Grande Sertão: Veredas - Força Coletiva em Cena (Parte 2) – Por Elcio Lima
Montagem: Grande Sertão: Veredas
Mostra Cênica dos Cursos Técnicos da ETDUFPA
Tribuna do Cretino - Vol.02 - N°02 - 2026 / ISSN 3086-1179
Elcio Lima Corrêa[1]
A apresentação de Grande Sertão: Veredas, com direção de Karine Jansen e Larissa Latif, realizada em 6 de março na Praça Amazonas, ao lado do Espaço São José Liberto, inspira esta segunda leitura crítica. Trata-se da continuidade de uma reflexão iniciada anteriormente na revista eletrônica Tribuna do Cretino, na qual a primeira análise privilegiou aspectos interpretativos, reflexões sobre a natureza humana sob perspectiva filosófica e alguns elementos da composição visual da cena. Nesta nova abordagem, o olhar se dirige ao núcleo dramático relacionado ao bando de Hermógenes, evidenciando como a construção das personagens adquire outra densidade quando observada por esse prisma.
A escolha de dividir a narrativa em duas perspectivas revela-se instigante. Em vez de uma leitura linear, a encenação propõe um jogo de focalizações que remete à própria complexidade das experiências humanas, nas quais cada acontecimento pode ser interpretado de modos distintos. Nesse recorte, a presença de Riobaldo e Diadorim ganha novos contornos ao ser confrontada com a violência e a astúcia do grupo rival. As figuras do bando não aparecem apenas como antagonistas funcionais; gestos, entonações e deslocamentos revelam temperamentos variados, ampliando o clima de tensão. Ao mesmo tempo, a apresentação em espaço aberto impõe desafios particulares. Em uma praça pública, onde ruídos e circulação de pessoas disputam atenção com a ação dramática, a expressividade precisa ser ampliada sem perder precisão. Projeção vocal, gestualidade mais marcada e ritmo cênico bem definido tornam-se fundamentais para manter o interesse coletivo.
A noite belenense pareceu colaborar com o encontro. Após dias de chuvas constantes, o céu concedeu uma pausa providencial, permitindo que a apresentação ocorresse sem interrupções. A brisa leve e a temperatura amena criaram um ambiente favorável para que o público permanecesse reunido ao redor da ação, algo particularmente significativo em uma cidade onde o regime de chuvas frequentemente redefine os planos do cotidiano.
Esse contexto reforçou o caráter de teatro de rua assumido pela montagem. Ao ocupar a praça, o espetáculo ultrapassou o limite do público previamente identificado pelas pulseiras e passou a interferir diretamente no fluxo urbano. Pessoas que transitavam pelo local aproximavam-se gradualmente, atraídas pela movimentação e pelo magnetismo da narrativa. Algumas permaneciam apenas alguns minutos; outras acompanhavam toda a apresentação, integrando-se à plateia improvisada. Adultos e crianças assistiram por quase uma hora, de pé e atentos, à travessia de Riobaldo e Diadorim e aos embates com o temido Hermógenes. Essa adesão espontânea reafirma uma das forças mais potentes do teatro em espaços públicos, a capacidade de interromper a rotina da cidade e instaurar, ainda que por instantes, uma comunidade reunida pela experiência compartilhada da cena.
Na montagem, as figuras de Grande Sertão: Veredas não se organizam em um simples tabuleiro de heróis e vilões. Elas se movem dentro de um campo moral instável, no qual escolhas e circunstâncias revelam as fissuras da própria condição humana. As observações a seguir recaem sobre Hermógenes, Joca Ramiro, Zé Bebelo, Riobaldo e Diadorim, por constituírem pontos decisivos de tensão na trama.
O temido Hermógenes, vivido por Priscila Rosa, encarna a brutalidade que emerge quando a violência se transforma em método de poder. Na encenação, a crueldade associada à personagem torna-se evidente. Cada entrada em cena carrega uma sensação de ameaça permanente, como se o ambiente fosse contaminado pela simples presença daquele que governa pelo medo. Há, contudo, uma linha delicada entre a atuação intensa do ser humano cruel e o arremedo de vilão. Em alguns momentos, as escolhas de Priscila Rosa aproximam-se desse limite, especialmente pelo uso acentuado de expressões faciais e corporais que buscam sublinhar o caráter ameaçador da figura.
