estética rompe com os padrões rígidos do ballet clássico, desconstruindo a verticalidade e a simetria. É uma liberdade que Eliane Potiguara, com sua voz que clama pela ancestralidade indígena e pela terra-mãe, reconheceria como uma DANÇA DE CURA. A técnica tradicional não é renegada, mas recontextualizada, fundindo-se com a expressividade orgânica, a improvisação que flui como o rio e a proximidade com o público que chega ao movimento de corpos criando passagens de cheiros que transitam na pele e narina do espectador sobretudo, rompendo a quarta parede para convidar à coparticipação no rito. E porque não um convite do intérprete para uma dança com o espectador!

A Poética do Habitante-Criador: Descolonizando o Olhar e o Mover

O conceito central, a filosofia poética do Habitante-Criador desenvolvida por Mayrla Andrade, ilumina cada passo. Trata-se de um fazer artístico onde o corpo não apenas ocupa o espaço físico, mas o habita com consciência, criando a partir de suas próprias histórias de vida, de suas memórias incrustadas na pele e na alma. É um convite a mergulhar em um território onde corpo, memória e natureza não se separam, onde a dicotomia ocidental se esvai para dar lugar a uma simbiose vital.

Nesse diálogo, a Terra se revela como um organismo vivo, uma concepção que Catherine Walsh aprofundaria em seus estudos sobre a decolonialidade do ser, do saber e do poder. A Amazônia, aqui, não é pano de fundo, mas protagonista, com sua floresta pulsante que se infiltra na dramaturgia, tecida e envolvida por improvisações guiadas por elementos naturais, vieses de poéticas amazônidas de um oxigenar das grandes folhas que descem em uma verticalidade sublime no espaço físico e sendo alicerçadas por troncos de árvores com grandes raízes que conectam corpos atuantes que contemplam generosidades humanos em um ambiente do Imaginário Poético Amazônida conceito do Prof. Drº Paes Loureiro.

A poética de Nega Edilma, com seu encantamento cotidiano do povo nortista, encontra eco nas texturas, nos sons e nos movimentos que evocam a magia da floresta. Graça Graúna, com sua crítica à visão eurocêntrica e a valorização das cosmovisões originárias, veria nesta Sagração um ato de reexistência cultural, estética e ancestral.

Sinfonia Sensorial: Água, Terra, Fauna e Flora em Cena

A encenação se desdobra como um percurso sensorial, onde cada elemento se torna portal, ao entrar na cena pulsante em vida/arte o corpo do "Eu espectador", já sente o impacto da visualidade, sobretudo as luzes sendo encadeadas de cores primárias e secundárias, guiando por um caminho "Do desconhecido poético". Ao entrar no portal até o deslocamento do meu assento tornei-me um desvendador humanizado em sintonia com outros corpos em pontos culminantes de partilhas corpóreas.

A Água, que a Prof.ª Drª Iara Souza recria com maestria na cenografia, evoca o fluxo da vida e as memórias que correm em rios subterrâneos, purificando e conectando a Terra, símbolo de origem e pertencimento, fundamenta os corpos, enraizando-os na ancestralidade. A Fauna e Flora revelam a interdependência vital, a teia invisível que une cada ser em uma profunda simbiose de vida/arte.

A coordenação cenográfica de Iara Souza transforma o palco do TUCB em um ambiente onírico, recriando a organicidade da natureza, transportando o espectador para dentro da mata, sob um teto de folhagens que aproxima o sagrado. Seria um devir dos deuses amazônidas?

O figurino e a maquiagem, idealizados pela Prof.ª Drª Micheline Penafort, concebem as mulheres como seres encantados em um espaço poético, pulsante e vivo revestidas em luminescências camadas aderidas à pele em corpos em movimentos dançantes. Camadas/Tecidos que respiram, máscaras que sussurram a ideia do "olhar do olhante, visível/invisível", um olhar de idas e vindas desvelando os movimentos nas dimensões do espaço por meio dos seus níveis e direções na perspectiva da Escala Dimensional do Movimento que rabiscam o espaço físico.

Texturas orgânicas que permeiam o imaginário cultural paraense, dialogando com uma iluminação que mimetiza os ciclos solares – dos azuis monocromáticos e profundos das noites amazônicas às luzes douradas e quentes do amanhecer que rasgam a mata a dentro, interiorizando o ser de cada espectador.

A trilha sonora, um hibridismo da melodia de Stravinsky abraçada por sons da natureza, respirações, textos/poemas e pulsos corporais conectadas ao coletivo também de Mulheres por meio do Grupo Melissas que também cantam e celebram a energia feminina que se emana na cena final com outros corpos... Será um convite à imersão dos movimentos por meio de corpos ancestrais?

Florescer Contra a Crise: Um Manifesto de Primaveras Constantes

A Sagração da Floresta transcende a mera apresentação artística; é um gesto político em tempos de crise ambiental e invisibilidade de corpos e narrativas. Ao colocar as histórias de vida de mulheres e jovens em cena para manifestar estados de existência – não personagens estereotipados –, a obra culmina em um Manifesto das Habitantes-Criadoras. Ele reafirma que o corpo é o primeiro território a ser defendido, uma declaração urgente e vital.

