As sombras da loucura

29/05/2026

Experimento Cênico: O Elogio da Loucura

Solo Teatral de Claudia Maues

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Lucas Matheus Vieira dos Santos[1]

No último dia 06 de maio, assistimos ao solo "Elogio da Loucura", interpretado por Cláudia Maués e dirigido por Elcio Lima, na sala 14 da ETDUFPA, a mesma sala onde sempre temos aulas teóricas, e quebrar a rotina acadêmica para assistir teatro já estabelece em mim boas expectativas. É inspirado na obra do filósofo humanista Erasmo de Rotterdã e traz uma reflexão sobre a banalização do estado da loucura para justificar certas atitudes nocivas que permeiam a complexidade do comportamento humano. Confesso que não tenho muito a falar sobre o conteúdo da cena em si porque afirmo que ela foi bem defendida e, com isso, outros pensamentos interessantes surgiram a partir dela. Não estou menosprezando ou tirando o valor do trabalho apresentado, porque, como foi ressaltado pela própria equipe, é uma obra embrionária em processo de experimentação. Nesta fase, tudo é aceitável. Eu também não sou do tipo que gosta de tecer "críticas construtivas", porque acredito que cada artista ou grupo deve desbravar o seu processo de criação por conta própria, ser o próprio crítico e admirador. É dessa forma que tudo começa e as validações externas apenas acrescentarão material no crivo dos autores; não controladores da aceitação do público, mas engenheiros das pontes que alcançam quem assiste.

Porém, para cumprir com o combinado, direi algo (ou algos) sobre a "loucura em descoberta" e partirei de uma perspectiva técnica. Para começar, percebo que a defesa da obra, muito bem argumentada, não sustenta o que é visto, ouvido e sentido através da cena. Há uma desarmonia e isso pode ocorrer pela falta de domínio do que se tem e a incerteza de onde se quer chegar. Por exemplo, a imagem solitária de Claudia usando uma mortalha estampada, flores coloridas na cabeça e olhos verdes desenhados nas mãos, pelo menos para mim, não assimila em nada com a loucura ou a "a alegre deusa da loucura, filha de Pluto" – forma como a personagem foi concebida pelos autores. Para mim, soa apenas como um acumulado de coisas encontradas em um acervo em cima da hora (o que não é totalmente demérito, porque até para isso se necessita uma força criativa) e que o ser que ali se materializa não condiz com o que é dito. Claro, isso que estou dizendo é baseado numa percepção individual, uma opinião própria que pode não ser honesta com as expectativas de quem está em debate. Eu sei também que não existem cânones definitivos para se personificar algo tão abstrato e, graças à arte contemporânea, não somos mais presos à rigidez estética e teórica do "absolutismo teatral". Não somos mais juízes de valor das "pirações" que brotam do imenso solo fértil da criação. Aqui, em 2026, a loucura pode ser qualquer coisa. Porém, ainda assim, com o esforço do nosso trabalho somos responsáveis pelas sensações que trazemos à tona, sejam elas para colher louros ou para receber tomates na cara. E como Wlad Lima disse uma vez em um evento em que eu estava presente: "O público é um bicho difícil e exigente". A loucura pode sim ser da forma que Cláudia e Élcio nos mostraram na sala 14, contudo, mesmo após a roda de conversa, com o conceito mais esclarecido, aquele ser colorido e "humano demais" ainda não me remetia ao que era proposto. Não se concretizava e não prendia minha atenção.

Penso que falta é profundidade e quando digo isso não estou inutilizando o que foi feito, muito pelo contrário. O que quero dizer é que para se misturar teatro (onde o corpo precisa falar não somente pela boca) e filosofia (onde a boca fala até demais) é necessário sim um pouco mais de apuro e um mergulho profundo no que se quer investigar. Se ter domínio para se acreditar e acreditar para ser entendido, como um "telefone sem fio". Nessa brincadeira de infância, o barato era que nem sempre a gente transmitia corretamente o que se ouvia, mas, ao menos, o "ouvir" era um ato obrigatório. Ou seja: nada era dito sem antes ser ouvido. Precisa-se escutar o que a filha de Pluto quer dizer de fato para depois então ela ser representada. O texto bom e o misto de revolta e sarcasmo é a força motriz perfeita para falar o não dito, o escondido e o subjugado numa cena cheia de magia. Funciona como um grande questionamento político, o que já me interessa muito mais, pois eu não acredito que uma arte tão humana como o teatro funcione de forma adormecida e domesticada, ainda mais diante de tantas urgências que precisam ser escancaradas. Mas não adianta muito ter um bom material e ainda não ter se debruçado totalmente sobre o que ele fornece e o que foi visto por mim na sala 14 me passa essa sensação. O discurso potente ficou apenas na conversa com os autores e a deusa da loucura estagna no nível alto, com braços abertos, voz sempre no mesmo tom e olhar perdido, com essa potência se esvaindo pelas frestas da sala.

