Grande Sertão: Veredas – Os dois lados da mesma moeda (Lado A) - Por Hugo Corrêa

04/03/2026

Montagem: Grande Sertão: Veredas

Mostra Cênica dos Cursos Técnicos da ETDUFPA

Tribuna do Cretino - Vol.02-N°02-2026 / ISSN 3086-1179

Hugo Corrêa[1]

Vindo de uma literatura nacional clássica de João Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas" (1956), romance do modernismo, que conta uma história narrada por Riobaldo, trazendo suas vivências e reflexões profundas, de aventuras e conflitos externos e internos vivendo como ex-jagunço através de um monólogo. A obra foi a escolha da vez para a finalização da disciplina Prática de Montagem dos cursos técnicos em Teatro, Figurino e Cenografia da UFPA.

As professoras e diretoras Karine Jansen e Larissa Latif, foram assertivas, ao dividir o elenco em dois bandos, que aqui vos apresento como, "Lado A" - Bando de Hermógenes e "Lado B" - Bando de Diadorim, como um disco de vinil, que ao trocar de lado, você tem a oportunidade de ouvir músicas com um contraste diferente dentro de uma mesma obra, coisa que deixo um breve comentário mais a frente. A ideia que vai para além de dividir o elenco não por sessões, mas sim por lados diferentes de uma mesma história, em uma mesma sessão, me intriga de modo fascinante, não apenas por ser uma ideia ousada, mas por trazer espaços, sons, temperaturas e estrutura cenográficas totalmente diferentes, do meu ponto de vista como espectador do Lado A.

A sessão assistida no dia 27/02/2026, na Praça Amazonas, às 19 horas parte de um mesmo ponto de encontro final, o Casarão do Boneco. A ideia do bando do Hermógenes sair do Casarão rumo a praça guiando a plateia como uma retirada silenciosa é instigante, devemos seguir o bando ou não? O espetáculo já começou ou estamos apenas sendo levados pelo instinto natural de espectador? As caras fechadas, os corpos enrijecidos indicam que ali já vemos os nossos anfitriões deste conflito. Armas nos ombros, trajes característicos de sertanejos, maquiagem borrada, como se estivessem na labuta atras de suas sobrevivências, enriquecem o espetáculo, trabalho esse muito bem-feito pelos alunos figurinistas Fabio Ribeiro e Savio Serrão sendo direcionados pela professora Ézia Neves e que conectam de forma clara o ambiente vivido.

Ao chegar no espaço cênico, somos surpreendidos pelo meio urbano com interferências de luzes de carros, poste e outros locais ali presente, mas que nada interferem na escolha de espaço, com chão batido poucas árvores, mas suficientes para dar a ideia de "terra de retirantes", iluminação baixa que criou todo um aspecto desértico, apenas com dois painéis que de cara identificamos que seriam casas sertanejas, mas que não ficariam ali por muito tempo, já que o espetáculo se passa durante um caminho que é guiado por Riobaldo, tudo isso em um formato de palco de semi-arena.

A quebra do envolvimento do espetáculo se dá quando nos encontramos dentro de todo aquele ambiente criado, e os atores zeram o corpo que já haviam trazido desde o ponto de partida, para enfim dá início as cenas, que se foi combinado ou não com São Pedro, favoreceu muito a entrada de Riobaldo. O ator Lucas Bereco, intérprete do personagem, mostra um trabalho cênico muito forte, onde ele nos passa a sensação de estar a dias nessa jornada, técnica essa que é muito presente no Sistema Stanislavski, onde o atuante vive as circunstâncias do personagem, visto que foi o principal teórico estudado pelos atuantes; outro exemplo claro é da atriz Priscilla Rosa, que deu vida ao jagunço sanguinário Hermógenes. A força que ela traz para cena onde Hermógenes é atingido por um tiro do rival Zé Bebelo (Matheus Martins), o sentimento de dor, a agonia do arrancar de uma bala da própria perna com seu principal braço direito, uma faca que ele carrega enrolada em um pano ensanguentado com o sangue dos seus inimigos, foi algo de levar o espectador a se perguntar, "ate onde vai a força da revolta de um homem?". A quebra da quarta parede está presente em boa parte do espetáculo, sempre com a intenção de instigar e convencer quem assiste a ver que aquele é o lado certo da história.

