A última lambada: memória e cena em movimento – Por Elcio Lima

26/02/2026

Montagem: A Última Lambada

Mostra dos Cursos Técnicos da ETDUFPA 

Tribuna do Cretino - Vol.02-N°02-2026 / ISSN 3086-1179

Elcio Lima Corrêa[1]

Nas últimas décadas, a memória cultural paraense tem ocupado lugar de destaque em diferentes meios, da cena teatral às plataformas digitais, passando por festivais, pesquisas acadêmicas e produções audiovisuais. Em um tempo marcado pela velocidade da informação e por constantes disputas simbólicas, revisitar narrativas locais torna-se gesto político, estético e sensível. A arte passa a funcionar como território de resistência e de reafirmação coletiva, recuperando trajetórias que por vezes foram marginalizadas ou reduzidas a estereótipos. Valorizar essas matrizes significa fortalecer o sentimento de pertencimento e reconhecer que a identidade de um povo se constrói também pela celebração de suas expressões criativas.

Exemplos desse movimento são visíveis tanto no reconhecimento institucional quanto na projeção de artistas que transformam tradições em linguagem contemporânea. O carimbó, elevado à condição de patrimônio cultural imaterial, ganhou novo fôlego e ampliou sua circulação. Da mesma forma, a trajetória de Dona Onete demonstra como sonoridades amazônicas podem dialogar com o mundo sem perder suas raízes. No campo das artes cênicas, mostras e projetos formativos reafirmam o compromisso com esse legado vivo. É nesse contexto que se insere A Última Lambada, apresentado em 21 de fevereiro no Teatro Universitário Cláudio Barradas, dentro da mostra dos cursos técnicos da Escola de Teatro e Dança da UFPA, sob a direção cênica e coreográfica de Larissa Chaves e Erika Gomes, une teatro e dança com a tarefa de revisitar um dos fenômenos musicais mais emblemáticos da região.

A montagem busca lançar luz sobre o percurso da lambada por meio de uma dramaturgia autoral construída coletivamente pela turma de intérpretes-criadores. Ao mesclar dados históricos e ficção, a encenação articula humor, evocação e invenção, criando uma trama que se aproxima tanto do passado glorioso do gênero quanto de suas reverberações atuais. As canções marcantes surgem como fio condutor, acionando lembranças na plateia e estabelecendo uma atmosfera festiva. Há uma tentativa clara de equilibrar informação e entretenimento, evitando o tom meramente expositivo e apostando em situações que humanizam figuras e contextos.

Na obra, a potência da premissa reside no encontro entre pertencimento, território e ancestralidade. Kalinda, jovem dançarina vinda do Caribe, defendida em cena pela carismática Karina Carvalho, chega a Belém movida pelo desejo de compreender o percurso de sua avó, consagrada como a rainha do ritmo nos anos 80, interpretada por Ana Carla Pamplona, presença marcante em cada aparição com seu exuberante figurino vermelho. Assim, a protagonista coloca em movimento não apenas uma busca íntima, mas uma investigação sobre herança e continuidade. Ao se deparar com figuras cômicas e emblemáticas que guardam relatos daquele período efervescente, atravessa camadas de recordações que revelam a força simbólica do gênero para a capital paraense. A estrutura ganha vigor ao articular temporalidades distintas, mostrando como a trajetória de uma artista ecoa na formação de novas gerações e reafirma a relevância de uma expressão que moldou corpos, afetos e modos de existir. Nesse percurso, surge também a figura de Mestre Vieira, expoente da música do estado e um dos nomes fundamentais para a consolidação do estilo, reforçando o elo entre vivência individual e tradição regional.

O desafio maior, contudo, está na integração entre interpretação e dança. O ritmo, por sua própria natureza, exige entrega corporal intensa, domínio técnico e presença marcante. Conciliar essa fisicalidade com a construção de papéis e a clareza da condução dramática demanda preparo e maturidade. O elenco demonstra comprometimento e energia, buscando sustentar simultaneamente vigor coreográfico e expressividade. Em alguns momentos, percebe-se sintonia; em outros, a divisão de atenção entre movimento e atuação compromete a organicidade, evidenciando a complexidade dessa dupla exigência, sobretudo em um processo pedagógico.

Ao revisitar o fenômeno musical, a visualidade torna-se elemento central para a ambientação histórica e a caracterização das figuras em cena, e o figurino assume função decisiva nessa elaboração. É por meio dele que se delineiam temporalidades, recortes sociais, traços de personalidade e atmosferas. No imaginário coletivo, o gênero convoca cores vibrantes, estampas tropicais, tecidos leves que acompanham o giro dos corpos, brilho estratégico e sensualidade marcada pelo movimento das saias e pela dinâmica dos pares. Trata-se de uma estética que estabelece relação direta com a exuberância e a liberdade corporal que simboliza. No entanto, no que tange às escolhas de Ana Ladislau e Juliane Farias, observou-se um conjunto quase uniforme, com modelagens semelhantes e pouca variação plástica, o que reduziu a potência imagética. A escolha por calçados padronizados para as intérpretes, visualmente homogêneos e pouco integrados à ideia de individualidade, reforçou essa neutralização. Em vez de acentuar contrastes dramatúrgicos, o traje cênico acabou por nivelar presenças, limitando a inventividade que um tema tão marcado por assinatura visual poderia proporcionar.

Contudo, é preciso reconhecer que a simplicidade das opções adotadas foi conduzida com coerência e bom acabamento. As peças apresentavam unidade estética, bom caimento e funcionalidade adequada às exigências coreográficas, revelando compreensão das necessidades do elenco. A paleta cromática, embora tenha restringido contrastes visuais mais ousados, demonstrou organização conceitual e clareza de proposta, evidenciando que as escolhas, mesmo contidas, foram executadas com consciência.

