Casas de Família – Por Edson Fernando

31/01/2026

Montagem Teatral: Abaeté

Montagem: Coletivo Cultural Achados e Perdidos

Tribuna do Cretino - Vol.02-N°02-2026 / ISSN 3086-1179

Edson Fernando[1]

Tenho lembrança da minha mãe, natural da ilha de Mosqueiro, contando algumas histórias curiosas do tempo em que éramos tenras crianças, eu e minha irmã mais velha, moradores do Jurunas do final da década de 70 do século passado.

Nesse tempo, mamãe já trabalhava como professora na rede estadual de ensino, com jornada de 200 horas que lhe ocupava todas as manhãs e tardes da semana e, em algumas ocasiões, até o período da noite quando assumia também alguma turma no regime de pró-labore, situação justificada para conseguir ganhos remuneratórios um pouquinho a mais que o salário regular do final do mês. Meu pai, por sua vez, exercia serviços de pedreiro, marceneiro, encanador, pintor, eletricista..., mas sempre teve dificuldades para se firmar num emprego estável, então, o que aparecesse era bem-vindo e sua jornada de trabalho também cobria o dia inteiro. Nesse contexto, havia a necessidade de se ter alguém em casa para cuidar de duas crianças: eu com dois e minha irmã com cinco anos de idade em 1977 – meu irmão caçula só viria ao mundo dois anos mais tarde. E Graça foi uma dessas pessoas que durante um período "tomou conta da gente".

Menina nova, Graça devia ter no máximo seus dezesseis anos de idade. Natural de Abaetetuba, também havia se deslocado para a capital em busca de estudos e melhoria de vida. E num sistema que agrupava amizade e alguma retribuição financeira – dentro dos limites possíveis dos meus pais – ela passava horas do dia em nossa companhia, ajudava a arrumar a casa, servia a nossa merenda e almoço, previamente preparado pela minha mãe, e ainda nos distraia brincando com a gente. As brincadeiras, no entanto, as vezes tomavam rumos esquisitos e rendiam situações inusitadas como, por exemplo, na ocasião em que brincando de casinha com minha irmã, Graça resolveu cortar os cabelos e as pestanas das bonecas. Qual não foi o susto de minha mãe quando chegou do trabalho e viu que meu penteado estava igualzinho o das bonecas e, sim, com direito a pestanas aparadas também. E, embora isso tenha deixado minha mãe extremamente aborrecida, alguma coisa lhe fazia lidar com benevolência diante da situação.

Em outra ocasião, Graça passou por situação constrangedora. Para ajudar com os rendimentos da família, Mamãe fazia chopp de ki-suco pra vender em casa. É claro que as vendas acabaram recaindo nas responsabilidades de Graça, afinal era a única que tinha condições de atender a clientela durante o dia. E fazia isso sem reclamar, mas adorava chupar um chopinho no final da tarde, de preferência naquelas tardes quentes antes do cair da chuva. Mas, naquela tarde, a escola de minha mãe antecipou a saída dos alunos em virtude das espessas nuvens escuras que cobriam todo o céu. Deitada na rede comigo, pra me fazer dormir, Graça já se preparava para mordiscar a pontinha do chopp de uva quando ouviu o baralho do portão de madeira se abrindo. Ficou tão assustada com a possibilidade da mamãe descobrir que ela chupava os chopps escondido que a única ideia que lhe veio à mente foi esconder o geladinho dentro de sua calcinha. Mamãe, ao abrir a porta da sala, desconfiou que havia algo de errado, pois a expressão pálida de Graça denunciava alguma artimanha daquela menina; se aproximou da rede e logo percebeu o volume molhado dentro daquele short e, num misto, de ralho e riso incontido, exclamou apontado para a roupa molhada: "– Mas que arrumação é essa, menina!" Não houve como Graça negar o corrido, pois a baixa temperatura do chopp já lhe cobrava o preço de ser guardado próximo as suas partes íntimas. Mamãe, no entanto, mais se divertiu com aquilo do que repreendeu a pobre menina que iniciava sua vida adulta trabalhando em casa de família.

