Médico à força: rir ainda é a melhor maneira de pensar

25/05/2026

Montagem Teatral: Médico a força.

Montagem: Grupo Cena Aberta

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

David Costa de Araujo[1]

Dizem que rir é o melhor remédio, mas no caso do espetáculo Médico à força, o riso não possui intenção alguma de curar, mas sim de expor feridas reais de forma cômica. Realizado pelo grupo de teatro Cena Aberta e comandado pela diretora Margaret Refkalefsky, a apresentação ocorreu no espaço cultural Curro Velho e contou com um palco em caixa preta, figurinos reciclados, três bastões de espuma, dois banquinhos de madeira, um violão, e claro, o talento de jovens artistas de Belém do Pará.

À primeira vista, alguns poderiam resumir tecnicamente como uma cena de poucos recursos visuais, contudo, o que encontrei nessa mostra foi uma narrativa cheia de substância, a começar por seu protagonista Sganarelo. Tão estrambólico quanto o seu nome é a absurdez de sua composição, um homem bêbado, agressor, inconsequente e trapaceiro, com defeitos atenuados pela comicidade, mas pelo qual me peguei torcendo durante a história. Isso me fez pensar, para além do palco, o quanto nós enquanto sociedade temos a cultura de validar e fazer "vista grossa" quando nos deparamos com seres humanos que compartilham das mesmas características de Sganarelo no mundo real. No teatro ao menos temos o riso para mascarar nossas reflexões e constrangimentos.

Outro ponto ainda mais cruel que a peça aborda nas entrelinhas, mas com tamanha sagacidade, é como o dinheiro movimenta e capitaliza as decisões dos personagens. É por conta do dinheiro "fácil" que Sganerelo decide manter a farsa de que ele é um grande médico; é por causa do dinheiro enquanto status que o personagem Geronte quer obrigar sua filha Lucinda a se casar com um rico pretendente; é por conta da miséria e falta do dinheiro que Leandro, o rapaz por quem Lucinda é verdadeiramente apaixonada, é desprezado pela família de sua amada, e isso fica muito claro na cena que encerra o espetáculo, onde o dinheiro age como uma espécie de bússola moral deste pequeno universo, fazendo todos ignorarem infelicidades, vontades, erros, violações, humilhações, mentiras e desprezos, afinal, se alguém tem dinheiro, este alguém pode tudo, inclusive comprar prestígio, ou pior, tirar o valor de uma vida. Quem nos dera que esta configuração ficasse apenas dentro do limite da plateia.

Por fim, enquanto voltava pra casa analisando, trocando ideias e despedaçando as cenas do que tinha acabado de ver junto com a minha companhia, percebi que em meio a tantas risadas que escaparam durante os 70 minutos desta montagem, que a história em sua síntese se tratou da venda de uma farsa, e a pergunta que fica no final é: qual farsa eu e você ainda vendemos com um sorriso no rosto?

Maio de 2026

[1] Graduando do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;

Ficha Técnica:

Médico à força

Grupo Cena Aberta

Elenco:

Rafaela Takemura - Geronte

Joseph Cruz - Lucas

Ste Ribeiro - Sganarelo

Paula Basttos - Martinha

Isabel Lopes - Roberta

Eduardo de Moraes - Valério e Leandro

Mauricio Panzera - Menestrel

Amanda Marthins - Jackeline

Tatiana Marques - Lucinda

Direção:

Margaret Refkalefsky

Dramaturgia:

Adaptado de Molière

Figurino:

Rafaela Takemura

Composição Musical:

Maurício Panzera

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