Entre a leveza e o reencontro: Uma leitura de “Clube de Final de Verão” a partir de Patrice Pavis
Montagem Teatral: Clube de Final de Verão
Montagem: Teatro Casa Produções Teatrais e Grupo Teatro de Apartamento
Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179
Karine Jansen[1]
Em Clube de Final de Verão, escrito e dirigido por Saulo Sisnando, a comédia aparece não apenas como gênero, mas como modo de observar as relações contemporâneas. O espetáculo parte de uma situação aparentemente simples: três amigas, afastadas pela velocidade e pelas exigências do cotidiano, mantêm um clube de leitura como compromisso para que o encontro ainda seja possível. Por trás da leveza, instala-se uma questão muito atual: como preservar o afeto, a amizade e a escuta quando a vida parece permanentemente ocupada?
Pensar o espetáculo a partir de Patrice Pavis e de suas reflexões sobre a encenação contemporânea permite compreender que o sentido da obra não está exclusivamente no texto dramático. Para Pavis, a encenação constitui uma organização de signos: atuação, espaço, objetos, luz, música, ritmo e deslocamentos constroem conjuntamente a experiência do espectador. O palco não funciona simplesmente como ilustração da dramaturgia; ele produz uma leitura própria do texto.
É justamente nessa relação entre dramaturgia e cena que Clube de Final de Verão encontra uma de suas maiores qualidades. Saulo Sisnando imprime à encenação um ritmo ágil, apoiado sobretudo na dinâmica das atrizes e na precisão dos diálogos. Há acidez, ironia e humor, mas esses elementos não afastam a humanidade das personagens. Ao contrário: o riso frequentemente nasce do reconhecimento. Rimos porque conhecemos aquelas ausências, aquelas pequenas crueldades entre amigos, as interrupções, as diferenças, os afetos mal expressos e a dificuldade de encontrar tempo para o outro.
Na perspectiva de Pavis, a atuação contemporânea também pode ser observada pela maneira como o ator articula presença, corporeidade, ritmo e relação com os demais elementos da cena. As intérpretes encontram no diálogo rápido uma musicalidade própria. Não se trata somente de dizer bem o texto, mas de construir uma partitura de escutas, pausas, ataques e reações. É nesse território que a comédia se sustenta.
Pauli Banhos demonstra uma presença particularmente segura. Sua atuação revela maturidade e domínio da cena, equilibrando comicidade e verdade sem transformar a personagem em caricatura. Há uma consciência do tempo da comédia, fundamental para que a palavra encontre sua potência, mas também uma disponibilidade para que pequenas mudanças de gesto, olhar e entonação revelem outras camadas da personagem.
Outro ponto de destaque é a personagem interpretada por Leoci Medeiros. Hilária, mas profundamente humana, ela funciona como uma espécie de costura dramatúrgica e cênica do espetáculo. Sua comicidade não surge como elemento exterior à narrativa. Ao contrário, sua presença reorganiza tensões, produz deslocamentos e estabelece uma comunicação imediata com o público. É justamente essa combinação entre exagero e reconhecimento que impede que o personagem se reduza ao efeito cômico.
Pavis nos lembra ainda que o espaço cênico participa diretamente da produção de sentido. A visualidade concebida por Flavio aposta em um cenário de matriz realista. Entretanto, esse realismo não aprisiona a encenação. As soluções encontradas para transformar e deslocar o lugar da ação permitem que o espaço mantenha mobilidade e participe do ritmo geral da montagem. O cenário estabelece inicialmente um território reconhecível, cotidiano, quase doméstico, para depois deixar-se reorganizar pelas necessidades da cena.
Essa escolha é particularmente interessante porque existe uma afinidade entre o espaço e o próprio tema do espetáculo. Se as personagens tentam encontrar brechas no cotidiano para permanecer juntas, a cenografia também encontra brechas dentro de uma estrutura aparentemente estável para produzir outros lugares. Assim, aquilo que poderia ser apenas decoração converte-se em mecanismo dramatúrgico.
A sonoplastia de César participa da mesma lógica. Em vez de funcionar como simples acompanhamento, estabelece passagens, sustenta a leveza e contribui para a agilidade da montagem. Na concepção pavisiana da encenação, o som constitui uma camada significante capaz de alterar a percepção do tempo e da atmosfera. Aqui, ele acompanha uma cena que não deseja pesar sobre suas questões, mesmo quando toca em temas como afastamento, solidão e dificuldade de comunicação.
Talvez esteja justamente aí uma das forças de Clube de Final de Verão: falar de algo melancólico sem abandonar a alegria. Há uma certa tristeza na premissa de três amigas precisarem criar um compromisso formal para conseguirem se encontrar. O clube de leitura é, ao mesmo tempo, celebração da amizade e sintoma de uma sociedade em que o encontro espontâneo parece cada vez mais difícil.
Sob esse aspecto, a comédia ganha uma dimensão política discreta. Não porque o espetáculo apresente um discurso político explícito, mas porque reivindica o direito ao encontro. Em meio à produtividade, às agendas, às obrigações e às inúmeras formas contemporâneas de dispersão, sentar-se diante do outro, conversar, discordar, rir e permanecer junto transforma-se quase em ato de resistência.
Patrice Pavis considera a encenação uma operação que coloca diferentes materiais em relação e oferece ao espectador uma determinada leitura do mundo. Em Clube de Final de Verão, esses materiais convergem para uma encenação que aposta na clareza, no ritmo e na comunicação. Texto, atuação, espaço e sonoridade parecem trabalhar na mesma direção: produzir proximidade.
O espetáculo traz, assim, um frescor importante para a cena da cidade. Não porque a comédia seja necessariamente leve ou descompromissada, mas porque nos lembra de que o riso também é uma forma de pensamento. Saímos acompanhados por uma questão aparentemente pequena, mas profundamente contemporânea: quanto esforço ainda estamos dispostos a fazer para não perder aqueles que amamos para a correria da vida?
Talvez o verdadeiro clube de Clube de Final de Verão não seja o da leitura. Seja o clube daqueles que, apesar de tudo, continuam inventando motivos para estar juntos.
Agosto de 2026
[1] Atriz, Performer e Professora de Teatro da UFPA;
Ficha Técnica:
Clube de Final de Verão
Elenco:
Fernanda Coiado, Leoci Medeiros (participação especial),
Mony Gester e Pauly Banhos
Texto e Direção:
Saulo Sisnando
Cenografia:
Flávio Ramos Moreira
Iluminação:
Matheus Caê
Sonoplastia:
Cesar Rocha
Coreografias:
Luiza Monteiro
Consultoria de figurinos:
Leonardo Pamplona
Comunicação Digital:
Gabriel Nunes
Produção executiva:
Saulo Sisnando e Flávio Ramos Moreira
Realização:
Teatro Casa Produções Teatrais
Grupo Teatro de Apartamento