Nessa perspectiva, a primavera não é uma estação do calendário, é um mero marco temporal, mas um estado de consciência de quem reconhece a própria constituição de terra e, por isso, detém o poder ancestral e intrínseco de florescer, de regenerar, de recriar-se continuamente. É a DANÇA que se FAZ GRITO, que se FAZ CURA, que se FAZ FLORESTA; que se FAZ HUMANA. Um espetáculo que nos convida a dançar com a terra, a ouvir a floresta, e a celebrar a inesgotável primavera que habita em cada corpo que resiste e cria. Parabéns a tod@s pela obra/pesquisa/artística em particular às solícitas Prof.ª. Drª Eleonora Leal e a Prof.ª. Drª Mayrla Andrade que assumiram a direção do espetáculo.

Março de 2026


[1] Doutor em Ciências da Educação (FICS) - Py. Mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará. Especialista em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais - MAV (Metodologia Angel Vianna) Faculdade Angel Vianna. Graduado em Licenciatura Plena em Dança (UFPA) e Ciências Contábeis (UNAMA). Especialista em Estudos Contemporâneo do Corpo: Criação, Transmissão e Recepção e em arte (UFPA). Formação em Reeducação do Movimento (Ivaldo Bertazzo). Intérprete Criador da Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA). Atualmente é professor efetivo em Licenciatura Plena em Arte adacaa/gia - (SEMEC) Secretaria Municipal de Belém. Diretor Artístico da Ribalta Cia de Dança e professor da Escola de Dança Ribalta. Tem experiência no campo do movimento com ênfase em conscientização, reeducação do movimento e dança/teatro atuando na linha/pesquisa da dança contemporânea.

Bibliografia consultada

GONZALEZ, L. E. A trabalhadora negra, cumé que fica? Mulherio, ano 2, n. 9, 1982.

GONZALEZ, L. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, n. 92/93, Rio de Janeiro, 1988.

GONZALEZ, L. Homenagem a Lélia Gonzalez. Lélia fala de Lélia. Revista Estudos Feministas, ano 2, 1994.

NASCIMENTO, A. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africana. Petrópolis: Vozes, 1980.]

KRENAK, A. O amanhã não está à venda. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

POTIGUARA, Eliane (2004). Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global

MUNDURUKU, Daniel (2009). Meu vô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória. São Paulo: Studio Nobel.

SANTOS, Boaventura de Souza (2010). Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes. In: SANTOS, Boaventura de Souza, MENEZES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez. p. 31-83.

Ver Catherine Walsh. "Interculturalidad crítica / pedagogía decolonial," en Diversidad, interculturalidady construcción de ciudad. Arturo Grueso Bonilla y Wilmer Villa (Eds.), Bogotá: Alcaldía Mayor de Bogota y la Universidad Pedagógica Nacional, 2008b, 44-63; y Catherine Walsh. "Interculturalidad y colonialidad del poder: Un pensamiento y posicionamiento otro desde la diferencia colonial", en Interculturalidad, descolonización del Estado y del conocimiento, Catherine Walsh, Álvaro García Linera y Walter Mignolo), serie El desprendimiento, pensamiento crítico y giro des-colonial, Buenos Aires: Editorial signo, 2006, 21-70.

WALSH, Catherine. (De)construir la interculturalidad. Consideraciones críticas desde la política, la colonialidad y los movimientos indígenas y negros en el Ecuador. In: FULLER, Norma (Ed.). Interculturalidad y política. Desafíos y posibilidades. Lima: Red para el Desarrollo de las Ciencias Sociales en el Perú, 2002c. (pp.115-142,

Ficha Técnica

A Sagração da Floresta

Elenco (turma de dança clássica ETDUFPA):

Alicia Azulay, Samilly Reis, Paola Tabaranã

Mayse Carvalho, Isabelly Aguiar, ⁠Estéfani Rodrigues

⁠Esther Lourinho, ⁠Manuelle Sousa, Keila Ferraz,

Bianca Lemos, Carina Moraes, ⁠Gabriela Figueiredo

⁠Raissa Souza, Celena Borges, Amélia Tavares,

Tamily Guimarães

Turma de Figurino ETDUFPA:

Figurinistas:

Rafaela Cruz, Igor Quadros e Isaac Machado

Assistentes:

Geo Trindade, Maria Celeste e Daniele Negrão

Aderecista de Apoio:

Raphael Arcanjo

Apoio:

Raiane Coutinho

Assistente de Cenografia e Iluminação:

Michx, Ana CLara Mata

Isabela Leão e Edilma Barros

Adereço:

Ronald quadros de Almeida

Direção Geral/Artística:

Profa. Drª Mayrla Andrade e Prof.ª Drª Eleonora Leal

Direção Cenográfica e Iluminação:

Prof.ª Drª Iara Souza

Direção Figurino e Maquiagem:

Prof.ª Msc Micheline Penafort

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