Guimarães e Rosas no Chuvoso Sertão Belenense – Por Edson Fernando

09/03/2026

Montagem: Grande Sertão: Veredas

Mostra Cênica dos Cursos Técnicos da ETDUFPA

Tribuna do Cretino - Vol.02 - N°02 - 2026 / ISSN 3086-1179

Edson Fernando[1]

Em Belém

Ou

Chove todo dia

Ou

Chove o dia todo

O dito popular sobre a cidade das mangueiras – será que ainda podemos chamá-la assim? – guarda a sabedoria de um povo acostumado a ver o céu carregado de nuvens escuras, resiliente – até de mais pro meu gosto – diante dos estragos provocados a cada novo toró que desagua sobre a cidade e desesperançoso com as autoridades públicas que deveriam zelar pelo bem-estar do município.

É bem verdade que nas duas últimas décadas o clima no planeta Terra tem sofrido mudanças consideráveis e provocado crises ambientais devastadoras por todo o globo. Em Belém, por exemplo, a então famosa "chuva da tarde" já não é tão previsível assim e, nos últimos anos, não raro são os períodos de estiagem prolongadas na região. Segundo o estudo realizado em 2023 pela ONG CarbonPlan, em parceria com o Jornal The Washington Post, existe uma projeção indicando que até o ano de 2050, Belém sofrerá 222 dias de calor extremo contra os 50 dias anuais que sofria no início do século XXI.

Ponderações climáticas a parte os meses de janeiro, fevereiro, março e abril continuam compondo a estação mais chuvosa da região: o inverno amazônico. E, particularmente, nesse fevereiro de 2026, ele tem se apresentado de modo bastante imponente, com chuvas que fazem valer todas os versos do dito popular, isto é, tem chovido todo dia e quase sempre o dia inteiro.

É nesse contexto que o Sr. Guimarães Rosa aportou em nossa terrinha molhada, desde o último dia 26 de fevereiro, trazendo na bagagem uma de suas obras de maior envergadura, isto é, o romance "Grande Sertão: Veredas". E os responsáveis por trazer o mineirinho à nossa cidade foram todos os professores e estudantes dos cursos técnicos de Teatro, Cenografia e Figurino da ETDUFPA envolvidos na montagem teatral de mesmo nome do romance.

A recepção inicial ao "demiurgo do sertão", no entanto, não foi nada calorosa. Pelo contrário, o céu se encheu de nuvens pesadas que insistiram em não ceder lugar ao sol, talvez por considerarem que aqueles personagens vindos do universo rosiano já tenham sofrido muito com o clima semiárido do sertão. "– Já é hora de lhes dar um refresco!!!", talvez tenha pensado o Pedroca do alto de suas nuvens tempestuosas, girando as chaves dos portões do céu e mandando liberar geral as turbinas pluviométricas bem em cima da Santa Maria de Belém do Grão Pará. E assim foi e tem sido nos últimos dias de fevereiro e início de março, para meu desespero, pois meu encontro com Guimarães tem sido adiado a cada nova rodada de prolongadas chuvas que lavam e alagam a metrópole da Amazônia – será que ainda somos?

Primeira Tentativa.

