Médico a força: O papel revelador da comédia
Montagem Teatral: Médico à força.
Montagem: Grupo Cena Aberta
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Luana Valadares Pantoja[1]
Médico à Força (Le Médecin malgré lui) é uma famosa comédia de farsa em três atos escrita pelo dramaturgo francês Molière. O núcleo central da obra conta a história do lenhador preguiçoso Sganarelo que tem conflitos constantes com sua esposa Martinha. Devido a uma surra que recebeu de seu marido, Martinha, em busca de vingança, diz a dois criados que procuram um médico, que Sganarelo é um médico brilhante, mas que tem o hábito de negar sua profissão e só a exerce se for espancado.
Além disso, o espetáculo dialoga sobre a dinâmica de casamentos forçados no século XVII ao falar de Geronte, um homem rico cuja filha, Lucinda, perdeu a fala misteriosamente. A mudez, na verdade, é uma estratégia da jovem para evitar um casamento arranjado com um homem rico que seu pai escolheu, já que ela é apaixonada por Leandro. E advinha quem é o médico responsável pelo tratamento de Lucinda...
O grupo paraense de teatro Cena Aberta, realizou uma montagem adaptada desta obra de maneira muito segura, criativa, absurdamente engraçada e musical, contudo questões direcionadas a falta de técnicas de atuação me chamaram atenção não tão positivamente, porém, de maneira alguma tornou a experiencia menos enriquecedora.
Logo quando entrei na caixa preta, percebi alguns objetos dentro de um banco virado de "cabeça para baixo", e apenas isto fazia a composição do cenário, sendo o fundo do espaço coberto por uma cortina preta na qual os atores utilizaram como coxia. A disposição das cenas se ateve ao modelo tradicional de palco italiano, este tipo de encenação me deixou muito confortável para observar e analisar o que cada expressão facial estava comunicando, pois o texto continha muitos subtextos e os atores não economizaram em suas expressões corporais e faciais, de maneira que a comedia teve um leve sabor renascentista.
Após essa primeira análise, no início do espetáculo, o grupo começa já mostrando sua narrativa única por meio da figura do trovador que funciona como um apresentador de cada personagem e também como o responsável por explicar ao público qual história será contada, fazendo que tudo fique mais claro. Essa preocupação em de fato conduzir o público para a trama logo no início é o que confere a encenação do grupo, já muito bem estruturada e segura, personalidade própria a montagem e torna ela acessível a diferentes públicos.
A partir disto, o espetáculo seguiu até o final com o cenário que utilizava muito mais a luz como elemento narrativo principal em conjunto com a música, está se fazia presente principalmente em momentos de transição de um núcleo de história para outro, ainda com a intenção de ter a certeza de que o público estava situado na história.
A montagem conseguiu falar de assuntos muito sérios e necessários na sociedade atual de maneira cômica, como violência doméstica e charlatanismo, e em vários momentos eu me peguei rindo de alguém que aprendia por meio da violência (pancadas), me peguei rindo de um assedio direcionado exclusivamente para uma mulher casada. Contudo, ao mesmo tempo, enquanto eu ria eu me questionava, questionava minhas próprias construções sociais e como algumas pessoas riem e normalizam sem fazer este exercício de olhar para si mesmo.
Portanto, nesse sentido, o espetáculo agiu de maneira muito sagaz e extremante necessária, e isto me leva a crer que a maneira que o grupo escolheu para contar a história e priorizar a explicação tão clara de seus personagens e seus elementos, seja de fato para garantir que esses questionamentos, alcancem nem que seja de maneira leve, sutil e cômica, aqueles que por ventura não fazem este raciocínio espontaneamente. E assim, o grupo cumpre uma bela função da arte, a de provocar questionamentos sobre os modelos pré-existentes e socialmente aceitos, que mesmo tão antigos, ainda estão impregnados na sociedade.
Ademais, em relação a questões técnicas de atuação, me incomodou o fato de os atores parecerem estar "flutuando" em seus pés, e em alguns momentos as direções do corpo não acompanhavam o estado emocional da personagem e/ou da cena, prejudicando a mensagem que deveria estar sendo passada, assim como, a personagem da filha que em alguns momentos saiu de seu personagem e chegou até a pedir desculpas por ter errado a fala (foi bem rápido, mas aquilo me incomodou).
Por fim, de maneira geral o espetáculo foi uma experiencia muito satisfatória e intrigante, eu ri, me questionei, observei e aprendi bastante. De certa maneira me fez lembrar do poder da comédia de sua necessidade para a uma sociedade que adora rir de seus problemas, mas não gosta de falar deles.
Junho de 2026
[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;
Médico à força
Grupo Cena Aberta
Elenco:
Rafaela Takemura - Geronte
Joseph Cruz - Lucas
Ste Ribeiro - Sganarelo
Paula Basttos - Martinha
Isabel Lopes - Roberta
Eduardo de Moraes - Valério e Leandro
Mauricio Panzera - Menestrel
Amanda Marthins - Jackeline
Tatiana Marques - Lucinda
Direção:
Margaret Refkalefsky
Dramaturgia:
Adaptado de Molière
Figurino:
Rafaela Takemura
Composição Musical:
Maurício Panzera