Cresci ouvindo essa e outras histórias envolvendo as meninas que trabalharam em casa. Hoje, observando com mais atenção àquelas situações sou levado a acreditar que a benevolência de minha mãe diante das coisas que Graça aprontava em casa se devia ao fato de que a dona Creusa também fora, alguns anos atrás, a menina que veio do interior de Mosqueiro para trabalhar em casa de família. E também viera com a promessa de estudar para melhor de vida. E a alternativa dada a minha mãe, como a tantas outras meninas que continuam vindo do interior para a capital do Pará, era se submeter a um regime de trabalho muitas vezes análogo a escravidão, com jornadas de trabalho que podem chegar a dezesseis horas. E, pelo que minha mãe também relata, nem sempre teve a sorte de encontrar pessoas compreensivas e acolhedoras; algumas de suas patroas eram pessoas ríspidas e exigentes que atuavam sob a premissa de que por oferecer moradia, alimentação e oportunidade de estudo, podiam humilhar e explorar os seus serviços a todo e qualquer momento. Então, conhecia bem a realidade de quem precisava trabalhar em casa de família e, por isso, de algum modo evitava reproduzir esse modelo desumano com os serviços de Graça.

É por esse lugar, isto é, pelas vivências relatadas por minha mãe e guardadas nas minhas memórias desde os meus dez anos de idade, que a montagem teatral "Abaeté", do Coletivo Achados e Perdidos, me atravessou por ocasião do Festival Arte Breada, apresentação ocorrida no Teatro da Caixa Cultural Belém. Embora a montagem dê voz para outros temas importantes como a visibilidade e identidade das pessoas trans, o recorte social que estabelece relação direta com a vó da atuante Lírio do Pará é o primeiro motivo que me convocou a escrita desta crítica e, por isso, fiz questão de demarcá-lo no título "Casas de família". No entanto, vou começar falando do segundo motivo que me mobilizou a esta escrita, isto é, a estrutura da encenação da montagem que, a meu ver, se estabelece por meio de uma dramaturgia docu-testemunhal que aciona, automaticamente, elementos muito recorrentes na contemporaneidade, muito bem indicados no artigo de Daniel Silva com trecho a seguir:

A partir do momento em que vemos no palco um ator que não é apenas intérprete das palavras de um outro, mas que dá voz às suas próprias sensações, pensamentos e experiências de vida, há um tensionamento entre ficção e realidade: o ator deixa de personificar um personagem e se torna uma pessoa, abandona o papel de narrador e instaura um diálogo com o público; a cena deixa de citar o real, abrindo-se para que uma fatia da realidade irrompa e se instale. (2016, p.68)

Esse "tensionamento entre ficção e realidade" de que nos fala Daniel Silva é delicadamente articulado na atuação segura de Lírio do Pará. Desde os primeiros movimentos de cena, a atuante nos envolve em sua atmosfera sensório-memorial, nos inquirindo sobre valores sociais estabelecidos, convenções, instituições ou coisa que o valha. De imediato isso me causou repulsa, pois me soou uma fala muito acadêmica em direto contraste com a visualidade, sonoridade e gestualidade ritualística executada. Confesso que isso me desagradou no momento da cena e, tenho minhas dúvidas, se o texto desse início realmente necessita dessa crueza, pois fui tomado pela sensação ambígua que oscilou entre o mágico-poético e o real-academicista; ou talvez o tensionamento inicial entre o real e a ficção se estabeleça exatamente desse encontro.

