Das dores às cores

29/06/2026

Montagem Teatral: Nas noites de São João

3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

David Costa de Araújo[1]

Há muitas formas de se perceber que o mês de junho chegou: as ruas ficam enfeitadas com bandeirinhas coloridas, você sente o cheiro do mingau de milho e do bolo podre em cada esquina, avista crianças indo para as escolas com roupas de quadrilha, com a trilha sonora sendo composta por sons de bombinhas e estalinhos embalados em ritmos juninos; em Belém mais especificamente, é no mês de junho que acontece o famoso Arrastão do Pavulagem, onde milhares de pessoas ocupam a Praça da República aos domingos para aproveitar a tradição e cultura. Contudo, além dessas características mais notáveis, o mês de junho também é um período de luta e memória, já que é o mês do orgulho LGBTQIA+, e é pensando nessas duas temáticas que foi concebido o espetáculo "Nas Noites de São João", que faz uso da estética junina em sua composição de som, figurinos e cenários, e aborda vivência queer na sua narrativa, especialmente no que tange à transsexualidade, e a arte Drag Queen.

O que mais me chamou a atenção foi o conceito da ideia de "bastidores" aqui apresentada, pois a principal ambientação do espetáculo simula um grande camarim, onde os personagens estão se "montando" e interagindo em um grande fluxo de falas, movimentos e performances musicais, tudo com bastante uso da comédia e da quebra de quarta parede, já que os atores interagem com os operadores de sonoplastia e iluminação do teatro de dentro da própria cena. Mas entre uma tirada cômica e outra, existem angústias e dores que vazam de dentro de cada um personagem/ator/atriz, sejam de formas sutis ou mais abertas, há um momento de interação com o público onde um dos personagens se senta nos primeiros bancos da plateia e vira para um dos espectadores dizendo: "sabiam que a minha mãe nunca veio assistir uma peça minha?"; e em outra sequência, uma atriz grita a plenos pulmões: "eu queria um amor que não tivesse vergonha de segurar minha mão na rua". Me senti tocado, é quase desconfortável perceber o quanto ainda é normalizado o abandono e a negligência, seja familiar ou social, com pessoas que possuem sexualidades que diferem do padrão heteronormativo.

Foi por essa hora que me veio o estalo do porquê associar temática junina com a arte Drag Queen, o mês de junho é um mês festivo, vistoso e colorido, mas há marcas por trás de toda essa ótica, há trabalho. Alguém passou várias horas desenhando e cortando milhares de bandeirinhas para enfeitar as ruas, alguém pode ter se queimado durante o preparo do melhor mingau de milho que você vai comer na sua vida, alguma costureira passou noites em claro cortando e remendando tecidos para um figurino de festa junina, e talvez tenha até se furado com uma agulha sem ninguém saber. Assim mesmo é a percepção de ver uma Drag Queen no palco, seja ela transsexual ou não. Se você ver aquele ser vistoso, divino, cheio de brilho, luz e energia, saiba que provavelmente há uma história cheia de marcas, profunda, riscada e até quebrada por dentro. Mas no fim essa é a beleza de tudo, é o que se extrai, e o quanto você pode transformar os seus fios, cacos e retalhos em algo lindo para o mundo ver.

Junho de 2026

[1] Graduando do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;

FICHA TÉCNICA:

"Nas noites de São João"

Elenco:

Safira Clausberg

Matuxa Latina

Amélia Wintour

Celeste Volúpia

Aphrodite

Monique Lafon

Agatha Latina

Direção:

Enzo Gabriel

Iluminação:

Nathan Lavareda

Produção:

Jam Sancas, Gabriel Souza, Luiza Miranda

Dramaturgia:

Enzo Gabriel

Som:

Mac Silva

Figurino:

Ozias Xavier

Composição musical:

Saul Gusmão, Sofia Alvarez, Cakau, Verena Brito

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