O dia havia amanhecido do jeito que faz um bom paraense se embrulhar todinho, da cabeça aos pés, e desejar nem sair da rede. Mas ainda era sexta-feira, 27 de fevereiro, e não nasci com posses o suficiente para me dar esse privilégio. Acordei, levantei da cama, olhei pela janela da sala e só o que via no horizonte era o céu carregado de nuvens espessas e aquele chuvisco preguiçoso molhando os telhados e o asfalto da rua. Pensei: "– Hoje promete ser um dia daqueles!". E foi. Aquele chuvisco vagabundo, indo e vindo o dia inteiro, sem deixar o sol testemunhar a favor do sertão. Por volta das 18h a situação se mantinha quase inalterada. Mas, eu mantive a esperança – e a ilusão – de que aquilo no céu fosse apenas uma nuvem e que mais cedo ou mais tarde iria passar. 19h e ela não passou. Inquieto, fiz contato com um jagunço conhecido que me garantiu que as coronéis – ou coronelas – eram arretadas demais, não eram tapioca e que não arredariam o pé do Casarão e da Praça Amazonas. Isso me encorajou. Empunhei minha sombrinha nova e bati em retirada até a zona de conflito. Chego ao destino por volta das 20h e o céu agora se avermelhava como quem prevê confronto sangrento entre bandos adversários. Mais alguns minutos – talvez quinze – e me fora liberada a trilha do bando de Diadorim. Curiosamente, no entanto, o anúncio do início da jornada e a indicação do caminho não são feitos por ninguém do bando, mas sim por uma jovem simpática que veste uma blusa em homenagem ao Sr. Guimarães. Isso imediatamente já me provoca as ideias: "– Uai!!! Cadê o povo do bando? Quero ir com um nativo do sertão?" – o "uai" é meu mineirês em homenagem ao Guimarães. E não me levam a mal, a pequena que nos guia faz seu trabalho direitinho sendo atenciosa, educada e prestativa naquilo que lhe cabe. Mas se embrenhar nessas trilhas cheias de jagunços me faz pensar que estaria mais seguro sendo levado por um deles, afinal, vá que eles me estranhem, me confundam com alguém de uma bando adversário e resolvam puxar a peixeira ou apontar a pistola na minha direção. Só comigo exclamo: "– Cruzes! Dionisio me livre!". Mesmo com essas caraminholas na cabeça não me resta alternativa a não ser juntar-me aos demais e seguir em silêncio pelo caminho da mata semifechada. A pequena caminhada é tão parcimoniosa que é possível ouvir os insistentes e finos pingos de chuva que se chocam contra as folhas das árvores e das sobrinhas abertas, as mesmas que bloqueiam a minha visão dos primeiros amigos de Guimarães que surgem. Eu os ouço, mas não os vejo. Talvez uma fatalidade por conta do clima amazônico e/ou da minha posição na caminhada. Inevitavelmente penso: "– O que dizem é mais importante do que a ação?". Outro pensamento ainda mais intrusivo me atravessa: "– Não há rosas sem espinhos". Na verdade, até existe, mas pra mim considero uma "rosa nutella"; a "rosa raiz" é aquela que porta com orgulho todos os seus espinhos, contrastando com as cores vivas e a delicadeza de suas pétalas. Então, sigo a caminhada e aceito esses primeiros espinhos com a esperança de fruir as pétalas, mais cedo ou mais tarde. Antes de chegar ao local do acampamento do bando, outra breve parada para que o sr. Riobaldo peça abrigo para seu descanso, suponho. Desta vez os espinhos ficam nas mãos de outros parceiros de caminhada, pois consigo ficar bem de frente pros jagunços e testemunhar a conversa que se desenrola ali. Numa fração de segundos outro pensamento me assalta: "–Por que os jagunços fingem não me ver? Por que ignoram todos nós que chegamos para conhecer seu território e história?" Não há tempo para respostas ou conclusões preliminares, pois logo seguimos para a clareira mais adiante, finalmente chegamos no acampamento do bando. Sento no local mais próximo. O chuvisco persiste. Todos àqueles que se juntaram na caminhada se abrigam embaixo de suas sombrinhas e se protegem da água que cai fininha. Quer dizer, todos menos os jagunços. O contrataste da chuva desaguando fininha naqueles homens vestidos com seus trajes que evocam sua tradição – calças, camisas de botão, botas, chapéus, coletes, lenços, cinturões, cantis, coldres etc. – me faz brilhar os olhos e fertiliza as ideais: "– O sertão se apropriando da chuva. A chuva fecundando o sertão! Os jagunços banhados pela chuva. A chuva arrefecendo a penúria do sertão. Os jagunços entoando odes a chuva. A chuva alegrando a alma do sertão." Infelizmente essas pétalas de "rosa raiz" que me invadiram são logo expulsas da mente pela própria chuva que resolve ganhar maior protagonismo naquela noite e se colocar como espinho doloroso na pele dos homens do sertão. A coronel – ou coronela –, sentada ao meu lado, interrompe a ação exatamente em função da chuva que agora caia com um pouquinho maior de vazão. Mas não antes de todos sairmos dali e buscarmos abrigo no Casarão a dúvida, a frustação e certa irritabilidade me dominam os pensamentos: "– Hei maninhos, ces são tapioca é?! Nem tá muito grossa! Uma capa de chuva transparente por cima desse traje todo resolve a questão! Ou uma lona plantada ali como extensão do acampamento podia dar abrigo pra todo mundo. Voltem aqui. Não vai engrossar mais que isso. Cacete, ninguém pensou nisso!? NÃO DESPERDICEM A METÁFORA DO SERTÃO COM A CHUVAAAAAAAAAAAAAAA...". Teve jeito não. Voltei pra casa com essa sensação agridoce.

