Desertos: O Amor Como Oásis Entre Ausências – Elcio Lima Corrêa

Montagem teatral: "DESERTOS – Dois homens. Dois destinos. Um amor"

Montagem: Grupo Teatro de Apartamento

Tribuna do Cretino - Vol. 01 - N° 01 - 2025 / ISSN 3086-1179

Elcio Lima Corrêa[1]

No espetáculo Desertos, com dramaturgia de Saulo Sisnando, o palco se converte em uma estação de metrô no Rio de Janeiro — esse espaço impessoal e cotidiano que ganha, aqui, contornos de abismo e de possibilidade. É nesse cenário urbano e aparentemente inóspito que dois homens se encontram, e é a partir desse encontro que nasce uma trama delicada, potente e profundamente humana. A sessão em questão ocorreu no sábado, 27 de setembro, no Teatro Casa Saulo Sisnando, com uma montagem que reafirma o compromisso do autor com um teatro que toca, provoca e afirma vidas.

A narrativa se desdobra com sensibilidade: dois desconhecidos se aproximam timidamente em meio à correria anônima do metrô. O que poderia ser apenas mais um desencontro vira semente de algo raro — um afeto possível, mesmo em um ambiente que parece hostil ao sentimento. Aos poucos, os personagens revelam suas solidões, suas dores e seus desejos, construindo uma relação marcada pela escuta e pelo acolhimento. A cidade segue indiferente, mas algo novo pulsa naquele subterrâneo.

A dupla protagonista é o coração pulsante da peça. Flávio Ramos Moreira e César Rocha demonstram uma química cênica extraordinária, sustentando com verdade cada instante de aproximação entre seus personagens. Um deles, mais contido, carrega no corpo a rigidez de quem aprendeu a se proteger do mundo. O outro, mais espontâneo, oferece um contraponto vibrante, abrindo brechas para o riso, o desejo e a vulnerabilidade. Juntos, eles criam um jogo de cena comovente, onde o silêncio diz tanto quanto as palavras, e cada gesto é carregado de história.

Ao lado dessa trama principal, uma narrativa paralela conduzida por um escritor solitário — interpretado com maestria por Marcelo Borges, que merece menção especial — amplia o alcance poético da peça. Esse personagem, em seu isolamento criativo, reflete sobre o amor, o medo e os desertos internos que habitamos. Com uma atuação contida e profundamente sensível, o ator oferece ao público momentos de grande emoção. Sua presença em cena funciona quase como um espelho lírico da história central, ecoando sentimentos e propondo uma reflexão mais ampla sobre a escrita, a memória e o desejo.

O texto de Saulo Sisnando, sempre atento à escuta da realidade, transita entre o concreto e o poético com habilidade. A encenação acompanha esse movimento, equilibrando realismo e lirismo com elegância. A direção aposta em uma linguagem íntima, convidando o público a se aproximar — não apenas fisicamente, dada a disposição do espaço, mas emocionalmente. A iluminação sutil e o som ambiente do metrô criam uma atmosfera de leve suspense, na qual tudo pode acontecer: inclusive o amor.

Há um evidente caráter social em Desertos que não se resume à temática LGBTQIA+, mas se expande na representação de corpos e histórias geralmente marginalizados. O espetáculo se compromete com a ideia de que o afeto também é território de resistência — sobretudo quando vivido entre dois homens atravessados por experiências de exclusão. A peça não recorre a estereótipos nem romantiza o sofrimento: ela aposta na beleza de uma aproximação verdadeira, que se constrói apesar de todos os muros impostos pela sociedade.

Em meio às vastas paisagens da solidão humana, Desertos desenha encontros que quase não acontecem, atravessados por silêncios, medos e desejos contidos. Corpos que se tocam por instantes, almas que se reconhecem tarde demais. No meio das travessias afetivas da vida LGBTQIA+, onde o amor muitas vezes se esconde por medo ou se desfaz antes de nascer, a peça revela a beleza dos afetos que resistem, mesmo quando tudo ao redor parece estéril. Desertos é sobre o amor que floresce no inesperado e sobre os caminhos que se cruzam, mesmo quando não sabem para onde vão.

Vale ressaltar que o espetáculo teve estreia no FITA - Festival Internacional de Teatro de Angra, ao lado de grandes nomes do teatro nacional. Desertos é, assim, uma obra que se destaca não apenas pela sua relevância temática, mas também por sua potência cênica e afetiva. Sisnando entrega um trabalho maduro, necessário e profundamente tocante. Em tempos de aridez afetiva e discursos de ódio, a peça surge como um oásis: um espaço onde é possível sonhar com um mundo menos solitário e mais amoroso.

Ao fim da apresentação, a plateia sai em silêncio, mas com os olhos acesos. Em cada espectador, a certeza de que algo foi tocado e que, de algum modo, também fomos encontrados naquele deserto.

08 de outubro de 2025

[1] Elcio Lima Corrêa é diretor do Grupo Presságio, figurinista e concluinte do curso de Licenciatura em Teatro; também colabora com o Projeto de Pesquisa O Clown Nosso de Cada Dia e com o Projeto de Extensão Tribuna do Cretino.

FICHA TÉCNICA

Desertos

Direção e Dramaturgia

Saulo Sisnando

Elenco

Flávio Ramos Moreira

César Rocha

Alna Luana

Marcelo Borges

Preparação de Elenco e Sonoplastia

Pauly Banhos e Leoci Medeiros

Coach de Interpretação

Edson Aranha

Coreografia

Luiza Monteiro

Iluminação

Matheus Caê

Consultoria de Figurinos

Leonardo Pamplona