Mas houve sim momentos em que a deusa da loucura surgiu; eu a vi nas sombras da atriz que foram projetadas na parede da sala. Eram 03 silhuetas e elas se formaram a partir de dois pequenos refletores que foram utilizados como luz de ribalta; um vermelho e outro azul. As sombras se contorcem, se misturam, se expandem e chamam minha atenção mais do que qualquer outra coisa ali. Tanto que atualmente a única coisa que me lembro deste momento são os desenhos que dominavam o espaço. Atreladas à voz forte e estremecedora de Claudia (que, inclusive, poderia ser mais explorada), as sombras pareciam de uns três metros, pareciam um ser vivo, latejante e expressivo que tomava conta de todo aquele lugar, como uma coisa além desta vida, que vinha de outro plano. Era como se a Claudia fosse uma marionete da deusa que a resguardava. Era lindo de se ver. Recomendo entender melhor estes recursos, pois eles, de forma incidental, se revelaram um campo promissor de possibilidades.

Também tomo como interessante pensar que em um espaço tão pequeno e com poucos recursos se pode alcançar um efeito tão bacana e imersivo, o que não deve nada para uma caixa cênica bem equipada. Numa escola de artes que, ironicamente, a cada dia que passa parece mais monocromática e silenciosa, aquele ato poético foi um pequeno respiro no meio desta rotina acadêmica por vezes tediosa, inerte e cheia de culpa. Me faz desejar que isso vire uma rotina dentro do curso. Em certas ocasiões, salvaria não somente os alunos de terem que dar suas desculpas de não terem feitos as atividades, mas também os professores do constrangimento de ter que improvisar na hora alguma coisa para fazer em sala (sim, alguns nos subestimam a ponto de achar que nós não notamos quando não existe um planejamento de aula).

Enfim, embora eu pareça cruel em minha escrita e que também esteja com intuito de apenas falar mal do trabalho alheio, quero ressaltar que a intenção é apenas justificar de forma técnica, direta e esclarecedora os pontos que apresentei aqui e que de alguma forma me causaram estranhamento. Além dessa escrita ser um exercício acadêmico, é também exercício desenvolvedor da qualidade argumentativa, algo tão exigido para nós artistas, reféns de tantas explicações: Nós precisamos explicar o tempo todo o que fazemos, por que fazemos e como fazemos algo que, certas vezes, nem nós mesmos sabemos o que é. Quero também parabenizar os artistas pela ousadia de criação em tempos sombrios de "Chat, crie pra mim" e por mostrar o trabalho com todas as inconstâncias e fragilidades diante de uma cambada de críticos em formação, que por pura inexperiência podem digitar qualquer baboseira (cof cof) sobre algo que, em algum momento, tirou o sono de vocês. No fim, estamos todos em processo de aprendizado. Eu nem sei o que eu estou dizendo, mas preciso dizer.

Espero que a obra cresça ainda mais e que a deusa da loucura saia das sombras para ser de fato vista, ouvida e sentida. No fim, elogiar e criticar a loucura me fez perceber que todos nós somos loucos em continuar fazendo teatro. É agridoce como qualquer coisa na vida, mas vale muito a pena quando eu percebo que graças ao teatro, e a loucura criativa, eu consigo encontrar beleza em uma sombra na parede.

Maio de 2026

[1] Graduando do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;

Elogio da Loucura

Solo Teatral de Claudia Maués

Direção:

- Elcio Lima

Dramaturgia:

Claudia Maués

Figurino:

Claudia Maués

Elcio Lima

Trilha Sonora:

A deusa da Loucura, de Oswaldo Montenegro

Sonoplastia:

Elcio Lima

Produção:

Claudia Maués e Elcio Lima

Apoio:

Thiago Ramos

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