Segunda Tentativa.

Havia outros encontros marcados para acontecer nos dias seguintes. O do sábado, porém, foi logo cancelado ainda no meio da tarde. E o motivo não poderia ser outro: CHUVA.

Terceira Tentativa e Quarta Tentativas.

Houve novo encontro marcado para o domingo, mas nesse não pude comparecer em virtude de compromisso pessoal altamente justificável: níver do Amor. E adivinhem: NESSE DIA NÃO CHOVEU!!! Internamente comemorei pela oportunidade que os demais tiveram de conferir o encontro com o Sr. Guimarães. Mas no fundo também pensei: "– Égua!! Só porque não posso ir hoje! Hum!". Minha próxima oportunidade só se daria na quinta-feira seguinte. E adivinhem: CHOVEU PARA UM CARALEO. Novo cancelamento. Disparei: "– Porra São Pedro!!! É muita falta de sacanagem tua!!!". E, então, só consegui me reencontrar com o bando da Diadorim na sexta-feira, uma semana depois do primeiro encontro. E no dia seguinte retornei para acompanhar o bando do Hermógenes com sucesso, mas não sem susto, pois por volta das 19h começou a vazar aquele chuvisquinho maroto molha besta; aguardei até às 19:30h para fazer contato com o jagunço conhecido que me demorou a responder. Resolvi arriscar e chamar o Uber. Confirmei a chamada e ele o jagunço me responde laconicamente: "– Não cancelaram". No desespero, cancelo o Uber e só depois me dou conta de que a frase está sem vírgula entre as palavras. "– Putaquepareo!!". Faço outra solicitação de carro e finalmente me coloco a caminho para encontrar o outro bando. Então, é sobre esses dois encontros que falarei; e das rosas e dos espinhos que neles colhi.

ROSAS E ESPINHOS.

Com o Bando de Diadorim

Me preparo para reencontrar com o bando de Diadorim. O dia amanhece com sol e até coloco as roupas no varal da janela de fora de casa. Tudo transcorre bem. Me encaminho para a minha sesta diária com a sensação de que tudo dará certo naquela noite. Estico um pouco o cochilo até às 15h. Levanto, olho distraidamente pela janela e o céu aparentemente ainda se mantém sem ameaças a vista. Vou para minha mesa de trabalho e fico por lá dando conta das demandas acadêmicas. Me perco nas tarefas e por volta das 17h o Pedroca resolve pintar o céu de cor escura novamente. Exclamo incrédulo: "– NÉPOSSIVER!!! TEM ALGUÉM PEIDANDO NA FAROFA!!! ÉGUAAAA!!!". O céu desagua novamente sobre a cidade com doses de ventos fortes e trovoadas. Eu já me fazia resignado diante das estripulias do safado do Pedroca quando por volta das 18:30h as nuvens cedem algum lugar pro céu estrelado. Fiz novamente contato com o jagunço conhecido que me confirmou o encontro. Suspirei: "– Ufa! Agora vai!"

