Édipo e Jocasta, entre a morte materna e erótica – Por Elian Magno
Montagem teatral: É-DI-PO E JO-CAS-TA - Um Espetáculo-Ritual a Dionísio
Montagem: Espaço das Artes de Belém
Tribuna do Cretino - Vol.02-N°02-2026 / ISSN 3086-1179
Elian Castor Mágno[1]
A famosa história trágica da mãe desposada por sua descendência, da mãe que ama incondicionalmente um filho, mas acaba se detendo a ter relações com este, sem saber que o menino saiu de seu próprio ventre. Todavia, isso acontece para o cumprimento de uma profecia, que está mais próxima de uma maldição, promovendo a ruína de um reinado. É verdade que a narrativa entre Édipo e Jocasta pode ser considerada conflituosa, repleta de interfaces psíquicas e filosóficas, promovendo ao longo da história discussões acaloradas entre a moral, a mente e os desejos humanos, vide as teorias Freudianas para discutir fases de desenvolvimento na psicanálise por meio do que ele denominou "Complexo de Édipo", baseada na relação do pequeno Édipo e sua imaculada Jocasta (FREUD, 1996).
Sófocles foi ousado ao criar com precisão este drama trágico que desencadeia em um moralismo familiar. Embora Édipo seja o personagem carro chefe da narrativa, girando todos os eixos dramatúrgicos indo do seu nascimento, até o deleite erótico nos seios de sua própria mãe. Jocasta, por outro lado, tem sua identidade na peça como a mulher que não suportou as dores do prazer encontrado em seu filho, tomando a trágica decisão de partir-se, indo de encontro ao seu suicídio (SÓFOCLES, 2011).
Neste trágico conflito, enxergamos mais uma vez o papel da mulher, o feminino posto à mesa, onde a feminilidade tem seus caminhos decretados de acordo com os poderes concentrados nas mãos de homens. O feminino representado em Jocasta é refletido na sociedade passada de Sófocles, mas ainda muito evidente em nossa atualidade. Mulheres, como Jocasta, são castigadas, enquanto homens as despojam e assumem reinados com o poder em mãos.
A cultura ocidental é a primeira que nos chega e é postada (felizmente ou infelizmente, vale a reflexão), pelo menos em grande parte de nossos estudos em teatro. Nos tornamos conhecedores das grandes tragédias e comédias gregas, resultando o profundo desejo cênico pela materialização destas montagens em algum momento de nossas carreiras.
Medéia.
Antígona.
Electra.
As Troianas.
As Bacantes.
E a famosa "Édipo Rei". Todas essas, de alguma maneira nos chegam como uma sacralidade teatral e com elas o culto aos festejos Dionisíacos e Bacantes.
Ao longo de todos estes anos surgiram várias montagens desses cânones teatrais, inclusive, em nossas terras Belenenses, com as encenações de outros grupos teatrais, muitos destes oriundos da Escola de Teatro e Dança da UFPA, como a encenação de "As Troianas", com uma roupagem na década de 1970, dirigida por Cláudio Barradas (1930-2025), nas escadarias da Prefeitura Municipal de Belém. Na metade do século XX já se enxergavam as produções em torno das divindades gregas.
Os anos se passaram e o teatro em Belém do Pará, incansavelmente, com todas suas mazelas financeiras e falta de incentivo cultural não deixou de produzir monumentais obras cênicas. Foram surgindo novos grupos, novas casas e novos rostos de produtores de teatro, entre eles faces presentes no Espaço das Artes[2].
O Espaço das Artes em Belém do Pará tem sido uma casa fartamente comentada entre as conversas sobre teatro em nosso território, por ser um espaço que vem colocando nomes talentosos dentro e fora de suas portas. Os seus produtores se preocupam em organizar criações que vão desde um teatro tido como clássico, até as adaptações cênicas satíricas, algumas em releituras unicamente amazônidas, consolidando mais uma vez a estética de um teatro produzido e encenado por pessoas do Norte.