Passado esse momento inicial que me provocou desconforto, Lírio rompe logo a quarta-parede do teatro para estabelecer o jogo diretamente com o olhar do espectador, assim bem juntinhos, lado a lado, téti a téti. É nesse momento que a atuante traça o tom intimista da encenação, mesmo tendo que lutar contra a arquitetura italiana do palco; a luta mesmo sendo injusta e desigual – dado que a arquitetura do espaço irá se impor sempre por sua concretude e espacialidade segregacionista entre público e atuante – me faz pensar o quanto a montagem ganha quando apresentada num espaço experimental que congregue a todos numa área de atuação unitária.

Contudo, a atuação de Lírio e a direção da montagem me parecem tão seguras e afinadas que mesmo no palco italiano a força da história me provoca comoção. Aqui o fundamento docu-testemunhal da dramaturgia é o grande agenciador das forças produtivas e criativas em cena, pois, parafraseando a citação supracitada de Daniel Silva, o texto ao se assumir em forma de depoimento histórico faz com que a atuante não siga pelos cânones da representação dramática de uma personagem, mas sim como a pessoa que compartilha suas vivências, suas angústias, seus desejos e sonhos. Nesse aspecto é importante destacar que Lírio, ao evocar uma voz e jeito de falar de sua versão criança, beira os limites da mise en scene dramática, mas o caráter de depoimento autobiográfico da dramaturgia é tão marcante que me afasta da recepção da representação de uma personagem, porque no final das contas a versão criança da atuante não opera sob o signo da máscara dramática e sim de um deslocamento temporal de sua subjetividade, narrada sob a inocência de uma criança que não compreende certas convenções e valores sociais que vão se apresentando na vida.

Desse modo, ainda parafraseando Daniel Silva, a montagem abandona a perspectiva de dramatização de uma história pessoal para assumir os trilhos da epicização do teatro, possibilitando agora que a própria realidade da atuante e de sua avó irrompa e se instale de modo muito vigoroso. O depoimento da avó, aliás, merece um capítulo à parte, pois me é apresentado sob dois aspectos importantes: em primeiro lugar porque a história é apresentada por meio de um depoimento muito espontâneo e sincero narrado em primeira pessoa pela própria voz de Dona Sebastiana; e, em segundo lugar, porque o centro da cena é rasgado pela projeção audiovisual em vídeo, com imagens em looping que nos permitem ver Lírio e sua avó, lado a lado, tendo como cenário o lugar ribeirinho onde, provavelmente, reside Dona Sebastiana. Sobre esse último aspecto, é digno dizer que não sou fã dessas interfaces de linguagens que o teatro tem experimentado com o audiovisual desde antes da pandemia; geralmente fico com a sensação de que o audiovisual instaura um abismo na cena teatral, uma espécie de imersão que articula e instaura outro tempo e espaço de recepção, próprio da linguagem, que é muito difícil de coadunar com a especificidade da linguagem teatral que exige qualidade de presença no aqui e agora. E aqui, novamente, vale destacar como toda a equipe trabalha para que a interface de linguagens transcorra de modo mais natural possível. Então, mesmo com a cena rasgada ao centro pelas imagens projetadas, Lírio permanece em estado de presença jogando cenicamente com os adereços cênicos presentes; Dona Sebastiana vai contando, com naturalidade de arrepiar, as situações de violência que foi exposta quando saiu de Abaetetuba para vir trabalhar em casa de família em Belém; outra menina do interior que, assim como minha mãe e Graça, foram arremessadas nessa situação pela falta de oportunidades e melhores perspectivas de vida em suas cidades de origem. E a medida que a voz de Dona Sebastiana avança com a narrativa o meu coração aperta; e no clímax dessa narrativa, momento em que o audiovisual tem todas as ferramentas para nos provocar a catarse, Lírio irrompe brutalmente no espaço, rasga a cena com um grito de dor, desespero e denuncia; é como se dissesse: "– Nada de catarse! Queremos atuar e intervir neste mundo real e violento. Neste mundo que foi violento com minha avó. Neste mundo que é violento comigo e com toda a comunidade LGBTQIAPN+". E assim, poucas vezes testemunhei uma passagem de cena entre o audiovisual e o teatro tão bem afinadas a ponto de me emocionar, revoltar, indignar e refletir ao mesmo tempo.