Cheguei um pouco mais cedo, encontrei amigos, conversei e me distraí até que o reencontro começasse. No fundo mantinha a esperança de que os espinhos já encontrados na primeira tentativa fossem acidentes de percurso e que as pétalas de rosa pudessem ganhar mais destaque. Hora de recomeçar. O bando de Hermógenes passa a minha frente e se dirige para seu acampamento na Praça Amazonas. Passam calados, em fila indiana, alguns com as carabinas empunhadas, outros mais descontraídos. A mesma jovem simpática se apresenta para nos guiar no sentido inverso a direção do bando de Hermógenes. Sigo atrás dela e novamente percorro aquele corredor entre o Casarão e a mata semiaberta. As folhas ainda estão molhadas, resquício do toró do final da tarde. Desta vez consigo ver a primeira ação que se desenrola bem a minha frente com o primeiro encontro de Riobaldo e Diadorim. Penso: "– Esse espinho não está mais em minha mão". O mesmo, talvez, não possa ser dito de quem ficou bem atrás na caminhada, pois se viu numa posição desfavorável para observar o que agora tive o privilégio de ver de frente. Os jagunços, porém, seguem me ignorando e agem como se estivessem protegidos por paredes invisíveis. Minha cabeça vai matutando novamente: "– Ora, por qual motivo resolvem fazer o cálculo do lugar olhado numa perspectiva experimental de espaço se vão manter uma relação convencional/tradicional com os observadores e com o próprio espaço?" É dessa matutação mental que realmente me dou conta da minha condição diante dos acontecimentos que se desenrolam: "– Ah, sou apenas um observador". Logo eu que tenho sonhos grandiosos todas as vezes que me convocam para olhar as coisas de modo experimental. Exemplo disso é que quando os rumores da visita do Sr. Guimarães chegaram aos meus ouvidos e anunciavam a possibilidade de escolher qual bando seguir para acompanhar os acontecimentos, eu já me sentia parte do bando que viria a escolher; fiquei até treinando como empunhar melhor a minha sombrinha nova de modo a convencer que ela era a minha própria carabina; estava disposto a fazer parte do bando, queria ser aceito sob essas condições que me pareceram disponíveis ali, mas tive que me contentar em ser apenas "observador", calado e passivo. Esse espinho doeu. Mas, vida que segue. (continua)

Com o Bando de Hermógenes.

"Eu era feliz e não sabia". Esse dito popular ficou martelando na minha cabeça logo que começo a seguir o bando de Hermógenes, pois se com o bando de Diadorim a jovem simpática nos guia indicando por onde devemos seguir, agora estou entregue a própria sorte. Vejo o bando de Hermógenes se dirigir até a Praça e simplesmente sigo sob o "efeito de manada". Mas os jagunços nem Tchum pra mim; alguma guia simpática? Nada. E a caminhada até a Praça só não é completamente solitária, pois encontro um amigo, caixeiro viajante, que havia retornado recentemente. Assim como os jagunços, também seguimos indiferentes aos acontecimentos que logo irão se desenrolar. Mas isso não deixa de me parecer estranho e logo me pego em inquirições: "– Afinal, se nada acontece nesse percurso de ida, do Casarão até a Praça, porque raios a concentração é no Casarão e não na Praça?"; ou "– Por que esse percurso não faz parte dos acontecimentos, de modo a nos envolver como parte do bando que caminha junto aos jagunços de Hermógenes, cantando, fazendo troças ou simplesmente fazendo alaridos típicos de grupos de companheiros de jornada?"; ou ainda "– São realmente os jagunços que caminham até a Praça?". Ao chegarmos na Praça, pelo menos dois ambientes estão preparados como demarcação explicita do desenrolar dos acontecimentos, com paredes decoradas e alguns móveis. Mas confesso que a grandiosidade da paisagem da Praça ofusca e muito essas peças de cenário instaladas ali. Ao contrário do que imaginei, a chegada do bando à Praça não desencadeia imediatamente os acontecimentos; pelo menos quinze minutos se passam desde a chegada; e a cada novo minuto, cresce em mim a sensação de resfriamento das expectativas. Quando, então, os acontecimentos têm início estou com minha atenção completamente voltada para outros assuntos e desconectado daquele pedaço do sertão que deveria estar ali. Assim, percebo um início tímido e sem nenhum acontecimento impactante para rivalizar com todos os outros elementos naturais que disputam e dispersam nossa atenção numa Praça, tais como: conversas paralelas de transeuntes, trânsito de carros, ônibus e caminhões, latidos de cachorro etc. (continua)

Com o Bando de Diadorim.

