Bubuiar: Aperta o Play e Explode o Bagulho! – Por Karimme Silva
Montagem: ROCK DOIDO DA DJ BUBUIAR
Tribuna do Cretino - Vol.02 - Nº02 – 2026 / ISSN 3086-1179
Karimme Silva[1]
"Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista." (Ângela Davis)
[Um grande abraço pra galera que acompanha teatro fooora do teatro! Hoje o nosso som tá diferenciado, só as marcantes, AI PAPAI! Então avisa a tua comitiva, chama tuas/teus considerades e ventimbora! Derrame de gelada pra equipe presente com a gente: equipe SPOKACHATO e os CARAS DE PAU DE TEATRUBA! Hoje a onda vai até de manhã, meu irmão, então te prepara! Só a galera do CRITICÚ que não foi convidada, esse ROCKDOIDO não é pra ti, TE SAI GLSK]
Festa boa é a que tem a sua VINHETA. Não só no seu próprio espaço, mas nas FAIXAS penduradas nos muros pelo menos uma semana antes e nos ANÚNCIOS que circulam nas bikes ou nos carros de som: se és paraense, tu sabes… Equipes de aparelhagem (daquelas mais antigas como o Poderoso Tupinambá, o Furioso Carabao ou o Lendário Rubi Saudade) boas são as que tem a sua CAMISA. Não só pra festa, mas um símbolo de onde essa onda sonora vem. DJ boa é a que tem o PRÓPRIO SET (selecionado tal qual aqueles pendrives que vendem lá no veropa) porém com um trabalho de PESQUISA MUSICAL, alô Dj Meury! É assim que a DJ BUBUIAR chega, entra e ocupa a Vila da Barca: com sua faixa, sua camisa, seu paredão pressão sound e uma 3st3tik4 bem próxima do que se espera num evento desses. Evento não, ROCKDOIDO. E como boas equipes tem história e uma galera, as/os considerads que vem junts estão uniformizads, É O ROCKDOIDO DA DJ BUBUIAR.
"A gente combinamos de não morrer", quem traz a frase é ELA, Conceição Evaristo e quem cita e coloca na faixa é ELA, Ingrid Gomes. Elas SABEM E ESTUDAM os conceitos, elas vivenciam as narrativas negras e periféricas, elas é quem sabem do que estão falando. Como afirma Abdias do Nascimento: "Nossa cena vivia da reprodução de um teatro de marca portuguesa que em nada refletia uma estética emergente de nosso povo e de nossos valores de representação." (NASCIMENTO, 2004, pp. 209). Ela fala PROS SEUS e pra quem chega, com seu megafone pra toda a comunidade presente escutar, ainda que de longe. Ela também vem de outro lugar, mais longe que Belém: o espaço (de vida, história, criação) também é São Domingos do Capim, é de lá que vem uma equipe jovem, talentosa e empenhada naquele acontecimento. De repente, a rua fica ainda mais colorida pela iluminação e visualidade, a presença da cabine de som e do Paredão Pressão Sound - por acaso já viste alguma aparelhagem sem luz ou sem som? GRITA MEU ÁGUIAAAA! E ela dança, pois pra pisar no ROCKDOIDO tem que ter o CAQUIADO, tu saaabes.
Esse acontecimento é construído cenicamente com as gentes. Ela se apresenta pras pessoas, convida as pessoas para o jogo - PESSOAS PRETAS, é importante DESTACAR - ela traz os livros de poesia slam para serem recitados e nunca joga sozinha. São histórias dela e de outras que vieram junto, como as histórias das mães pretas e seu "valor de serviço" (com destaque para um trecho da dramaturgia de Alecrim Vozes Mulheres, da própria Ingrid). A participação da atriz Ângela Gabriela com sua força gestual e narrativa reforça a importância dessa obra. Entre uma marcante e um tecnomelody, no meio desse som torando, também vem as notícias sobre o preconceito, a discriminação, o RACISMO (precisa falar de algo que no Brasil ainda é abrandado com o nome de "injúria"). A gente combinamos de não morrer, disseram CONCEIÇÃO e INGRID, mas e eles? Nessa sociedade racista (conforme afirmam e reafirmam Abdias do Nascimento, Angela Davis, Cida Bento, Zélia Amador de Deus), eles combinaram de não matar? Quem é que a polícia procura? A quem ela encontra? Esse ROCK é DOIDO mesmo. A DJ BUBUIAR chama alguém do público pra tomar uma gelada e aí vem o derrame das histórias. Histórias reais e de periferias, narrativas bem distantes do teatro eurocêntrico dos grandes prédios e dos centros das cidades, aqui a dramaturgia é verdade. Era a história de uma mãe preta que teve seu filho perseguido por policiais, mesmo sendo um estudante e trabalhador, adivinha qual a cor? Adivinha as cores/pessoas que as balas e as agressões policiais procuram? Deus - DEUSA ZÉLIA - (2020) é quem diz: "O racismo é um fenômeno que tem como um de seus suportes a crença na naturalização da superioridade do colonizador." (p. 34). Desde as macro às micro atitudes.