Desta vez, ou melhor, mais uma vez, foram ousados em trazer novamente a temporada de "É-di-po e Jo-cas-ta", um espetáculo que se baseia em duas outras tragédias, a primeira seria a original "Édipo e Jocasta", escrita por Sófocles e a segunda, "As Bacantes", escrita por Eurípedes.
O espetáculo é proveniente do NAVE - Núcleo Artístico de Vivências do Espaço, o projeto visa dar visibilidade a estudantes que já tiveram sua passagem pelas aulas e cursos de formação ofertados pelo Espaço das Artes. As ações do NAVE refletem uma importante pedagogia da cena, afinal, todo ator precisa deste espaço de visibilidade para que possa aprimorar suas técnicas, exibindo-as ao público, dando a oportunidade de encenação aos que já estão há mais tempo participando e contribuindo com as atividades do lugar, consequentemente, alunos com mais experiências no eixo cênico. Para se estar em uma encenação ousada como esta, é preciso estar em plena e pura intimidade com o palco.
No início do espetáculo o público é convidado a entrar em uma atmosfera ritualística, onde os atuantes se deslocam pelo palco em ritmos dançantes e sensuais, ao som de um batuque acompanhado de um canto incomum, que prende os ouvidos do espectador por ser repetido várias vezes. Nesta conjunção de cena já é possível notar a presença de um culto à uma divindade.
A estrutura arquitetônica teatral parece intencional em não definir uma divisão entre palco e plateia, ambos parecem se misturar, não havendo distinção entre um e outro. Ainda neste momento inicial o elenco em uma prática claramente sedutora induz o público a entrar no campo de cena para dançar as rítmicas tocadas, acompanhado de frutas e copos de vinhos, colocados à boca de quem deseja se deliciar. Os atuantes oferecem de forma intimista, resultando até mesmo em ofertas particulares na presença do toque íntimo entre uma boca e outra de quem deseja tal conexão. Com todas estas nuances, fica claro ser um ritual a Dionísio, deus das festas, orgias e erotismo grego.
Os aspectos visuais, cenografia e figurino, ficam evidentes no altar construído para o culto espetacular, ele tem um caráter realista e muito bem construído por sinal, existem muitos acertos nos seus elementos, como as frutas, imagens, objetos, tecidos… tudo parece ser muito bem pensado. Mas esta montagem, desde o início, é ousada e por ter ousadia, nada mais justo que fuja dos aspectos realistas e naturalistas. Era necessário, portanto, deixar isso restrito a Ibsen, André Antoine e demais teóricos que pensaram a radicalização da vida real no palco. Isso não deve caber mais no palco, principalmente se for em um espaço experimental.
É importante esta discussão dentro do espetáculo, uma vez que, o figurino nos traz a subjetividade e fuga do aspecto realista. Em uma das cenas, quando o figurino de Jocasta se torna o pequeno Édipo, o tecido vai se enrolando nos braços da atriz e nos faz acreditar que aquele tecido carregado com tanto cuidado é uma criança. Isso está distante do realismo, é preciso que a cenografia e outros elementos visuais da cena também estejam.
Existe um risco em assumir uma criação provocativa, repleta de erotismo e desejo, com os corpos pluralmente nus em cena, realizando um teatro que poucos vem se propondo a fazer. Um teatro distante somente do interesse comercial, não sendo restrito apenas ao capital econômico. É um teatro que se preocupa com a qualidade de inventar, mastigar o tradicional e cuspir o novo, numa releitura única e particular. Algumas práticas em teatro andam tão monótonas que chegamos até chamar de risco um corpo nu em cena.
Ao mencionar o risco dos corpos, preciso também enfatizar o talento deles em cena, um elenco claramente comprometido naquilo que quer comunicar ao espectador, deixando uma mensagem sobre a queda da moral, do puritanismo e das frágeis políticas de controle humano. Tudo isso é contado em uma atuação repleta de técnica, com ações bem pontuadas, tendo ausência dos clichês teatrais, se tornando uma apresentação quase visceral cênica.
No elenco, é importante destacar o nome de Ana Eliza, uma das protagonistas, atriz intérprete de Jocasta, numa atuação muito precisa dos comportamentos de uma mãe, no ato de dar à luz a um filho, transmitindo as emoções da dor em perdê-lo e depois nos trazendo a sensualidade de deitar-se com ele, tendo no fim a visceralidade de sua partida.