Como contraponto, destaca-se o terno azul com pedrarias do personagem de Kesynho Houston, que se impõe como elemento de brilho e identidade própria. A opção conversa com sua performance, marcada por humor, evocação e presença expansiva. Ao romper a quarta parede e estabelecer contato direto com a plateia, potencializa a força desse traje, que o diferencia e reforça sua função de mediador entre o enredo e o público.

A cenografia assinada por Regiane Cardoso e Izabella Alves, de caráter um tanto sóbrio, contribuiu de forma tímida para demarcar espaços ou aprofundar a atmosfera pretendida. A composição contida reduziu as possibilidades de contextualização, deixando a apresentação dependente quase exclusivamente da interpretação e da trilha sonora para sugerir deslocamentos. O elemento mais chamativo era um letreiro luminoso que, embora funcional, não criava camadas simbólicas suficientes para sustentar a proposta. Faltou maior densidade visual que se articulasse de maneira mais direta com a investigação evocada pela temática. Nesse percurso, parte da inventividade pareceu diluir-se, e o trabalho cumpriu sua função formativa sem alcançar plenamente o encantamento estético que o objeto sugere. Ainda assim, merece destaque a cenografia móvel da banca de ervas, que trouxe movimento, cor e autenticidade à cena, reforçando o ambiente urbano e popular. De maneira criativa, as mesas e cadeiras da casa de show entravam carregadas pelos próprios dançarinos em cena, integrando o corpo ao espaço e potencializando a dinâmica das interações.

A produção desperta nostalgia e reativa na plateia a alegria associada ao ritmo que marcou gerações. Ao mobilizar lembranças sentimentais, reafirma a importância de manter viva essa manifestação como patrimônio simbólico e identitário. Mesmo com limitações evidentes, há mérito na escolha do tema e na disposição de revisitá-lo sob a ótica de jovens artistas em formação.

Como criação que articula dança e teatro, o trabalho exala potência criativa, sobretudo na energia do elenco e na convicção com que assume sua proposta de celebrar um fenômeno musical profundamente enraizado na cultura paraense. Há vigor nas cenas coletivas, entrega nos números coreográficos e desejo genuíno de comunicar-se com o público, elementos que revelam um processo ainda em amadurecimento, mas já marcado por personalidade. Se investir no refinamento da encenação, no aprofundamento das camadas visuais e na consolidação da integração entre atuação e movimento, a montagem pode alcançar maior densidade estética e dramatúrgica. O caminho de maturação que se apresenta é promissor: ao lapidar suas escolhas e potencializar suas qualidades, tem condições de se tornar referência afetiva e artística entre as criações da Mostra Cênica da ETDUFPA, consolidando-se, no tempo, como um clássico memorável dentro do percurso formativo da instituição.

É preciso, por fim, reconhecer o empenho coletivo que sustenta a criação, especialmente diante das conhecidas dificuldades financeiras enfrentadas pela Escola de Teatro e Dança da UFPA. A cada mostra, docentes e discentes mobilizam esforços para que a comunidade possa fruir uma obra atravessada por pesquisa, experimentação e desejo genuíno de criação. Mesmo quando os recursos são escassos e certas escolhas não atingem todo o seu potencial, permanece evidente a dedicação em sustentar processos pedagógicos consistentes e oferecer experiências que nascem do estudo e da prática investigativa.

26 de fevereiro de 2026.

[1] Elcio Lima Corrêa é diretor do Grupo Presságio, figurinista e Professor de Teatro; também colabora com o Projeto de Pesquisa O Clown Nosso de Cada Dia e com o Projeto de Extensão Tribuna do Cretino.

FICHA TÉCNICA

A ÚLTIMA LAMBADA

Intérpretes-Criadores

Ana Carla Pamplona
Tunga Vidya
⁠Kesynho Hou
ston
⁠Leoberdson Silva
Suellen Dias
Priscila Reis
Babi Simões (Laysa Gabrielle)
Karina Carvalho
Adrhia Praia
João Pedro Lima Meireles
Aline Silva
Luiz Silva
⁠Nayla Santos
Maria Letícia
William Lopes

Estagiárias

Adriana Lombar

Edilene Barbosa

Orientação de Coreografia

Larissa Chaves

Erika Gomes

Orientação de Figurino
Ezia Neves


Figurinistas
Ana Ladislau
Juliane Farias


Assistentes de Figurino
Jacy Guimarães
Maria de Deus
Raiane Coutinho

Colaboradores de Figurino:

Dani Negrão

Igor Quadros

Julio Tércio

Maria Auxiliadora

Maria Celeste

Rafaela Cruz

Orientação de Maquiagem Cênica

Micheline Penafort

Orientação de Cenografia
Ezia NevesCenógrafas
Izabella Alves
Regiane Cardoso

Assistentes de Cenografia
Geane Leite

Colaborador de Cenografia:

Jardel Silva

Confecção de Painel Luminoso

Ateliê Permanente de Luminárias Cenográficas

Orientação de Iluminação Cênica

Iara Souza

Social Midia e Designer

Bueno Santos

Ana Carla Pamplona

Leoberson Silva

Aurélio Victor

Karina Carvalho

João Pedro Rebelo

Fotografia e filmagem

Danielle Cascaes Fotografia

Equipe técnica do Teatro Universitário Cláudio Barradas

Arthur Mello

Gabriele Nunes

Jully Campos

Mac Silva

Natasha Leite

Valéria Andrade (diretora)