Clarice, para sempre: Entre livros e silêncios, pulsa a humanidade de Lispector.
Montagem Teatral: Clarice, Para Sempre
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Elcio Lima Corrêa[1]
Junho chegou trazendo o calor das festas juninas, o aroma das barracas espalhadas pela cidade e a sensação de encontro que acompanha esse período do ano. Foi nesse contexto de celebração popular que a Pérola da Campina acolheu, na noite de 6 de junho, um encontro de outra natureza: íntimo, reflexivo e profundamente humano. Em um espaço de proximidade rara entre artista e plateia, o espetáculo Clarice, para sempre estreou apresentando um delicado e contundente mergulho na trajetória e no universo sensível de uma das maiores escritoras da literatura brasileira e mundial.
Nascida na Ucrânia em 1920 e trazida ainda bebê para o Brasil, Clarice Lispector construiu uma obra singular que atravessou fronteiras e gerações. Seus romances, contos e crônicas transformaram a linguagem literária em instrumento de investigação da alma humana. Autora de obras fundamentais como A Paixão Segundo G.H., A Hora da Estrela e Laços de Família, Clarice deixou um legado marcado pela introspecção, pela busca da identidade e pela capacidade de revelar os abismos e epifanias escondidos na experiência cotidiana.
Em cena, Larissa Latif assume a figura de Clarice Lispector e sustenta sozinha os 45 minutos de apresentação com uma presença serena, concentrada e precisa, conduzindo o público por um percurso que exige escuta atenta e disponibilidade para sentir.
A dramaturgia assinada por Karine Jansen, que também dirige o espetáculo, constrói uma verdadeira trilha de sensações a partir da obra e da vida de Lispector, afastando-se da cronologia e privilegiando os temas que atravessaram sua escrita. O espetáculo parte do amor pela leitura e pela palavra, percorre questões ligadas à identidade, à solidão, à memória e ao permanente desejo de compreender a existência, articulando referências biográficas e literárias com fluidez e delicadeza. Entre os momentos de maior força imagética está a cena em que os livros surgem como sustentação e caminho de uma vida inteira dedicada à literatura, transformando em imagem uma relação que marcou profundamente a trajetória da escritora. O texto de Jansen encontra interesse justamente naquilo que habita as entrelinhas de Clarice, revelando suas inquietações, sensibilidades e contradições sem a preocupação de oferecer respostas definitivas. Essa atmosfera encontra eco na atuação de Latif, que conduz a personagem com precisão e contenção. A atriz evita reproduções literais de voz, gestos ou trejeitos associados à escritora e investe em uma construção sustentada pela escuta, pelos silêncios e pela densidade das palavras. Sua interpretação preserva o mistério que cerca a figura de Clarice e permite que o público acompanhe uma mulher atravessada por dúvidas, desejos e reflexões. A poesia melancólica presente na dramaturgia ganha corpo em uma atuação que valoriza os pequenos movimentos e os tempos de pausa, criando uma presença cênica capaz de aproximar a escritora de nossa experiência cotidiana sem reduzir a complexidade que tornou sua obra tão marcante.
Na direção, Karine Jansen privilegia a dimensão humana de Clarice Lispector, recusando a imagem monumental da escritora. A encenação valoriza os silêncios e os momentos de contemplação, criando uma relação de intimidade entre personagem e plateia. Essa proximidade transforma a autora em uma presença reconhecível em suas inquietações mais profundas e faz do espetáculo um espaço de reflexão sobre a existência, a criação artística e os afetos.
A cenografia e o figurino colaboram decisivamente para essa atmosfera. O espaço cênico sugere um tempo suspenso, um lugar que poderia pertencer a qualquer década ou mesmo aos dias atuais. O figurino assinado por Bonelly Pignatario contribui imediatamente para a visualização dessa persona enigmática. A saia evasê, a blusa em tons de azul e as joias discretas e elegantes evocam simultaneamente delicadeza e autoridade. O traje dialoga com a dimensão intelectual da personagem sem abrir mão de sua humanidade. Também merece destaque a caracterização, que opta por elementos essenciais da aparência de Lispector. A maquiagem, suave e marcante na medida certa, transforma sutilmente o rosto de Larissa Latif, permitindo reconhecer ecos da escritora sem recorrer ao excesso ou à reprodução literal. É uma escolha coerente com toda a proposta estética do espetáculo.
Em uma cidade como Belém, marcada por constantes desafios de circulação e permanência das artes cênicas, a existência de um espetáculo como Clarice, para sempre possui valor especial. Ao longo da apresentação, a atriz despertava no público um desejo quase espontâneo de conversar com ela, de responder às perguntas lançadas em cena e de prolongar aquele encontro para além do palco. Criava-se uma rara sensação de comunhão que só o teatro é capaz de proporcionar.
Talvez algumas escolhas de ritmo possam parecer lentas para uma época condicionada pela velocidade dos reels, stories e conteúdos consumidos em segundos. Ainda assim, cada pausa, cada silêncio e cada palavra carregam sentido. Nada soa vazio. O espetáculo exige presença e, em troca, oferece profundidade.
Ao final, poucos podem ter saído indiferentes daquela sala. Ninguém passou incólume à força contida da escrita de Clarice Lispector nem à presença que Larissa Latif foi capaz de materializar diante do público. Durante 45 minutos, a escritora esteve ali. E permaneceu um pouco mais depois que as luzes se apagaram. O espetáculo segue em cartaz nos dias 13, 14, 20 e 21 de junho, na Pérola da Campina. Vale conferir.
Junho de 2026
[1] Elcio Lima Corrêa é diretor do Grupo Presságio, figurinista e Professor licenciado em Teatro pela UFPA; também colabora com o Projeto de Extensão Tribuna do Cretino;
Ficha Técnica:
Clarice, Para sempre
Elenco:
Larissa Latif
Direção e Dramaturgia:
Karine Jansen
Dramaturgismo:
Lennon Bendelak
Cenografia:
Anna Kelly Amorim
Figurino:
Bonelly Pignatario
Iluminação:
Marckson de Morares
Maquiagem:
Thaís Sales
Cartaz e fotografias:
Danielle Cascaes