A busca de Hermógenes de ter uma aprovação de Joca Ramiro (Sofia Alvarez), para assim dar continuidade ao seu plano de vingança contra Zé Bebelo, cria um arco dentro da cena em que vejo, o trabalho de corpo, a expressão cênica de Priscilla, levar o personagem ao extremo sem precisar dar uma única palavra: ao ver que tudo está fugindo do seu controle, ele toma a decisão de acabar de uma vez com seu opressor, Joca Ramiro. As questões de opressor e oprimido se fazem presente dentro do ciclo dos três personagens, Zé Bebelo o que tem o poder do sistema que oprime o modo de vida de Hermógenes, assim como Joca Ramiro que tem o domínio do bando no qual antes de seu fatídico fim, oprime o desejo de vingança de Hermógenes. O desejo do oprimido de se tornar o opressor cresce em cena, assim como o envolver da trama cresce cada vez mais no espectador, que chega curioso para entender o que é que está quebrando a rotina de uma praça pouco frequentada por espetáculos.

O sentimento criado em cena, vai para além de dor e agonia, em pequenos espaços na trama, vemos o desenvolver de um amor oprimido, sufocado pelas guerrilhas dos sertanejos, onde dois homens têm a troca de gestos simples de carinho e cuidado, mas que contem muita verdade cênica, que vende para o espectador o romance vivido entre Riobaldo e Diadorim diante de tanto sangue derramado. Os atores Lucas Bereco e Luís Carlos, tem em cena um diamante bruto que é lapidado através do trabalho de corpo e vivências emocionais e sensoriais, que são aprofundadas de maneira extraordinária nos métodos de Stanislavski. O olhar, o toque a respiração viva dos personagens nos fazem entender o sistema que os faz oprimir o sentimento criado.

Mas todo o envolvimento cênico criado com o espectador é quebrado de forma muito abrupta, no retorno para o Casarão para o enfrentamento final do Lado A contra o Lado B, onde o bando parte em retirada ao encontro dos rivais, entoando cantos de ataque que está muito presente de forma firme, como a grande costura de cenas. O espectador é afastado do bando, fazendo assim perder a força criada durante as cenas na praça, atuante e espectador como um único Bando de Retirantes, para o enfrentamento final. Algo que aconteceu com o Lado B do espetáculo também, visto que no enfrentamento, o que poderia ser um grande agregado de "espectadores atuantes" como parte de ambos os bandos, são deixados de fora o que faz perde a força de uma grande sacada que poderia ser utilizada no espetáculo, para convencer ou não de que lado ficar.

Parabenizo as diretoras pela ousadia de organizar cenicamente um espetáculo em dois ambientes diferentes ao mesmo tempo, instigando o espectador a escolher ou não um lado da história. Aos atores que tiveram uma pesquisa aprofundada no ambiente vivido, as técnicas corporais, vocais e de atuação postas em cena. Um clássico da literatura nacional visto de um outro ponto de vista, deve ser celebrado.

Grande Sertão: Veredas continua com sessões únicas de quinta a domingo, no Casarão do Boneco com o Bando de Diadorim e na Praça Amazonas com o Bando de Hermógenes.

04 de março de 2026

[1] Graduando do Curso de Licenciatura em Teatro UFPA;

Ficha Técnica

Grande Sertão: Veredas

Da obra de João Guimarães Rosa

Elenco:

Bando de Diadorim

Ally, Gabriel Anjos, Inngryday Cristiny, Pedro Bolseiro, Laiza Bonifácio,

Josué Pantoja, Carolina Moref, Diego Pimentel, Ryuu, Will, Faísca,

Kadu Chaves, Yrochi e Jonata Navegantes

Bando de Hermógenes

Priscilla Rosa, Lucas Bereco, Luis Carlos, Sofia Alvarez, Matheus Martins,

Cibele Maciel, Caroline Vitória, Lennon Bendelak, Mayara Souza,

Maya Rodrigues, Wanderson Moraes, Samantha Pacheco,

Direção:

Karine Jansen e Larissa Latif

Assistência de Direção:

Danielle Cascaes

Preparação de Elenco:

Lennon Bendelak

Dramaturgismo:

Lennon Bendelak, Danielle Cascaes, Karine Jansen e Larissa Latif

Coordenação de Figurino:
Ézia Neves

Figurinistas:
Fabrício Ribeiro e Sávio Serrão

Assistentes de Figurino:
Adriana Martins, Sidyany Christiny, Vitória Costa e Joane Parente
Orientação de Maquiagem Cênica:

Micheline Penafort

Coordenação de Cenografia:
Paulo Ricardo Nascimento
Cenógrafa:
Manu Castro
Assistentes de Cenografia:
Gigi Cosplay e Pedro Radhe
Coordenação de Iluminação:

Iara Souza

Sonoplastia:

Suellen Calábria e Shislene Alves

Contrarregragem:

Rayana Casanova, Rosilene e Nathália

Mídia Digital:

Danielle Cascaes, Gabriel Anjos, Kadu Chaves, Luis Carlos e Matheus Martins

Apoio:

Casarão do Boneco