A energia empregada pela atriz revela empenho claro em construir uma presença dominante, capaz de instaurar tensão no espaço cênico. Ainda assim, para uma abordagem mais naturalista, talvez fosse interessante considerar a possibilidade de reduzir certos excessos, permitindo que a violência do personagem também se manifeste por meio de silêncios, pausas e gestos mais contidos. Apesar dessa observação, permanece evidente a dedicação da intérprete ao papel, algo que se confirma na reação do público. Não foram poucos os espectadores que demonstraram espanto diante da intensidade apresentada em cena, sinal de que o impacto provocado por sua composição não passou despercebido.
Em contraste, Joca Ramiro, defendido por Sofia Alvarez, surge como liderança respeitada por uma ética que ainda preserva certa ideia de honra dentro do universo brutal da obra. Sofia assume o desafio de interpretar uma figura masculina com sobriedade, evitando exageros corporais ou vocais e construindo uma presença firme e convincente. Essa escolha torna ainda mais comovente o momento em que o destino pesa sobre a personagem, despertando empatia na plateia.
Já Zé Bebelo, interpretado por Matheus Martins, transita nesse território ambíguo de político, estrategista e orador. O ator encontra na composição vocal um recurso preciso. A voz surge firme, articulada e persuasiva, capaz de separar claramente sua pessoa da personagem. Há nela um tom que mistura cinismo e coragem, qualidades típicas de quem maneja a palavra como arma na luta pela própria existência, tornando verossímil essa figura que tenta reorganizar o caos por meio do discurso e da astúcia.
Nesse campo de forças, Riobaldo e Diadorim, vividos respectivamente por Lucas Bereco e Luís Carlos, funcionam como eixos de sensibilidade e conflito. No centro da narrativa, Bereco conduz o fio que costura acontecimentos e memórias que estruturam a trama. Sua interpretação aposta em uma fragilidade perceptível sobretudo no olhar, como se o personagem estivesse constantemente atravessado por dúvidas e reminiscências. Trata-se de uma escolha que contrasta com outra encarnação da figura vista no Casarão do Boneco, com Gabriel Anjos, onde a presença assumia contornos distintos. Ao seu lado, Luís Carlos cumpre com competência o que lhe é proposto em cena. Ainda assim, permanece a dúvida se foi a escolha mais acertada, não por falta de capacidade, já comprovada, mas pelas complexidades do segredo que o personagem carrega e que só se revela plenamente no desfecho da história. De todo modo, a interação entre os dois intérpretes produz novas nuances para uma relação que, dentro da própria obra, já se apresenta como suspeita e um tanto estranha aos olhos do bando, reforçando o caráter ambíguo e inquietante do vínculo entre as duas figuras.
Os demais integrantes surgem como ponto de apoio coerente e dedicado à engrenagem narrativa, sustentando o ambiente coletivo do bando e contribuindo para que a cena se manifeste com vitalidade. Há empenho visível na construção dessas presenças, que ajudam a dar corpo ao sertão povoado por jagunços, alianças frágeis e tensões constantes. Entretanto, essa dimensão sombria constitui também uma armadilha recorrente para a atuação. Personagens moldadas a partir de traços extremos como violência, brutalidade e tirania correm o risco de se apoiar em signos demasiado evidentes. Nesse sentido, a reflexão sobre as chamadas máscaras de atuação, mencionadas por Constantin Stanislavski, torna-se pertinente. Quando determinados códigos expressivos são reiterados em excesso, o intérprete pode recorrer a um repertório gestual que, embora eficaz para comunicar rapidamente a intenção dramática, por vezes resvala na caricatura. Paradoxalmente, muitas vezes é justamente a economia expressiva que torna a ameaça ainda mais perturbadora. Trata-se de um desafio frequente em obras de grande intensidade dramática, encontrar o equilíbrio entre potência expressiva e contenção que permita à personagem respirar para além do estereótipo.