E seguimos novamente para a clareira, local do acampamento do bando de Diadorim. Todos sentados e, desta vez, sem ameaça de chuva aparente consigo acompanhar os acontecimentos e perceber outros elementos curiosos como, por exemplo, a docilidade com o pronunciar da palavra, uma espécie de mansidão para, talvez, destacar o conteúdo do que é dito; e isso numa percepção geral, em maior ou menor intensidade entre todos do bando. Há uma leveza no dizer, em contraste com a situação árida que se passa. Isso me faz lembrar o pensamento que tive uma semana atrás: "– O que dizem é mais importante do que a ação?". Sou levado a confirmar essa suspeita quando vejo os acontecimentos ocorrerem sob dois cálculos distintos do lugar olhado: Primeiramente destaco o que se passa em primeiro plano, isto é, os jagunços que se posicionam a frente e dialogam fazendo a história se desenrolar; Em segundo plano está o que se passa ao fundo, isto é, os jagunços debaixo das tendas de seu acampamento, as rodas de conversa, o agrupamento para o jogo de cartas etc. E observando essa disposição entre frente e fundo dos acontecimentos, o primeiro sempre está sobreposto sobre o segundo, mas, a meu ver, de modo tão exagerado a ponto de me remeter as caricaturas de uma cena de cinema mudo; em alguns momentos, por exemplo, me pego incrédulo diante de situações como o jogo de cartas que se passa entre os jagunços no lado esquerdo, pois não há nenhuma manifestação sonora de descontração, nenhuma gargalhada, provocação, brincadeira, gozação ou sequer uma risadinha entre os jagunços jogadores. Tamanho estranhamento causado por essa ação quase pantomímica no plano de fundo me instiga uma troça: "– Tedoidé!!! Até as rodadas de dominó durante os velórios, no Jurunas, são mais animadas que esse jogo de cartas entre jagunços." Então, é essa primazia do que é dito no plano da frente que me leva a acreditar que a história falada é mais importante que as ações mostradas – sejam elas ocorrendo no plano da frente ou no plano de fundo. Obviamente que ao falarem, no plano da frente, os jagunços se colocam em ação, mas, a meu ver, é uma espécie de ação que guarda relação mais próxima da Literatura do que do Teatro. E aqui a obra original do Sr. Guimarães me parece pesar demais, me parece ser respeitada demais ou, ao menos, desajustada com as escolhas operacionais propostas. (continua)

Com o Bando de Hermógenes.

Dois jagunços, em especial, fazem a balança pesar de modo diferente para esta questão da palavra e da ação em relação ao Teatro e a Literatura: Riobaldo e Hermógenes. A suavidade, leveza e docilidade, outrora observada no outro bando, encontra em suas bocas outros tons, temperaturas e porosidades; em suas bocas as palavras agora ganham volume e adensam a atmosfera. Isso, em parte, se impõe como necessário, pois o ambiente da Praça é muito mais adverso do que o do Casarão. Então, ou se impõe ou serão engolidos pela natureza do lugar. Mas há também mérito pessoal nesses dois jagunços que se apropriam da palavra e colocam ela pra jogo, fazendo-a reverberar no espaço e impulsionando os acontecimentos. No entanto, poucos acompanham esse jogo com a mesma desenvoltura e, o que é pior, mantém a disposição dos dois planos de ação (de frente e de fundo), privilegiando o plano da frente e operando o apagamento sonoro do plano de fundo. Mas, nesse caso e em grande parte, sem necessidade, pois Riobaldo e Hermógenes estão quase sempre a frente e no centro dos acontecimentos, conduzindo esse jogo com palavras firmes, postura segura e presença marcante, oportunizando, portanto, que o plano de fundo participe sonoramente com maior efetividade. O que vejo, no entanto, são os mesmos quadros mudos já mencionados no bando de Diadorim. (continua)

Com o Bando de Diadorim.

Sobre a obra original do Sr. Guimarães pesar demais observo que há pétalas e espinhos ao mesmo tempo, pois reconheço um trato refinado com a adaptação da palavra que é colocada na boca dos jagunços, mas suspeito que a escolha do local aberto não foi o mais apropriado para pronunciá-las. Me indago: "– É uma palavra adaptável para espaço aberto ou uma caixa preta acolheria melhor, tanto aqueles que falam como aqueles que assistem?". Ou ainda: "– Essa palavra foi suficientemente levada a boca dos jagunços nesse ambiente aberto a ponto de explorarem essas sutilezas e camadas sonoras que podem se sobrepor?". Esses pensamentos me atravessam durante todo o desenrolar dos acontecimentos e a sensação de um ambiente controlado demais para que a palavra seja fruída sempre em primeiro plano só aumenta. Espinho bem incomodo. Talvez o imaginário estabelecido em minha mente, de um sertão árido e sofrido demais, exerça alguma influência na minha percepção, admito. Mas também não quero que isso se confunda com uma reivindicação dos clichês que são construídos via caricatura de um Nordeste selvagem e indomável. E, nesse caso, destaco que há pétalas suficientes – nos dois bandos – para descartar essa via muito visitada por essas paragens. E realmente isso me faz suspirar aliviado: "– Ufa". Então, não se trata disso. Mas de encontrar um equilíbrio entre a palavra/literatura e as escolhas operacionais propostas.