Reitero que a montagem não toma o tema da violência sofrida pela avó de Lírio como o centro de sua temática, mas foi por esse lugar que "Abaeté" me atravessou e me acionou por meio de minhas vivências e memorias de infância compartilhadas a partir de minha mãe. Esse recorte me mobilizou a escrever e tecer algumas considerações sobre o trabalho e é impossível terminar essa crítica sem lembrar com tristeza e revolta o caso envolvendo o ex-deputado estadual paraense pelo DEM, Luiz Sefer e uma criança de apenas nove anos de idade ocorrido nos idos de 2005.

A menina fora trazida do interior do estado para morar na casa do então deputado e médico, com os mesmos sonhos de melhoria de vida que tantas outras meninas do interior do Pará continuam alimentando. Aos olhos da avó daquela menina, era uma casa de família perfeita para lhe dar o futuro melhor. Mas não foi o que aconteceu. A menina chegou na "casa de família" de Sefer em 2005 e sofreu violência sexual até o ano de 2008 quando, então, prestou denuncia ao conselho tutelar. O escândalo apareceu em 2009 forçando Sefer a renunciar ao mandato parlamentar para evitar ser cassado por seus pares. Um processo criminal foi instaurado no mesmo ano; Sefer chegou a ser condenado a 21 anos de prisão por crime de estupro de vulnerável, mas nunca cumpriu a pena até hoje e o caso continua sem uma resolução definitiva de prisão até o início de 2026.

Minha mãe trabalhou em casa de família, teve alguns patrões ríspidos, grossos, exigentes e até exploradores da sua força de trabalho, mas felizmente nunca sofreu abuso sexual. Graça, por sua vez, também trabalhou em casa de família e, pelo menos com a mamãe como patroa, teve a sorte de ser acolhida por alguém compreensiva. Dona Sebastiana, infelizmente, não teve a mesma sorte. E, apesar de tudo que passou, ela se apresenta como um ser humano sensível, compreensível e com os ouvidos abertos para escutar as dores e desejos de mudança sua neta. É uma mulher admirável e merece ser aplaudida de pé. Lírio do Pará, por toda sua trajetória de vida e coragem de compartilhar suas vivências poeticamente também. Meu agradecimento a essas duas mulheres.

Por fim, desejo que o grito de dor, desespero e denuncia de Lírio, em "Abaeté", reforce nosso desejo por justiça contra todas as meninas que infelizmente ainda precisam se expor a situações degradantes e desumanas em diversas "casas de família" no Pará e Brasil afora. E que esse grito também repercuta para fortalecer todas as lutas da comunidade LGBTQIAPN+.

Evoé

31 de janeiro de 2026.

[1] Ator e diretor teatral desde 1996; Coordenador do Projeto Tribuna do Cretino; Editor da Tribuna do Cretino: Revista de Crítica Teatral; Membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro AICT-Brasil.

Referencial bibliográfico

SILVA, Daniel Furtado Simões. Dramaturgias do real e depoimento autobiográfico: compartilhamento do eu. Cadernos Literários da UFPel, 2016, Nº 24 (01). Disponível em https://periodicos.furg.br/cadliter/article/view/9194

Ficha Técnica:

Montagem teatral:

Abaeté

Texto e Atuação:

Lírio do Pará

Direção:

Kevin Braga e Dina Maia

Figurino, Adereços e Cenografia:

Kevin Braga

Iluminação:

Renan Coelho

Provocação Dramatúrgica:

Valéria Lima

Coreografia:

Adriana Fortes

Audiovisual:

Allyster Fagundes

Trilha Sonora:

Íris da Selva

Realização:

Coletivo Cultural Achados e Perdidos