Ao observar essas figuras em conjunto, torna-se inevitável perceber ecos da política contemporânea. O sertão rosiano parece antecipar um mundo em que projetos de poder convivem com discursos moralizantes, alianças instáveis e lideranças que oscilam entre carisma e autoritarismo. A obra de João Guimarães Rosa permanece atual justamente por desnudar fragilidades humanas como a sede de poder, a necessidade de pertencimento, o desejo de justiça e a permanente batalha entre consciência e conveniência que atravessa tanto o sertão literário quanto os cenários políticos de hoje.
Ao final, destaca-se a entrega do elenco, que sustenta a montagem com dedicação visível e compromisso artístico. Considerando as adversidades de naturezas múltiplas que atravessam qualquer processo criativo, especialmente em contextos de formação, o resultado revela um grupo que busca compreender a importância do trabalho coletivo, do apoio mútuo e da responsabilidade compartilhada na construção da cena. Há, em diversos momentos, a sensação de que cada intérprete sustenta o outro, criando uma rede de presença e confiança que fortalece o conjunto.
Essa postura também evidencia algo fundamental: ser ator ou atriz não se resume a aplausos ou à ideia sedutora de glamour associada ao palco. Trata-se de um ofício que exige estudo, disciplina, escuta e seriedade diante do processo. O empenho percebido na cena indica um grupo disposto a trilhar esse caminho com respeito à arte que escolheu praticar. Por isso, todos os envolvidos nas dimensões criativa e técnica merecem reconhecimento pelo trabalho apresentado, com destaque para os figurinistas e para a cenógrafa, cujas contribuições ajudaram a construir um universo visual consistente e sensível, essencial para sustentar a atmosfera do espetáculo.
[1] Elcio Lima Corrêa é diretor do Grupo Presságio, figurinista e Professor licenciado em Teatro; também colabora com o Projeto de Pesquisa O Clown Nosso de Cada Dia e com o Projeto de Extensão Tribuna do Cretino.
Ficha Técnica
Grande Sertão: Veredas
Da obra de João Guimarães Rosa
Elenco:
Bando de Diadorim
Ally, Gabriel Anjos, Inngryday Cristiny, Pedro Bolseiro, Laiza Bonifácio,
Josué Pantoja, Carolina Moref, Diego Pimentel, Ryuu, Will, Faísca,
Kadu Chaves, Yrochi e Jonata Navegantes
Bando de Hermógenes
Priscilla Rosa, Lucas Bereco, Luis Carlos, Sofia Alvarez, Matheus Martins,
Cibele Maciel, Caroline Vitória, Lennon Bendelak, Mayara Souza,
Maya Rodrigues, Wanderson Moraes, Samantha Pacheco,
Direção:
Karine Jansen e Larissa Latif
Assistência de Direção:
Danielle Cascaes
Preparação de Elenco:
Lennon Bendelak
Dramaturgismo:
Lennon Bendelak, Danielle Cascaes, Karine Jansen e Larissa Latif
Coordenação de Figurino:
Ézia Neves
Figurinistas:
Fabrício Ribeiro e Sávio Serrão
Assistentes de Figurino:
Adriana Martins, Sidyany Christiny, Vitória Costa e Joane Parente
Orientação de Maquiagem Cênica:
Micheline Penafort
Coordenação de
Cenografia:
Paulo Ricardo Nascimento
Cenógrafa:
Manu Castro
Assistentes de Cenografia:
Gigi Cosplay e Pedro Radhe
Coordenação de Iluminação:
Iara Souza
Sonoplastia:
Suellen Calábria e Shislene Alves
Contrarregragem:
Rayana Casanova, Rosilene e Nathália
Mídia Digital:
Danielle Cascaes, Gabriel Anjos, Kadu Chaves, Luis Carlos e Matheus Martins
Apoio:
Casarão do Boneco