Com o Bando de Hermógenes.

Os dois jagunços já destacados – isto é, Riobaldo e Hermógenes – respondem muito bem a primeira indagação, pois em suas bocas ela (a palavra) encontrou abrigo suficientemente consistente para estabelecer o jogo com o espaço aberto da Praça. Quanto a segunda indagação já é bem mais difícil responder, afinal sempre devemos considerar e respeitar o tempo de adaptabilidade da palavra à boca de cada jagunço. O dado factível, a meu ver, no entanto, demonstra que essa questão pode ainda ser mais bem explorada pelo restante dos dois bandos. Mas também é curioso notar como a aspereza e o peso da palavra encontrada na boca desses dois jagunços permite estabelecer ambiente propício para mostrar um pouco da ferocidade/brutalidade das relações presentes naquele sertão. Com o bando de Hermógenes não é só sua palavra que é feroz, sua ação se brutaliza no próprio gesto de arrancar a língua do adversário antes de matá-lo. Quando executa esse ato brutal, seu olhar, sempre feroz, fita os demais jagunços como se anunciasse ao bando inteiro: "– Eu só acredito numa palavra que saiba e possa sangrar! E quem não faz uso dela, não merece ter língua". E eu, imediatamente respondo comigo mesmo: "– Mais palavras que sangrem, por favor!!!". E, em particular, Hermógenes, se lança neste sertão mais selvagem, flertando com a caricatura e com os clichês, mas sem medo de ser feliz; e, neste caso, talvez o elemento de contraponto importante diante da realidade pintada com cores bem mais suaves e calmas dos demais dos dois bandos. (continua)

Com o Bando de Diadorim.

Todos esses pensamentos me mantêm ligado até o instante do pacto com o diabo, momento mais propício para o florescimento de minha face mais cagona. A surpresa da aparição do coisa ruim, no entanto, é amenizada pela distância em que se encontra de mim: bem ao fundo do acampamento, bem distante também do próprio Riobaldo, numa aparição quase protocolar. Embora acontecimento importante e determinante para os rumos dos acontecimentos, em mim ele exerce pouco impacto, pois imediatamente seguimos para o desfecho e confronto final que se dará na frente do Casarão.

Com os dois bandos.

