Marco do Atravessamento: Entre o Riso e a Reflexão

09/07/2026

Montagem: Marco do Atravessamento

3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Maria Luiza Rodrigues[1]

Assistir a Marco do Atravessamento, de Victoria Rodrigues, apresentada pela ETDUFPA, foi uma experiência que foi muito além do entretenimento. Utilizando a linguagem da palhaçaria, o espetáculo consegue arrancar risadas do público enquanto provoca reflexões sobre questões que fazem parte da realidade paraense, amazônica e brasileira. Ao longo da apresentação, temas como manipulação política, exploração da fé, desigualdade de poder e valorização da memória coletiva aparecem de forma leve, mas sem perder a força da crítica.

Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a forma como o espetáculo retrata as relações de poder. Em diversos momentos, fica evidente a crítica a um sistema em que quem possui mais influência econômica, política ou social acaba determinando os rumos da vida de tantas outras pessoas. É difícil assistir a essas cenas sem fazer uma relação com a realidade brasileira, onde promessas de mudança costumam surgir a cada eleição, mas nem sempre se transformam em melhorias concretas para a população.

Nesse contexto, a personagem Angelina Angelical representa muito bem o charlatanismo praticado em nome da fé. Ela lembra figuras que se aproveitam da confiança e da esperança das pessoas para obter benefícios próprios, transformando a religião em um instrumento de manipulação. Em nenhum momento interpretei essa crítica como um ataque à fé, mas sim ao uso dela para enganar e explorar quem está em situação de vulnerabilidade.

Outro personagem que contribui bastante para essa reflexão é Robinho. Sua presença me fez pensar em como certas estruturas de poder parecem mudar apenas na aparência. Novos discursos surgem, novos rostos aparecem, mas muitas vezes a lógica da exploração continua a mesma. O humor torna essa crítica mais acessível e faz com que o público reconheça essas situações sem que a peça perca sua leveza.

Entre todos os momentos da apresentação, um dos que mais ficou comigo foi a pergunta: "Há quanto tempo você não senta para escutar as histórias da sua avó?". Apesar de simples, essa fala carrega um significado muito forte. Ela faz pensar em como, na correria do dia a dia, muitas vezes deixamos de ouvir as pessoas mais velhas e de valorizar tudo o que elas têm para compartilhar. É um lembrete de que a memória também faz parte da nossa identidade e merece ser preservada.

A escolha da palhaçaria como linguagem artística fortalece ainda mais a proposta do espetáculo. O riso não serve apenas para divertir, mas também para aproximar o público de assuntos que, em outros contextos, poderiam parecer pesados ou distantes. Enquanto ri das situações apresentadas em cena, o espectador também acaba refletindo sobre problemas que fazem parte do seu cotidiano.

Outro momento que considero importante foi a fala da própria autora ao final da apresentação, quando comentou sobre as dificuldades enfrentadas pela instituição e pelos estudantes. Esse encerramento criou uma ligação muito interessante entre a obra e a realidade de quem produz arte e cultura. Mais do que apresentar uma crítica social, o espetáculo também evidencia os desafios vividos por aqueles que tornam esse tipo de trabalho possível.

Ao final da apresentação, ficou claro para mim que Marco do Atravessamento utiliza o humor como uma ferramenta para provocar reflexão. A peça diverte, mas também incomoda na medida certa, levando o público a pensar sobre questões que continuam presentes na sociedade. É justamente essa capacidade de fazer rir e, ao mesmo tempo, despertar questionamentos que torna o espetáculo tão marcante.

Julho de 2026

[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Produção Artística – PIBIPA 2026 pelo projeto de extensão Tribuna do Cretino;  

Marco do Atravessamento

Elenco:

Cau Martins, Joao Davi, Tonho Lobato

Priscilla Rosa, Daniel Mozart, Isabel Lopes

Leonardo Portal, Kallin Brito, Maria Luz

Bianca Ribeiro, Joseph Cruz, Tati Mira

Direção:

Victoria Rodrigues

Assistência de Direção:

Priscilla Rosa

Estagiário e Assistente de Direção:

Lucas M A Serejo

Preparação de Elenco:

Daniel Mozart

Preparação de Voz:

Priscilla Rosa

Dramaturgia:

Victoria Rodrigues

Assistência de Dramaturgia:

Tonho Lobato

Concepção Cenográfica:

Manuela Castro

Assistência de Cenografia:

Elian Magno

Concepção de Figurino:

Tonho Lobato

Direção Musical:

Mika Nascimento

Músico de Cena:

João Souza

Assistência de Produção:

Adrielle Santana

Comunicação:

Beatriz Eleres

Fotografia:

Vinicius Camecran

Ilustração:

Otoniel Oliveira

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