Estilhaços de Existências Silenciadas.
Experimento Cênico: Pistoia
Montagem: Os Mequetrefes
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Adriana Gilzy Rêgo Azevedo[1]
O fazer teatral frequentemente encontra nos espaços não convencionais o terreno fértil para alcançar seu ápice. É o que se observa na encenação do espetáculo Pistoia, realizado na Passagem Pedreirinha, no bairro do Guamá, um relevante território de resistência e agregação antiviolência por meio da arte popular, de suma importância para a cidade. E foi neste cenário tão emblemático que Pistoia se instalou, ressignificando uma garagem para transformar esse espaço de vivência urbana no universo complexo e sufocante das memórias do soldado Ulisses.
Ao adentrar o restrito espaço daquela garagem, o público é despido do cotidiano comum e conduzido a um mergulho total no universo íntimo e mental do protagonista. A cenografia minimalista, composta essencialmente por um beliche e poucos elementos cênicos, gera uma atmosfera ambígua que oscila entre a clausura asfixiante dos cenários de guerra e a grandeza subjetiva da memória do soldado. Essa compressão espacial atua como um gatilho cênico preciso: ao estreitar a distância entre o espectador e o ator, a direção transforma a aparente simplicidade técnica em uma complexa conexão e empatia.
A iluminação, operada de maneira crua através de uma única lanterna que varia de tonalidades para demarcar os deslocamentos geográficos e temporais dos relatos de Ulisses, costura-se de forma impecável à sonoplastia e à partitura corporal do ator. Nenhum elemento está ali em vão; cada componente visual e sonoro é uma escolha estética deliberada para materializar o desamparo e o horror das violências que Ulisses sofre.
Embora a narrativa de Pistoia se ambiente na Segunda Guerra Mundial, o espetáculo evoca fraturas geopolíticas intensamente contemporâneas. A montagem joga luz sobre as engrenagens do imperialismo, expondo a forma negligente como as grandes potências historicamente enxergam e descartam os corpos latinos, periféricos, nortistas e negros. A obra pontua com precisão o cenário político, utilizando a própria ambientação da época, como a presença do rádio, para reconstruir a atmosfera de controle e propaganda que impulsionou o alistamento desses sujeitos.
É nessa encruzilhada política que a peça realiza seu salto dialético mais pungente, materializando-se na relação direta entre o ator e o público. Longe de ser um mero recurso interativo, a quebra da quarta parede e as provocações feitas aos espectadores dentro daquele espaço confinado funcionam como um grande dispositivo de partilha da dor. Ao convidar o público a interagir, a direção faz com que a plateia deixe de ser testemunha passiva e passe a carregar, coletivamente, o peso do trauma de Ulisses. Essa conexão estabelecida atinge uma dimensão sufocante, tornando impossível desviar os olhos: o espectador ri, chora, sente raiva e revolta junto com o protagonista. Essas interações viscerais guiam o público até um desfecho avassalador, operando como um arrancar de véus e rasgando o silenciamento histórico para dar visibilidade a corpos que a historiografia oficial tentou apagar. Através do corpo do ator que pulsa e sofre a poucos centímetros de distância, Pistoia resgata essa memória deliberadamente silenciada, fazendo com que o espectador vivencie na pele as contradições e os horrores de uma guerra que também é nossa.
Tamanha profundidade estética e política é fruto do rigor e do esforço de pesquisa do grupo Os Mequetrefes. O grupo demonstra que a periferia e a ancestralidade não são apenas temas, mas sim as próprias lentes pelas quais se reconstrói a história. Pistoia consolida-se, portanto, como uma montagem urgente e indispensável, provando que o teatro popular e politizado é capaz de transformar uma garagem em um quilombo de memória, afeto e insubmissão histórica.
Julho de 2026
[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;
Ficha Técnica:
Pistoia
Os Mequetrefes
Elenco:
Lucas Bereco – Ulisses
Direção:
Priscilla Rosa
Dramaturgia:
Lucas Bereco
Cenografia:
Manu Castro
Diretor de Sonoplastia:
Tonho Lobato
Assistente de Produção e Filmmaker:
Yas Laranjas
