A Sagração da Floresta: Tecendo Corpos, Terras e Primaveras Perenes na Amazônia Que Dança – Por Lindemberg Monteiro
Mostra Cênica dos Cursos Técnicos da ETDUFPA 2025
Tribuna do Cretino - Vol.02 - Nº02 - 2026 - ISSN 3086-1179
Lindemberg Monteiro dos Santos[1]
No palco da existência, onde o tempo cicatriza e a memória floresce, o espetáculo A Sagração da Floresta emerge não apenas como dança, mas como um rito de resistência e renascimento. Diante da releitura contemporânea da obra de Stravinsky, que em 1913 ecoava um sacrifício, a Amazônia paraense oferece uma inversão poética e visceral: aqui, o fim se transmuta em um princípio sem fim, a morte ritual em uma escuta profunda, e o sacrifício em uma vibrante celebração da vida. É um manifesto cênico que, nas palavras da Profª Drª Mayrla Andrade, habita e cria, tornando o corpo, a terra e a ancestralidade indissociáveis.
O Corpo como Território: Memória, Matriarcado e Manifestos Visíveis
Em cena, dezesseis mulheres dão forma a essa epifania. Não são meras intérpretes, mas guardiãs de uma identidade paraense, nortista e amazônidas, revelada em gestualidades sendo atravessada por movimentos sejam eles, coreografados e improvisados metricamente na trilha sonora.
Se Lélia Gonzalez nos ensinou sobre o "quilombismo" como forma de aquilombamento e resistência contra a opressão histórica, este espetáculo dança essa tese. O corpo, tornado quilombo em movimento, é o primeiro território a ser defendido, a primeira fronteira a ser reafirmada. Ele se torna um atlas vivo, onde cada gesto é uma "escrevivência", um testemunho corpóreo, ressoando com a profunda sabedoria de Conceição Evaristo, que nos convida a narrar e habitar nossas próprias histórias, rompendo silêncios e invisibilidades.
A celebração do sagrado feminino não se dá em um altar etéreo, mas na força telúrica que emana dessas mulheres. A estética rompe com os padrões rígidos do ballet clássico, desconstruindo a verticalidade e a simetria. É uma liberdade que Eliane Potiguara, com sua voz que clama pela ancestralidade indígena e pela terra-mãe, reconheceria como uma DANÇA DE CURA. A técnica tradicional não é renegada, mas recontextualizada, fundindo-se com a expressividade orgânica, a improvisação que flui como o rio e a proximidade com o público que chega ao movimento de corpos criando passagens de cheiros que transitam na pele e narina do espectador sobretudo, rompendo a quarta parede para convidar à coparticipação no rito. E porque não um convite do intérprete para uma dança com o espectador!
A Poética do Habitante-Criador: Descolonizando o Olhar e o Mover
O conceito central, a filosofia poética do Habitante-Criador desenvolvida por Mayrla Andrade, ilumina cada passo. Trata-se de um fazer artístico onde o corpo não apenas ocupa o espaço físico, mas o habita com consciência, criando a partir de suas próprias histórias de vida, de suas memórias incrustadas na pele e na alma. É um convite a mergulhar em um território onde corpo, memória e natureza não se separam, onde a dicotomia ocidental se esvai para dar lugar a uma simbiose vital.
Nesse diálogo, a Terra se revela como um organismo vivo, uma concepção que Catherine Walsh aprofundaria em seus estudos sobre a decolonialidade do ser, do saber e do poder. A Amazônia, aqui, não é pano de fundo, mas protagonista, com sua floresta pulsante que se infiltra na dramaturgia, tecida e envolvida por improvisações guiadas por elementos naturais, vieses de poéticas amazônidas de um oxigenar das grandes folhas que descem em uma verticalidade sublime no espaço físico e sendo alicerçadas por troncos de árvores com grandes raízes que conectam corpos atuantes que contemplam generosidades humanos em um ambiente do Imaginário Poético Amazônida conceito do Prof. Drº Paes Loureiro.