A Jocasta de Ana Eliza parece ser construída através de forças do inconsciente, com sentimentos puros e muito sutis, incapazes de serem interpretados de qualquer maneira, pois, está sendo abordado um lado precioso, o da maternidade. Ana, em sua atuação consegue transmitir isso com muita responsabilidade nos mostrando todos os tons de ser uma mulher aos golpes dados pela sociedade.
Outro nome de grande destaque nesta trama é o de Leonardo Sousa interpretando o "Destino", um personagem que transita e cruza vários momentos da encenação, trazendo mensagens e reflexões não só aos personagens, como ao público que o assiste. Esse destaque ao nome de Leonardo se dá pelo fato do seu personagem ser repleto de camadas, mudando a cada cena e ao interpretar diferentes textos, indo de eixos poéticos a diálogos políticos sociais.
O ator em sua atuação cria atmosferas distintas para a sua presença em cena, fazendo com que seus personagens tenham distância de interpretação um do outro. Para quem reconhece fatores de atuação, sabe que ao dar vida a somente um personagem já requer muita dedicação, logo, interpretar mais de um requer o dobro deste esforço.
O coro do espetáculo, embora seja considerado um serviço feito para ser encenado em segundo plano, se torna um ponto alto dada a ligação existente entre os atores, os quais, em grupo parecem captar a energia um do outro, unificando suas atuações, fazendo com que se tornem um só, como se o coro não fosse um grupo, mas um personagem único dentro da obra. Não produzem cantos como as tragédias originais, mas trazem força ao colocarem para fora as declamações dos versos heróicos, de maneira lúgubre, produzindo novas sensações para a cena.
Por fim, é possível afirmar que temos o Espaço das Artes ousando fazer uma releitura de uma imaculada tragédia, não se preocupando estritamente ao tradicional, mas colocando elementos contemporâneos para fora, com o erotismo, dedicação e o talento teatral da cena. Tudo isso, é algo que eu não via por aqui há um tempo, exceto por produções externas.
É bom ver que aqui, em Belém, há um teatro que pensa suas produções fora do eixo apenas comercial e lucrativo, colocando no palco, uma montagem que renega o clássico e nos mostra novas perspectivas da cena.
Ao Espaço, e a todos os que o habitam, muita MERDA!
26 de Janeiro de 2026
[1] Graduando em Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Possui Curso Técnico em Cenografia pela Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (2024). Artista, ator, cenógrafo, escritor e pesquisador.
[2] Fundado em 2018, pelos artistas Breno Monteiro e Lauro Souza, o Espaço das Artes de Belém fica localizado na Rua Tiradentes, nº 35, no bairro do Reduto, próximo da Praça da República.
Referências
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1997.
SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Donaldo Schüler. Porto Alegre: Editora L&PM, 2011.
FICHA TÉCNICA
É-DI-PO E JO-CAS-TA - Um Espetáculo-Ritual a Dionísio
Adaptação de "Édipo Rei" e "As Bacantes"
Elenco:
Ana Eliza e Edilene Barbosa (Jocasta)
Diego Pimentel e Rubens Leal (Édipo)
Everton Pereira, Jucca, Luiz Albuquerque, Taymari Leão e Yan Elmescany (Coro)
Pablo Loureiro (Rei Laio)
Leonardo Sousa (Destino)
Direção e Sonoplastia:
Breno Monteiro e Leonardo Sousa
Produção, Cenografia e Figurinos:
Breno Monteiro e Lauro Sousa
Iluminação:
Breno Monteiro
Adaptação do Texto:
Coletiva
Texto do Coro:
Lennon Bendelak
Dramaturgismo:
Edson Elias
Design Gráfico:
Lauro Sousa
Fotos:
Everton Pereira e Lauro Sousa
Vídeos:
Everton Pereira
Realização:
Espaço das Artes de Belém e NAVE (Núcleo Artístico de Vivências do Espaço)
Apoio:
Companhia Paraense de Potoqueiros
