Marginal: Entre o Corpo, a Mente e a Exclusão Social
Montagem Teatral: Marginal
3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Maria Luiza Rodrigues[1]
Marginal apresenta a trajetória de Manuela, uma mulher trans em situação de rua, e constrói a partir dessa história uma reflexão sensível e impactante sobre exclusão social, identidade e violência. Embora o foco esteja nessa vivência individual, o espetáculo rapidamente ultrapassa essa dimensão pessoal e amplia o olhar para uma realidade coletiva, marcada por processos contínuos de marginalização, abandono e desigualdade estrutural que atravessam diferentes corpos e trajetórias.
O próprio título já produz um deslocamento importante de sentido: "Marginal" deixa de ser entendido apenas na associação mais comum com criminalidade e passa a revelar aqueles que são colocados à margem da sociedade, muitas vezes sem possibilidade real de reintegração. Nesse contexto, Manuela não aparece como exceção, mas como consequência direta de uma estrutura social que produz e naturaliza exclusões. Essa ideia se intensifica na construção do espaço cênico, composto por lixo, restos e elementos improvisados, criando um ambiente de precariedade que não serve apenas como cenário, mas como extensão da própria condição da personagem. A iluminação, por sua vez, tem papel fundamental ao direcionar o olhar do público e marcar mudanças sutis de atmosfera, contribuindo para a construção emocional das cenas e para a sensação de instabilidade que atravessa a narrativa.
Um dos aspectos mais marcantes do espetáculo é a atuação da intérprete de Manuela. Mesmo sem recorrer ao choro explícito ou a recursos exagerados de dramatização, o sofrimento aparece de forma muito intensa e constante no corpo, na voz e na expressão facial, revelando uma entrega física que se mantém ao longo de toda a apresentação. Esse desgaste progressivo da personagem não soa artificial, mas coerente com a dureza da experiência representada, fazendo com que o público acompanhe não apenas uma história, mas um corpo em permanente estado de tensão. Outro recurso importante é a forma como os conflitos internos da protagonista são externalizados por meio das figuras do id, ego e superego, que deixam de ser apenas conceitos teóricos e passam a atuar como presenças cênicas. Essa escolha transforma processos psicológicos em ação concreta, criando um diálogo interno que ajuda a tornar visível aquilo que, na vida real, muitas vezes permanece silencioso ou fragmentado.
A dança também desempenha um papel essencial na construção da obra. Misturando balé e dança contemporânea, ela funciona como uma espécie de linguagem paralela, que expressa aquilo que não se organiza em palavras. Em vários momentos, o movimento corporal parece assumir o lugar da fala, traduzindo emoções como culpa, medo e desamparo de maneira direta, mas sem explicação literal. As relações afetivas apresentadas ao longo da narrativa reforçam ainda mais esse impacto emocional, especialmente a morte de Érica, mulher trans em situação de rua e importante vínculo de pertencimento para Manuela, que surge como um trauma central que atravessa toda a obra. A relação com a mãe também contribui para aprofundar esse campo emocional, sobretudo na repetição da frase "ela morreu e eu não pude fazer nada", que funciona quase como um eco constante de impotência e culpa.
Ao final da apresentação, o espetáculo não se encerra de maneira abrupta. Ele permanece, de forma sutil, no silêncio que se instala depois, no impacto que continua reverberando enquanto o público ainda processa o que viu em cena. Essa permanência reforça a potência da obra, que não se limita à representação de uma história, mas provoca um estado de reflexão prolongado. Além disso, o espetáculo estabelece conexões com pesquisas vinculadas ao projeto Vozes da Rua, ampliando seu diálogo com experiências reais e debates sociais contemporâneos. Também se articula com discussões em torno de um Projeto de Lei de Florianópolis voltado à população em situação de rua, especialmente no que diz respeito à saúde mental e às políticas de internação involuntária, o que reforça ainda mais a relevância social do tema abordado.
No conjunto, Marginal se destaca por transformar experiências de exclusão em linguagem cênica sensível e potente, articulando corpo, dança e construção psicológica de forma integrada. Mais do que narrar a história de uma personagem, o espetáculo convida o público a atravessar, ainda que por instantes, uma realidade marcada por invisibilidade e violência estrutural, produzindo não apenas empatia, mas também desconforto e reflexão.
Julho de 2026
[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Produção Artística – PIBIPA 2026 pelo Projeto Tribuna do Cretino;
Ficha Técnica:
Marginal
Elenco:
Anastacia Marshelly
Bianca Alencar Machado
JP Meirelles
Robert Trindade
Produção Executiva:
Jéssica Jardim Cruz e Mateus Monteiro Piedade
Dramaturgia e Direção Geral:
Jéssica Jardim Cruz
Direção sonora e conceito artístico:
Mateus Monteiro Piedade
Cenografia:
Manuela Castro
Desenho de iluminação e operação de luz:
Nathan Lavareda
Assistente de iluminação:
Ster Ribeiro
Figurino:
Márcia Cristina
Apoio:
Laysa Gabrielle, Jam Sancas e Júlia Rosa dos Anjos
Operador de som:
Mac Silva
Mídia:
Luana Valadares e Bianca
Orientadores:
Adriano Furtado e Carmem Virgolino
Fotografia:
Victoria Rodrigues
Ajuda e apoio:
Gil, Bea Eleres, Priscila Alves de Alencar.