Os dois bandos rumam para o confronto final entre Diadorim e Hermógenes. A simpática jovem que nos guia no Bando de Diadorim indica que devemos caminhar para a frente do Casarão. Os jagunços vão na frente, em silêncio, e nós acompanhamos logo atrás. Mas eis que no outro bando é o próprio Hermógenes quem nos olha nos olhos e nos convoca para caminhar com seu bando. Não me contenho e grito por dentro: "– Eu tô pedindo isso desde o INÍÍÍÍCIOOOOOOOO!!!". E, então, o bando começa a cantar e se dirige até a frente do Casarão. Durante o percurso o canto em coro dá outras tonalidades para os acontecimentos, outra vida, outra energia. Embora, ainda não me sinta parte do bando, pois isso não foi construído desde o saída do Casarão, e cultivado durante os acontecimentos na Praça, ao menos sinto-me aliviado por perceber que esta via de desenvolvimento é possível e muito promissora, pois até consigo ouvir alguns resmungos e gritos de entusiasmos dos jagunços, brincadeiras e gozações entre si que colorem a paisagem com vida. É desse tipo de paisagem sonora, que tem muito a aflorar no plano de fundo, que senti falta nos dois bandos durante todos os acontecimentos. O confronto acontece, Hermógenes e Diadorim morrem. Um corpo é abandonado no chão, enquanto o outro é levado para as honras fúnebres. Quando acompanhei o bando de Diadorim não percebi o peso desse contraste, pois fiquei localizado, no patamar de cima, próximo a porta do Casarão, de modo a apenas observar o corpo de Hermógenes coberto e abandonado lá embaixo. Mas acompanhando o bando de Hermógenes fiquei na calçada do lado de fora do Casarão. Então, após o desfecho do combate, sou obrigado a passar ao lado, quase que por cima de um corpo abandonado coberto apenas por um lençol. Se instala um silêncio antes que possamos passar pelo corpo de Hermógenes, subir as escadas e entrar no Casarão. Sinto o clima pesaroso. A imagem do corpo abandonado impacta. Quando entro no Casarão, a imagem do corpo nu de Diadorim sobre a mesa, coberto apenas por um véu escuro (salvo engano) também impacta. As pessoas passam ao redor, como num típico velório em que os familiares recebem as condolências. Todos passam em silêncio e continuo sentindo o clima pesado. A canção "Nordeste ficção", de Juliana Linhares, compõe o ambiente. Passo ao redor do corpo de Diadorim e, assim como os outros, sigo em silêncio novamente até os fundos do Casarão. A mesma canção que toca na frente, toca atrás do Casarão, estabelecendo um elo narrativo entre os dois lugares, o que reforça a ideia de continuidade dos acontecimentos; mas aos poucos vou percebendo um clima completamente diferente entre os jagunços: estão quase todos lá, enfileirados lado a lado, em conversas cochichadas e triviais, alguns até arriscam uns passinhos de dança e o clima de descontração vai aumentando entre eles até a chegada dos últimos jagunços que estavam presentes nos acontecimentos finais. Descubro, então, que só me dirigi novamente para os fundos do Casarão para saudar todas as equipes de trabalho. É justo saudá-los, afinal são muitas pessoas para colocar a obra de pé e todos, certamente, merecem os aplausos. A questão, a meu ver, não é essa, mas sim como o impacto do desfecho dos acontecimentos é deixado de lado e entregue a própria sorte justamente quando o tom grave e trágico, desencadeado pelas duas mortes e revelação do segredo de Diadorim, vem à tona e me convoca à reflexão do sentido de toda a jornada testemunhada nesses dois encontros. Mas o que se passa lá atrás é que os jagunços abandonam suas personas sem que uma ação estabeleça, de modo claro e definitivo, que os acontecimentos derradeiros já encerraram a narrativa. E, desse modo, sem saber que o final já se deu e enlevado pelo tom grave dos últimos acontecimentos, naturalmente estranho muito que aqueles jagunços possam estar em tamanho estado de frivolidades, pois isso me leva a crer que sobre eles os acontecimentos não causaram impacto algum. Então, nesse momento pós velório, com todo mundo reunido no quintal do Casarão – os dois bandos de jagunços, todos os acompanhantes do encontro, todas as equipes de trabalho, enfim, todos que apoiaram a apresentação do Sr. Guimarães – sinto falta de uma ação, por mais simples que seja, para finalizar a obra considerando, fundamentalmente, o clímax estabelecido no velório. E para finalizar, não posso deixar passar despercebido a ironia em torno da figura do jagunço Hermógenes, do bando de Hermógenes: ele, com seu olhar fixo, sua expressão carregada e gestos que parecem querer se eternizar no tempo; ele, que me fez sentir o peso e a porosidade de cada palavra proferida; ele, um dos poucos jagunços que me mostrou como a palavra do Sr. Guimarães pode sangrar em Praça pública; pois bem, é esse mesmo jagunço que tem seu corpo abandonado e desprezado pelos dois bandos. É bem verdade que fica abandonado e desprezado por seu conteúdo moral, sua violência excessiva, seu método de poder condenável imposto pelo terror e pelo medo; mas fazendo um exercício de distanciamento e transpondo esse gesto para fora da narrativa dos acontecimentos, a meu ver, denota o desprezo ou pouco caso com o uso da palavra bem-dita, trabalhada nos seus contornos mais finos, construída com o peso necessário para nos fazer ver além do que é dito. E para isso as palavras devem convocar os artistas a compreender, expressar e, fundamentalmente, se posicionar acerca do que dizem. As palavras devem sagram na boca de quem fala e nos ouvidos de quem ouve. Quem está preparado para ser desprezado por se posicionar de modo contundente contra as grandes opressões do sistema? Quantos artistas querem carregar essas palavras na boca – vide casos recentes de Ocupação da SEDUC e da Cargill? E quantos de nós estamos dispostos a ouvi-las e repercuti-las com nossas próprias palavras? E, talvez, um bom modo de começar esse exercício é perceber como Juliana Linhares faz suas palavras sangrarem quando canta o seu "Nordeste Ficção". Ouça a canção e depois procure ver se consegue fazer esses versos sangrarem na sua boca:

