As memórias que emanam dos afetos ressoam por infinito tempo

20/07/2026

Montagem Teatral: O tempo que a chuva não levou

Montagem: Grupo Cuíra do Pará

Registro da Montagem “O tempo que a chuva não levou” Por Paula Bastos
Registro da Montagem “O tempo que a chuva não levou” Por Paula Bastos

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Eduarda Falesi[1]

Engana-se quem pensa que o espetáculo começa após passar o bilhete para a anfitriã da casa teatro, sentar na plateia e respirar fundo enquanto as luzes se apagam; na verdade, a história já começa a partir do momento em que você "viaja" a caminho do casarão, passando pelo bairro mais antigo de Belém, conhecido por nós como "Cidade Velha", cujas ruas evidenciam o percurso através dos tempos feito pela cidade com exemplares de arquitetura eclética da virada do século XIX, período conhecido como a Belle Époque de Belém, coexistindo com casas art déco, "raio que o parta'' e até edificações do período da fundação da cidade há mais de quatro séculos. Situar-se no lugar em que se está, é o prólogo para se deixar navegar pelo tempo que a chuva não levou. E no meio disso tudo, os artistas de teatro em pleno século XXI, embarcam com "os viajantes" através do casarão, e assim como as ruas os recebem, a cena começa fazendo uma evocação histórica ao combinar o suor daqueles corpos, antes, fixados em retratos de família, cheirando a mofo, que carregam a memória de um lugar úmido que já passou, mas se faz vivo nos resquícios do presente.

Se toda tradução é uma traição, aqui é posto à mesa, esta deliciosa adaptação de "Tio Vânia", do dramaturgo russo Anton Tchékhov, que ambientada numa visão essencialmente paraense, nos faz recordar como a antropofagia é capaz de fortalecer culturalmente e contra a falência econômica exploratória, tal como perceberam os modernistas de 1922. Esse faminto passeio literário que em comunhão com a obra clássica estrangeira e o nosso próprio tempero amazônico, sem fazer menções estereotipadas ou caricaturadas que não traduzem o intraduzível, ela nos diz: somos seres sinestésicos; molhados, visagentos, gosto quente de tucupi, duros como a mandioca e fervidos durante 7 dias semanais. Aqui a pausa tchekhoviana, vira tempo da chuva, antes ou depois dela cair. Esta senhora chuva que não é um elemento cenográfico da nossa região, mas uma personagem onipresente na nossa história.

Nesta montagem, não estamos presenciando um conflito frio europeu, tão pouco uma ensolarada releitura indígena, mas sim um abafado e silencioso conflito humano, que independe de passaporte. Se rememorarmos os nossos conterrâneos literários, como Dalcídio Jurandir em Chove Nos Campos de Cachoeira onde o autor mescla o cenário de decadência econômica da Amazônia, pós-ciclo da borracha com uma profunda introspecção psicológica, em vez de focar somente na denúncia social. Neste espetáculo, somos mareados com recortes da obra original russa e uma adaptação recheada de densidade das relações sociais, sonhadoras dos personagens e o peso da realidade local. Trazendo, ao meu olhar de espectadora, algumas nuances dalcidianas, junto a concepção antropofágica da peça.

O corpo não tem memória, corpo é memória. Se eu pudesse resumir os registros cênicos de cada personagem, seria dizendo o quanto fiquei encantada com os corpos cheios de vivacidade de cada atuante. Desde a primeira aparição, quando Marina (Safira Clausberg) surge como uma mulher de corpo aparentemente exausto do trabalho e das passagens da vida, assim como a casa e as florestas, ela sente as dores do tempo, mas resiste com esforço para se manter em pé. Ao mesmo tempo, com a força de uma ventania, gira e canta ao som dos pássaros. Essa mulher que se assemelha a uma entidade, pode ser também uma pajé, e quiçá, uma Matinta trazendo presságios, e as personagens dialogam com ela, como quem faz uma prece. Marina, que é também a babá, nos convida para embarcar nesta travessia de memórias. E assim me senti como uma criança cheia de maravilhamento outra vez, na casa velha da minha infância, quando a luz faltava quase sempre tarde da noite, a chuva caía no imenso jardim e minha tia acendia as velas enquanto minha avó contava as aventuras do seu pai na Belém de outro tempo. Essas lembranças de menina, habitadas no território dos afetos, foram ativadas quando se tornou impossível tirar a atenção de cada personagem e o que cada um tem a nos propor. A direção e encenação regida com maestria por Paulo Santana é o cerne para que o público tenha, principalmente hoje, o desejo de garantir um bilhete e ir lá assistir.

Estamos sempre com os olhos do presente, voltando ao passado. Por este cuidado da direção e o primor do grupo pulsando junto, não se vê uma reprodução ou uma anacronia, jogando algo de um tempo sobre outro tempo. Vemos uma história contada onde o tempo segue o fluxo dos sonhos. Das lembranças de uma isolada morada, a visita de um médico que se envolve com os moradores, mas se mantém distante, enquanto expõe sua visão ambientalista preocupada com a devastação das terras amazônicas. A tensão entre a família ao discutir os rumos da propriedade, o etarismo e a juventude são questões que ficam ao julgamento do público: seria uma relação de apego a uma vida com segurança estável ou um desperdício precioso de uma vida livre que não garante certezas? "As incertezas alimentam a esperança". A aproximação com a morte e as despedidas faz do tempo um efeito corrosivo, até que um dia "despertamos" e perguntamos: Será que aproveitei as belas passagens da vida ou passei tempo demais trabalhando para então um dia poder vivê-las? A estagnação existencial, as desilusões amorosas e oníricas se entrelaçam numa boca de lobo, sustentando uma rede de críticas marcadas pelo tempo, deixando uma herança decadente para as gerações seguintes — são alguns dos símbolos que permanecem como a resistência dos burgueses em ser um eco de uma cultura narcisista — um tédio para as poucas ou quase nenhuma mudança sistêmica, enquanto a sociedade adoece e nossos laços sociais são rompidos.

Nós, artistas, temos que convir que nos tempos que correm continuar vivo já é uma arte. O teatro pode ser a representação do comportamento humano, com a graciosidade da poesia, generosas pitadas de humor e uma dose de melancolia. E é isso que esse maravilhoso espetáculo devorou e se deliciou até a digestão: "Continuar vivendo. Nós vamos continuar vivendo, titio. Vamos atravessar uma fileira interminável de dias tediosos. E noites tediosas. Vamos aceitar com toda paciência as provações que o destino nos impuser."

EVOÉ!

Julho de 2026

[1] Discente do Curso Técnico de Teatro 2026 da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA). Atividade profissional: Atriz, Dançarina e Coreógrafa.

O tempo que a chuva não levou

Inspirado na obra "Tio Vânia" de Anton Tchékhov

Elenco:

Luiz Carlos Girrard, Luis Girrard, Elias Hage,

Iracy Vaz, Mariana Da Paz, Safira Clausberg

Direção e Encenação:

Paulo Santana

Adaptação:

Adriano Barroso

Produção:

Zê Charone

Coprodução:

Grupo Cuíra do Pará

Coordenação de projeto:

Olinda Charone

Criação de Cenografia e Figurino:

Jef Cecim

Criação de sonoplastia e Luz:

Isabella Bravim

Operação de Sonoplastia:

Jon Rent

Costura e Customização de Figurinos:

Telma Lima

Maquiagem:

Safira Clausberg

Social Media:

Brunno Euller

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