Éguaaa da Ópera!

08/07/2026

Montagem: "Lá Serva Padrona – Uma Releitura Paraense"

XXV Festival de Ópera do Theatro da Paz

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Jaqueline Barbosa[1]

No último domingo do mês de Maio, às 19h, em uma noite nada chuvosa em Belém do Pará, cenário perfeito para assistir um bom espetáculo do XXV Festival de Ópera em um dos mais belos e icônicos teatro do norte, o Theatro da Paz, prestigiei a obra Ópera Lá Serva Padrona – uma releitura paraense.

Uma peça cantada no estilo ópera, com uma mistura de italiano com "português paraense", pois imagino eu pelas minhas experiências que alguém que não tenha o menor contato com as gírias paraenses com certeza precisaria de um "tradutor paraense", assim como muitos provavelmente precisaram da tradução do italiano para o português no telão acima do palco.

O espetáculo era composto por três personagens, Uberto, o patrão rico e solteirão, Serpina, a criada esperta e determinada a virar patroa e Vespone, criado mudo de Uberto e amigo/comparsa de Serpina. Na cenografia do palco uma obra de arte paraense que remete ao movimento arquitetônico "Raio que o parta" – símbolo do modernismo popular de Belém – no topo da porta central do cenário, há um detalhe triangular amarelo que remete diretamente ao desenho do raio, numa uma composição de cores e formas em tons pasteis e blocos vazados que remetem a década de 40. Ao lado esquerdo de quem assiste temos um banco estilo sofá de madeira com plantas amazônicas ao redor, como por exemplo a mais tradicional planta caladium, rosa por dentro e verde ao contorno da folha, e ao lado direito uma mesa quadrada com porcelanas típicas de uma mesa paraense.

O figurino de Uberto, composto por quatro peças nas cores púrpura, branco e detalhes dourado, cores que na época representava sinônimo de poder, riqueza, luxo e realeza. Juntamente com a peruca branca, que deixa claro que o personagem Uberto era "estribado". O figurino de Serpina, composto de um vestido godê de chita com estampa vermelha, uma manga bufante amarela e um avental branco, um salto boneca, um colar exagerado e uma touca preta na cabeça. Serpina merecia uma troca de figurino logo que se torna "Padrona", mas só fez tirar o avental e a touca da cabeça. O figurino de estampa floral que lembra arraia e artesanato permaneceu. O figurino de Vespone, um macacão de manga longa todo quadriculado, bota preta e um agasalho por cima do ombro, parecia estar de pijamão.

Mas algo me chamou atenção, a orquestra que fez tudo no tempo perfeito; e a maestra então? Era perceptível a entrega dela, os lábios se mexendo de acordo com a fala de cada personagem, e o figurino da moça? Simplesmente impecável, um blazer preto com brilhos, a calça com um detalhe de pregas ao lado sem miséria de tecido e um corte em evasê para aparecer de forma elegante um pouco das pernas, tinha um molejo, o brilho e a postura da maestra. Bravo de mais!

A ópera trouxe frases típicas paraenses em momentos estratégicos, que tirou risos sinceros do público que se identificou com toda certeza, tenho certeza porque sou paraense e reconheço um paraense!

Quando o público começou a ficar mufino o maravilhoso grupo de orquestra soltou um brega marcante, égua da sensação gostosa, finalizaram da melhor forma. Minha companhia que foi por pura espontânea obrigação de me acompanhar, pois imaginava que opera era algo chato e sonolento, teve seu primeiro contato, e acredita só? Ele amou, e me convidou por espontânea vontade para assistir o próximo espetáculo em cartaz. Então acredito que a releitura da opera para o estilo paraense conseguiu alcançar e tocar de forma lúdica o público, deixo aqui os meus parabéns!

Égua da ópera, Bravo!

Julho de 2026

[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;

Ficha Técnica:

La Serva Padrona: Uma Releitura Paraense

Elenco:

Serpina: Kézia Andrade (Soprano)

Uberto: Idaías Souto (Barítono)

Vespone: Vandiléia Foro (Atriz)

Direção Cênica e Dramaturgismo:

Ester Sá

Regência e Direção Musical:

Cibele Donza

Composição Original:

Cibele Donza (nova abertura e final)

Libreto:

Gennaro Maria Federico

Iluminação:

Felipe Tchaça

Preparação Corporal:

Jaoa de Mello

Preparador Corporal de Dança de Coco:

Aruam Galileu

Direção de Arte / Cenografia:

San Rodrigues, Victor Paula, Marina Janaina Avanzo,

Joana Ivy Szot, Antônio Marcus Loureiro e José Guilherme Gimenes

Música:

Orquestra: Orquestra FILMA - Mulheres

(Orquestra Filarmônica MultiArte da Amazônia) e musicistas da OSTP

Piano:

Marina Figueira

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