Um dia eu sonhei que eu era um cacto

Desses que tenho em casa e eu não cuido

E que mesmo sem cor, sem água

Sem ter flor pra dar

Com os espinhos tortos 'inda olha rindo

Vivo intacto

Vivo intacto

O cacto

Menina, o sonho eu acho que era um cacto

De um interior envelhecido

Que fugira do sertão na tentativa

De colher futuro farto e voz ativa

Vivo intacto

Vivo intacto

O cacto

Olha eu em SP, na portaria

Da brecha eu te mando um bom dia

O senhor bate os seus pés, sobe a fumaça

Tragando o mundo eu sigo, e você passa

Agora eu viajei, eu era um cacto

Desses na cidade grande, esquecidos

Chique, chique, pobre, pobre

Lado a lado

Que rachando a terra abre mais caminho

Amordace os dentes, sou eu o cacto

Cortando a raiz, sou mais de um país e um estado desistente

É fama pra dizer que a gente aguenta (vivo intacto)

Que manda chumbo grosso e nós sustenta (vivo intacto)

Botaram pra vender nossa esperança (vivo intacto)

Criaram o roteiro dessa dança (vivo intacto)

Lugar hostil de gente tão pacífica

Nordeste ficção científica

É pobre, é seca, é criança raquítica

Nordeste invenção política

Hei, herêrêrêrêrêrê, harêrêra

Nordeste emoção artística

Hei, herêrêrêrêrarê, herêrêra

Nordeste ficção científica

Nordeste invenção política

Nordeste ficção científica

Parabéns. Se chegou até aqui você ao menos tentou.


[1] Ator e diretor teatral desde 1996; Coordenador do Projeto Tribuna do Cretino; Editor da Tribuna do Cretino: Revista de Crítica Teatral; Membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro AICT-Brasil.

Ficha Técnica

Grande Sertão: Veredas

Da obra de João Guimarães Rosa

Elenco:

Bando de Diadorim

Ally, Gabriel Anjos, Inngryday Cristiny, Pedro Bolseiro, Laiza Bonifácio,

Josué Pantoja, Carolina Moref, Diego Pimentel, Ryuu, Will, Faísca,

Kadu Chaves, Yrochi e Jonata Navegantes

Bando de Hermógenes

Priscilla Rosa, Lucas Bereco, Luis Carlos, Sofia Alvarez, Matheus Martins,

Cibele Maciel, Caroline Vitória, Lennon Bendelak, Mayara Souza,

Maya Rodrigues, Wanderson Moraes, Samantha Pacheco,

Direção:

Karine Jansen e Larissa Latif

Assistência de Direção:

Danielle Cascaes

Preparação de Elenco:

Lennon Bendelak

Dramaturgismo:

Lennon Bendelak, Danielle Cascaes, Karine Jansen e Larissa Latif

Coordenação de Figurino:
Ézia Neves

Figurinistas:
Fabrício Ribeiro e Sávio Serrão

Assistentes de Figurino:
Adriana Martins, Sidyany Christiny, Vitória Costa e Joane Parente
Orientação de Maquiagem Cênica:

Micheline Penafort

Coordenação de Cenografia:
Paulo Ricardo Nascimento
Cenógrafa:
Manu Castro
Assistentes de Cenografia:
Gigi Cosplay e Pedro Radhe
Coordenação de Iluminação:

Iara Souza

Sonoplastia:

Suellen Calábria e Shislene Alves

Contrarregragem:

Rayana Casanova, Rosilene e Nathália

Mídia Digital:

Danielle Cascaes, Gabriel Anjos, Kadu Chaves, Luis Carlos e Matheus Martins

Apoio:

Casarão do Boneco