Atores, os heróis da resistência, só não abuse do pacto ficcional – Marcia Araújo Teixeira.
Montagem teatral: "Convite de Casamento"
2ª Mostra de Espetáculos de Formação – MEF do Curso de Produção Cênica
Tribuna do Cretino - Vol.01 - N°01 - 2025 / ISSN 3086-1179
Márcia Araújo Teixeira[1]
A 2ª Mostra de Espetáculos de Formação – MEF do Curso de Produção Cênica apresentou a remontagem de "Convite de Casamento" nos dias 29 e 30 de agosto, respectivamente às 19h, 17h e 19hs, no Teatro Universitário Cláudio Barradas.
Justamente na noite da última sessão faltou energia, situação absolutamente previsível e acreditem a Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, nota 5 no Ministério da Educação-MEC, não, dispõe de gerador de emergência, o que merece registro, uma vez que pela pauta do Teatro com todas as datas compromissadas, sem a energia, o espetáculo correu o sério risco de não ser apresentado, o que prejudicaria toda uma equipe e seria um desrespeito com o público presente.
Houve uma união admirável, o público esperou pacientemente, enquanto a equipe técnica do espetáculo, juntamente com a direção do teatro Cláudio Barradas, sob o comando da inoxidável Professora Valéria Andrade, decidiam os rumos que seriam tomados.
Então, foi decidido que a apresentação aconteceria, pois o show tem que continuar e assim foi transferida para o local onde funciona o estacionamento da ETDUFPA. Então foi formado uma semiarena, o público finalmente pode se acomodar e sem dúvida alguma, os Deuses do teatro deram a benção, pois foi proporcionado um ambiente agradabilíssimo, a melhor noite possível!
Assim, debaixo de uma noite estrelada, com ventos gostosos, iluminados pela luz do luar, dos edifícios em torno da ETDUFPA e dos faróis dos carros, com partes do cenário deslocados para o mesmo local, sim, o ESPETÁCULO foi encenado.
É imprescindível aplaudir de pé e conceder toda a reverência ao elenco e equipe pois, hoje em dia segurar um espetáculo em condições não ideais, sem um teto, sem microfones, e a famigerada tecnologia, não é tarefa fácil, essa resistência é coisa de artista.
Artistas são por excelência heróis da resistência!
A DRAMATURGIA
A montagem, Convite de casamento, é um texto de Edyr Augusto Proença, dramaturgo, escritor paraense, pertence ao Grupo Cuíra de Teatro, com um currículo que dispensa apresentações. Esta dramaturgia é uma comédia de costumes que trata com ironia, leveza, os hábitos, exageros, contradições sociais, relações de famílias de "bem".
DA ENCENAÇÃO
Considerando que se trata de uma turma de Produção Cênica, considerando que estão aprendendo, existem aspectos que prescindem de ponderações.
Os atores presentes, absolutamente atentos, conseguiram dizer o texto de forma clara, apesar do formato não ter sido preparado para ser ao ar livre, ainda que sem uso de microfones, o elenco deu conta do desafio, forçado pela falta de energia, pela falta de um gerador que provocou uma mudança brusca na estrutura da apresentação, com destaque para atriz que interpreta a Sogra e depois a Cigana que se mostrou inteligente cenicamente.
Contudo, há elementos dramatúrgicos que não tem como passar despercebido e deveriam ter tido mais atenção da direção que os conduziu. Durante a encenação houve um excesso de palavrões, o que demonstra falta de domínio de vocabulário e em alguns momentos, falta de time de comédia, por mais que o objetivo possa ser imprimir um ritmo ou sentido coloquial, o excesso de palavrões e/ou palavras de baixo calão, vira muleta, e quando passa da medida, gera incômodo, desconforto no público, o que por sua vez empobrece a força dramática.
Houve o que se entende por abuso do pacto ficcional, por exemplo, na cena que propõe um ato de intimidade, a deixa é "estamos nus", mas não há a cena, não significa que os atores deveriam estar nus. Contudo, os atores nem de roupa íntima estavam ou pelo menos de figurino mais casual, logo o público tem que imaginar para além do que está diante de seus olhos; se estivéssemos diante de uma proposta pós-dramática, existe essa possibilidade, pois nem tudo se explica pela diretriz no estilo pós-dramático. Entretanto, o estilo é comédia de costume, com drama, com o uso do texto, da palavra como estrutura, com início, meio e fim, logo se é dito, precisa estar na cena.
Outro ponto: houve menção a uma troca de figurino, mas o figurino não foi trocado.
É importante lembrar que a dramaturgia foi escrita numa outra época, em que não se tinha o conhecimento, nem o entendimento de hoje em dia sobre, a competição feminina, e a trama é tecida num lugar espinhoso, o tempo todo fomenta esse comportamento, apresenta às mulheres (seja a Nora, a Sogra ou as amigas ficcionais) como seres fúteis, maldosas e falsas, pois falam uma mau das outras. E é esse mesmo o tom? não se trata de ser politicamente correto, mas o tempo todo imprimir esse lugar as mulheres é questionável, pois o olhar sobre a competição feminina evoluiu, ainda é uma construção, porém, considerando a direção feminina, isso deveria ter tido um olhar mais atendo e sensível.
Num dado momento da trama, o casal separa, mas a atriz está o tempo todo vestida de noiva afinal ela é noiva ou esposa? Isso não fica claro.
Em outro momento a Sogra que foi morar com o casal, a certa altura viaja para Macapá e some, não há um desfecho para essa situação proposta pela narrativa, fica estranho, um buraco.
Pode usar, mas não abusar do pacto ficcional.
O curioso foi que terminada a montagem, o elenco e equipe técnica agradeceram, no que foram aplaudidos de pé, e para a surpresa de todos, tinha público inclusive nas sacadas de um dos prédios. Todos se abraçavam, aliviados e orgulhosos de terem vencido todos os imprevistos, ainda recebiam os cumprimentos e carinho de todos, então, de repente não mais que de repente quase que instantaneamente adivinhem?
Sim, a luz voltou....
Atores são heróis da resistência!
E você vá ao teatro!
03 de Outubro de 2025
[1] Graduanda do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Pará; Atriz, Diretora Cênica (FUNART) e bolsista PIBIPA/2025 pelo projeto TRIBUNA DO CRETINO;
Ficha técnica:
"Convite de Casamento"
Elenco:
Pedro Bolseiro, Vitória Lúcia e Yasmim Ramos
Direção:
Mariuska Miranda
Cenógrafa:
Rikaella Miranda Sabino
Cenógrafo:
Ronald Almeida
Figurinista:
Sidyany Christiny
Sonoplasta:
Ruan Leony e Isabella Bravim
Coach de Interpretação:
Edson Aranha
Coreografia:
Luiza Monteiro
Iluminação:
Hugo Monteiro
Figurino:
Leonardo Pamplona
Fotógrafa e Maquiadora Cênica:
Regiane Castro
Maquiadora Cênica:
Beatriz Eleres
