Botos que nadam entre rios de lágrimas
Montagem: Eu vi o Boto
3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA
Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179
Maria Luísa Rodrigues[1]
Existem segredos dolorosos que se afundam debaixo dos rios. A montagem Eu Vi o Boto, dirigida por Babi Simões, desafia o espectador a encarar feridas abertas que, por muito tempo, foram disfarçadas como "fruto de uma lenda amazônica".
Verônica, interpretada por Anne Satierf, é uma personagem forte. Vinda de um ciclo familiar repleto de abusos e violência, cresceu com o sonho de construir seu próprio futuro, descentralizando ideais como o casamento e a religião (tópico importantíssimo daqui para frente!).
Aos treze anos, Verônica foi morar com seus avós, Bento (Rafael Lima) e Graça (Madu Sousa). Durante o espetáculo, descobrimos que a relação entre os dois é marcada por um ciclo de controle, traições e mais violência.
"Bate! Bate mesmo! Não vai ser a primeira nem a última vez em que você faz isso.", disse Graça em uma discussão com seu marido. Logo após, a cena congelou e um dos atores citou dados referentes à violência doméstica no Brasil.
Naquele momento, não soube discernir o que era mais chocante: o dado descrito pelo ator ou a cena que estava acontecendo. Aliás, isso aconteceu diversas vezes enquanto assistia o espetáculo.
O conceito brechtiano do distanciamento surgia durante as cenas para conscientizar e, quem sabe, abrir os olhos do público para a realidade grotesca e cruel que vivemos.
E não paramos por aqui, visto que o pastor Josué existiu (e morreu tarde demais). Walan, você interpretou muito bem esse personagem. A cada citação bíblica deste homem, era uma respirada funda minha, no intuito de não passar raiva.
Josué é um homem nojento, que justifica sua perversidade por meio do sagrado. Durante diversos momentos, utilizou de sua autoridade e de suas crenças para manipular e abusar de Verônica.
A abordagem dele é suja. Seu linguajar é passivo-agressivo, querendo corrigir a personalidade de sua vítima a todo custo por meio dos versículos e da (suposta) aprovação de Deus. Percebendo vulnerabilidades para que ele possa moldá-la, assim como muitos homens em cargos de autoridade fazem.
Repulsa, choque, tristeza e medo. Foi possível sentir tudo isso enquanto as cenas entre o Josué e a Verônica aconteciam. É desolador notar a correlação entre o desenrolar da história e o que acontece fora dos palcos. Há muitos como ele por aí, mas a omissão os protege.
Revoltante também foi perceber a dor de Verônica sendo silenciada, tratada como mentira (ou besteira). Essa foi uma das cenas que senti me atravessar com mais profundidade, ainda mais por saber que a dor de uma menina (quase sempre) é descredibilizada.
Chega a doer pensar que as lágrimas de Verônica, um dia, foram as de outras meninas. Eu Vi o Boto foi uma montagem atravessadora, necessária. É importante que temas como esses sejam tratados hoje, para que possamos nos sensibilizar e fazer algo a respeito.
Muito obrigada pela existência desse trabalho, Babi! Foi lindo de se ver.
Julho de 2026
[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro- UFPA;
Ficha Técnica:
Eu vi o Boto
Elenco:
Anne Satierf, Madu Sousa, Lariih Paes,
Wanderson Moraes, Walan Cardoso, Rafael Lima
Direção e Dramaturgia:
Babi Simões
Cenografia:
Ronald Almeida, Érica Góes e Diogo Lira
Maquiagem:
Laiza Bonifacio e Cibele Maciel
Figurinista:
Josiane Lima
Iluminação:
Diogo Lira
Músicos de Cena:
Priscila Cobra, João de Souza, Mateus Piedade,
Babi Simões, Cibele Maciel
Sonoplastia:
Maria Luz e Adriana Azevedo