É fundamental observar também que nos altos postos de empresas, universidades, de poder público, enfim, em todas as esferas sociais, temos, ao que parece, uma cota não explicitada de 100% para brancos. Esses lugares de alta liderança são quase que exclusivamente masculinos e brancos. (BENTO, 2022, p. 10).
A história da mulher se encontra com a história de Ingrid, que traz a mesma situação em seu corpo, com ameaças policiais vividas em sua própria cidade. Onde se pode/deve estar seguro? Qual a real função de instituições militarizadas que não passem pelo extermínio de corpos? Se tu ainda não entendeste a gravidade disso, VAZA, PEGA O BECO, DÁ O VAROTE, RASGA!
Mesmo com uma narrativa real encontrada em muitas periferias brasileiras – aqui, paraenses – a mulher também fala do orgulho em ser uma funcionária pública municipal concursada, e também com orgulho filho. Mesmo com a situação dolorosa – que gera marcas, mágoas e B.O.'s – Ingrid leva sua experiência para a cena, para jogar no teatro o que a realidade já mostra todo dia nos jornais. "Essa festa virou um enterro" é a sensação quando o corpo dela se desvia das balas (sonoplastia jogando com o corpo é sempre um acontecimento, na cena a gente aprende a ressignificar o real para que doa menos e se transforme em arte), e ainda assim cai no chão daquela rua na Vila da Barca, uma das maiores comunidades de palafitas do Brasil, às margens da Baía do Guajará, vizinha de uma vala cheia de esgotos e narizes empinados conhecida como "Doca."
Quando o corpo é coberto com a faixa de aparelhagem, é sobre a morte cênica e simbólica. Silêncio. Tensão. Vazio. Mas depois as tensões se quebram rapidamente e aí EXPLODE O BAGULHO! Volta a Dj Bubuiar com seus óculos high-tech, o brega torando na caixa de som e toda a festa que chegou chegando nessa Vila e nessa Barca. Quando a barca é boa, ela vai até de manhã e um ROCKDOIDO de respeito termina com aquele set de louvor pra abençoar os considerades: "Campeão, Vencedor, Essa fé que te faz imbatível. Te mostra o teu valor." Tem que ter fé pra fazer um teatro que sai dos locais centrais, tem que ter força pra levar sua festa pras pessoas que se reconhecem nela, tem que vencer pra trazer sua equipe de outra cidade e construir com essas gentes o que te move. DJ BUBUIAR, CAMPEÃ. A gente (que combinou de não morrer) bota muita FÉ em ti e te dá maior VALOR, considerada. Que esse ROCKDOIDO siga explodindo o bagulho racista pra bem longe, com a força do som e de todas as ruas/cenas.
Março de 2026
[1] Paraense. Artista-pesquisadora. Atuou como professora substituta nos cursos de Teatro (Técnico e Licenciatura) e Produção Cênica na Escola de Teatro e Dança / ICA-UFPA (2024-2026). Doutoranda em Artes (2023) e Mestra em Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Artes - PPGARTES/UFPA, na linha de pesquisa de Poéticas e Processos de Atuação (2021). Especialista em Linguagens e Artes na Formação Docente - IFPA (2023), na linha de pesquisa de Processos de Criação, Saberes Estéticos e Culturais das Linguagens. Educadora popular pela Rede Emancipa Belém (2021).Integrante e colaboradora ativa no projeto de pesquisa Vozes Encorporadas - Processos de Criação e Epistemologias Caboclas na Amazônia e no projeto de extensão LAB-GUMA. Integrou a equipe editorial do Dossiê Temático Poéticas em Vocalidades e Sonoridades da Cena na Amazônia - Revista VOZ E CENA / UNB (2025). Participante do projeto de extensão Tribuna do Cretino (PROEX/ETDUFPA) desde 2016 e atualmente integra o Comitê Editorial da revista digital. Colaboradora em Pesquisa/Montagem Cênica (2012) pela ETDUFPA e Atriz (DRT 603/PA). Diretora criativa, compositora e intérprete no EP KARIBÉ (2024)
Ficha Técnica:
ROCK DOIDO DA DJ BUBUIAR
Performer/atriz, Encenadora e Cenógrafa:
Ingrid Gomes
Ambientação Sonora e Designer:
Gabriel Piedade
Direção de Movimento/Coreografa:
Klaryane dos Passos Pimentel
Preparadora Corporal:
Gaby Mello
Fotografo (São Domingos do Capim):
Amilton Moreira
Fotógrafo (Belém):
Victor Peixe
Videomaker (Belém):
Carolina Mata
Figurinista:
Marcia Gonçalves
Intérprete de Libras:
Diversitils:
Assessor de Imprensa:
Lucas Corrêa
