A vereda é a rua – Por Alana Lima
Montagem: Grande Sertão: Veredas
Mostra Cênica dos Cursos Técnicos da ETDUFPA
Tribuna do Cretino - Vol.02 - N°02 - 2026 / ISSN 3086-1179
Alana Lima[1]
Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar
Ocupava com teatro, pras crianças ao passar
Olharem como quem vê brinquedo novo
Encantado e brilhante
Contando história de amor e de guerra
Transformando a vida em diamante.
Mas a rua não é minha. Aliás, é de ninguém. Nem do povo que nela habita, menos ainda de quem transita, imagina desse tal teatro, que mal segura as próprias pernas em seus casarões, salas, espaços e porões. A cidade tem dono com nome e sobrenome, cada metro de asfalto utilizado deve ser autorizado, com papel timbrado e logomarca. No fim, é tudo espetáculo.
Nessa terra que é reinado, pra que serve então o teatro? Pra nada, eu me respondo. Ele não veio ao mundo pra servir, é inútil e desimportante. E reside bem aí o seu valor. Por não servir a nada nem ninguém, é como o ar que circula nas ruas, como o pão de cada dia, como a manga que cai na calçada a cada temporada de mangueira. É alimento pra alma, oxigênio de humanidade. É educação a céu aberto, ou isso é o que espero quando fantasio com uma rua que fosse minha.
Por quê, então, ocupar as ruas com o teatro? Pra fazer respirar um ar que não seja de fumaça? Pra dizer ao rei que apesar dele ainda há vida nessa terra? Pra falar com o povo que não sabe que existem os casarões, salas, espaços e porões?
Aqui não tem resposta certa. Há também o caminho da estética, que enxerga a rua como cenário, sem se aprofundar em gente, território ou acesso cultural precário.
Nesse grande sertão onde eu piso, enquanto escrevo essas palavras, a seca que me assola é de uma arte que se isola, que pisa no solo fértil da rua, mas levanta paredes simbólicas. Que afasta o sujeito ali tão próximo, na distância de uns passos, e me faz perguntar – esse teatro, afinal, não poderia estar ao alcance do tato?
A rua, esse território inóspito, pra quem sabe usar adubo, é terra da melhor qualidade. Pra infância, é território brincante. A criança, que ali é dona do mundo, mergulha no faz de conta e grita pra outra: Eles estão gravando um filme!
Acontece uma morte na cena, o sangue escorre e o morto é carregado pra fora. A linha tênue entre o "dentro" e "fora" da cena se estreita naquele palco a céu aberto. As duas crianças acompanham os detalhes, investigam a morte e se frustram quando o ator toma seu lugar na coxia atrás da árvore. "Ah, era de mentira!". E ali nasce outra camada a ser descoberta: o maquinário cênico. A cenografia que é retirada, a luz que é movida, a sonoplastia vinda de uma caixa de som. Silêncio, eles estão descobrindo o teatro – mesmo acreditando que é cinema.
No filme da vida real, aquele é o espetáculo que me pega. Os jagunços do teatro empunham as armas em direção aos seus inimigos, e a poucos metros aquela criança simula uma arma com a mão, assume a postura de um jagunço que ela conhece por outro nome. Dali a pouco um tiroteio, execução de um personagem, mas as balas atravessam a parede invisível criada por aquele teatro e atingem o menino. Um, dois, três, quatro tiros alcançam cenicamente o corpo da criança que se joga no equipamento da praça e, como quem brinca de polícia e ladrão, ele rouba a cena pra si.
Mas a parede se ergue de novo, o espetáculo segue seu curso dramatúrgico e a rua, cenário de tantas narrativas vivas, é recolhida à sua insignificância de espaço cênico pra um sertão que nem é nosso, numa linguagem para poucos, sustentada pela magia da visualidade cinematográfica que a criança acessou.
O que se segue é despedida. O bando de jagunços se desloca para concluir sua história entre paredes teatrais, nas quais só adentra quem conscientemente já acessa o teatro, ali demarcado por uma pulseira laranja. Ficam a rua, as crianças, o silêncio de um povo sem direito à cidade, sem direito à arte, comandado por jagunços de terno, gravata e cargos de poder.
Ah, se eu pudesse ladrilhar essa rua…
[1] Palhaça, educadora e produtora cultural. Mestra em Artes – histórias, memórias e educação em artes. Fundadora e gestora de projetos da Ubuntu Produções Artísticas; membro do Coletivo de animadores de Caixas; coordenadora do Grupo Pira de pesquisa em brinquedos, brincadeiras, teatro e palhaçaria de rua na Amazônia. Pesquisadora do brincar, das infâncias e da rua como território de criação e educação.
Ficha Técnica
Grande Sertão: Veredas
Da obra de João Guimarães Rosa
Elenco:
Bando de Diadorim
Ally, Gabriel Anjos, Inngryday Cristiny, Pedro Bolseiro, Laiza Bonifácio,
Josué Pantoja, Carolina Moref, Diego Pimentel, Ryuu, Will, Faísca,
Kadu Chaves, Yrochi e Jonata Navegantes
Bando de Hermógenes
Priscilla Rosa, Lucas Bereco, Luis Carlos, Sofia Alvarez, Matheus Martins,
Cibele Maciel, Caroline Vitória, Lennon Bendelak, Mayara Souza,
Maya Rodrigues, Wanderson Moraes, Samantha Pacheco,
Direção:
Karine Jansen e Larissa Latif
Assistência de Direção:
Danielle Cascaes
Preparação de Elenco:
Lennon Bendelak
Dramaturgismo:
Lennon Bendelak, Danielle Cascaes, Karine Jansen e Larissa Latif
Coordenação de Figurino:
Ézia Neves
Figurinistas:
Fabrício Ribeiro e Sávio Serrão
Assistentes de Figurino:
Adriana Martins, Sidyany Christiny, Vitória Costa e Joane Parente
Orientação de Maquiagem Cênica:
Micheline Penafort
Coordenação de Cenografia:
Paulo Ricardo Nascimento
Cenógrafa:
Manu Castro
Assistentes de Cenografia:
Gigi Cosplay e Pedro Radhe
Coordenação de Iluminação:
Iara Souza
Sonoplastia:
Suellen Calábria e Shislene Alves
Contrarregragem:
Rayana Casanova, Rosilene e Nathália
Mídia Digital:
Danielle Cascaes, Gabriel Anjos, Kadu Chaves, Luis Carlos e Matheus Martins
Apoio:
Casarão do Boneco