A poética de Nega Edilma, com seu encantamento cotidiano do povo nortista, encontra eco nas texturas, nos sons e nos movimentos que evocam a magia da floresta. Graça Graúna, com sua crítica à visão eurocêntrica e a valorização das cosmovisões originárias, veria nesta Sagração um ato de reexistência cultural, estética e ancestral.
Sinfonia Sensorial: Água, Terra, Fauna e Flora em Cena
A encenação se desdobra como um percurso sensorial, onde cada elemento se torna portal, ao entrar na cena pulsante em vida/arte o corpo do "Eu espectador", já sente o impacto da visualidade, sobretudo as luzes sendo encadeadas de cores primárias e secundárias, guiando por um caminho "Do desconhecido poético". Ao entrar no portal até o deslocamento do meu assento tornei-me um desvendador humanizado em sintonia com outros corpos em pontos culminantes de partilhas corpóreas.
A Água, que a Prof.ª Drª Iara Souza recria com maestria na cenografia, evoca o fluxo da vida e as memórias que correm em rios subterrâneos, purificando e conectando a Terra, símbolo de origem e pertencimento, fundamenta os corpos, enraizando-os na ancestralidade. A Fauna e Flora revelam a interdependência vital, a teia invisível que une cada ser em uma profunda simbiose de vida/arte.
A coordenação cenográfica de Iara Souza transforma o palco do TUCB em um ambiente onírico, recriando a organicidade da natureza, transportando o espectador para dentro da mata, sob um teto de folhagens que aproxima o sagrado. Seria um devir dos deuses amazônidas?
O figurino e a maquiagem, idealizados pela Prof.ª Drª Micheline Penafort, concebem as mulheres como seres encantados em um espaço poético, pulsante e vivo revestidas em luminescências camadas aderidas à pele em corpos em movimentos dançantes. Camadas/Tecidos que respiram, máscaras que sussurram a ideia do "olhar do olhante, visível/invisível", um olhar de idas e vindas desvelando os movimentos nas dimensões do espaço por meio dos seus níveis e direções na perspectiva da Escala Dimensional do Movimento que rabiscam o espaço físico.
Texturas orgânicas que permeiam o imaginário cultural paraense, dialogando com uma iluminação que mimetiza os ciclos solares – dos azuis monocromáticos e profundos das noites amazônicas às luzes douradas e quentes do amanhecer que rasgam a mata a dentro, interiorizando o ser de cada espectador.
A trilha sonora, um hibridismo da melodia de Stravinsky abraçada por sons da natureza, respirações, textos/poemas e pulsos corporais conectadas ao coletivo também de Mulheres por meio do Grupo Melissas que também cantam e celebram a energia feminina que se emana na cena final com outros corpos... Será um convite à imersão dos movimentos por meio de corpos ancestrais?
Florescer Contra a Crise: Um Manifesto de Primaveras Constantes
A Sagração da Floresta transcende a mera apresentação artística; é um gesto político em tempos de crise ambiental e invisibilidade de corpos e narrativas. Ao colocar as histórias de vida de mulheres e jovens em cena para manifestar estados de existência – não personagens estereotipados –, a obra culmina em um Manifesto das Habitantes-Criadoras. Ele reafirma que o corpo é o primeiro território a ser defendido, uma declaração urgente e vital.
Nessa perspectiva, a primavera não é uma estação do calendário, é um mero marco temporal, mas um estado de consciência de quem reconhece a própria constituição de terra e, por isso, detém o poder ancestral e intrínseco de florescer, de regenerar, de recriar-se continuamente. É a DANÇA que se FAZ GRITO, que se FAZ CURA, que se FAZ FLORESTA; que se FAZ HUMANA. Um espetáculo que nos convida a dançar com a terra, a ouvir a floresta, e a celebrar a inesgotável primavera que habita em cada corpo que resiste e cria. Parabéns a tod@s pela obra/pesquisa/artística em particular às solícitas Prof.ª. Drª Eleonora Leal e a Prof.ª. Drª Mayrla Andrade que assumiram a direção do espetáculo.
Março de 2026
[1] Doutor em Ciências da Educação (FICS) - Py. Mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará. Especialista em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais - MAV (Metodologia Angel Vianna) Faculdade Angel Vianna. Graduado em Licenciatura Plena em Dança (UFPA) e Ciências Contábeis (UNAMA). Especialista em Estudos Contemporâneo do Corpo: Criação, Transmissão e Recepção e em arte (UFPA). Formação em Reeducação do Movimento (Ivaldo Bertazzo). Intérprete Criador da Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA). Atualmente é professor efetivo em Licenciatura Plena em Arte adacaa/gia - (SEMEC) Secretaria Municipal de Belém. Diretor Artístico da Ribalta Cia de Dança e professor da Escola de Dança Ribalta. Tem experiência no campo do movimento com ênfase em conscientização, reeducação do movimento e dança/teatro atuando na linha/pesquisa da dança contemporânea.
Bibliografia consultada
GONZALEZ, L. E. A trabalhadora negra, cumé que fica? Mulherio, ano 2, n. 9, 1982.
GONZALEZ, L. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, n. 92/93, Rio de Janeiro, 1988.
GONZALEZ, L. Homenagem a Lélia Gonzalez. Lélia fala de Lélia. Revista Estudos Feministas, ano 2, 1994.
NASCIMENTO, A. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africana. Petrópolis: Vozes, 1980.]
KRENAK, A. O amanhã não está à venda. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
POTIGUARA, Eliane (2004). Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global
MUNDURUKU, Daniel (2009). Meu vô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória. São Paulo: Studio Nobel.
SANTOS, Boaventura de Souza (2010). Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes. In: SANTOS, Boaventura de Souza, MENEZES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez. p. 31-83.
Ver Catherine Walsh. "Interculturalidad crítica / pedagogía decolonial," en Diversidad, interculturalidady construcción de ciudad. Arturo Grueso Bonilla y Wilmer Villa (Eds.), Bogotá: Alcaldía Mayor de Bogota y la Universidad Pedagógica Nacional, 2008b, 44-63; y Catherine Walsh. "Interculturalidad y colonialidad del poder: Un pensamiento y posicionamiento otro desde la diferencia colonial", en Interculturalidad, descolonización del Estado y del conocimiento, Catherine Walsh, Álvaro García Linera y Walter Mignolo), serie El desprendimiento, pensamiento crítico y giro des-colonial, Buenos Aires: Editorial signo, 2006, 21-70.
WALSH, Catherine. (De)construir la interculturalidad. Consideraciones críticas desde la política, la colonialidad y los movimientos indígenas y negros en el Ecuador. In: FULLER, Norma (Ed.). Interculturalidad y política. Desafíos y posibilidades. Lima: Red para el Desarrollo de las Ciencias Sociales en el Perú, 2002c. (pp.115-142,
Ficha Técnica
A Sagração da Floresta
Elenco (turma de dança clássica ETDUFPA):
Alicia Azulay, Samilly Reis, Paola Tabaranã
Mayse Carvalho, Isabelly Aguiar, Estéfani Rodrigues
Esther Lourinho, Manuelle Sousa, Keila Ferraz,
Bianca Lemos, Carina Moraes, Gabriela Figueiredo
Raissa Souza, Celena Borges, Amélia Tavares,
Tamily Guimarães
Turma de Figurino ETDUFPA:
Figurinistas:
Rafaela Cruz, Igor Quadros e Isaac Machado
Assistentes:
Geo Trindade, Maria Celeste e Daniele Negrão
Aderecista de Apoio:
Raphael Arcanjo
Apoio:
Raiane Coutinho
Assistente de Cenografia e Iluminação:
Michx, Ana CLara Mata
Isabela Leão e Edilma Barros
Adereço:
Ronald quadros de Almeida
Direção Geral/Artística:
Profa. Drª Mayrla Andrade e Prof.ª Drª Eleonora Leal
Direção Cenográfica e Iluminação:
Prof.ª Drª Iara Souza
Direção Figurino e Maquiagem:
Prof.ª Msc Micheline Penafort
