Nasceu mais um menino preto e o futuro dele é belo: Pedrinhas de Aruanda e o corpo-potência dos atuantes em cena

15/08/2026

Montagem Teatral: Pedrinhas de Aruanda

Montagem: Resultado da disciplina Técnicas Corporais II, apresentado pelos alunos do Técnico em Teatro da ETDUFPA, turma ingressante em 2025 

Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179

Yas Laranjas[1]

Corpos muitos entram em cena guiados por uma figura soberana: uma atriz-rainha acompanhada por atores-súditos-ancestrais em organismo vivo. Uma profusão de sonoridades e corporeidades invadem o espaço prenunciando a brincadeira que virá. Viver a própria ancestralidade é como brincar de amarelinha: jogamos a pedra no solo sagrado e traçamos um caminho até àquilo que sempre nos pertenceu. A ida, na verdade, é um retorno. Retorno que nos lembra do corpo enquanto morada narrativa. Isto é, casa de histórias anteriores à nossa existência, mas que acompanham a carne vivente do dia a dia. Esse corpo-potência desdobra-se em múltiplas temporalidades, atualizando o passado no presente e fazendo emergir futuros que já se anunciam. São tempos que não se sucedem de forma linear, mas coexistem em movimento espiralar, circular.

O espetáculo Pedrinhas de Aruandatraz para a cena esses corpos-potências dos alunos do Técnico em Teatro da Escola de Teatro e Dança da UFPA. A montagem possui dramaturgia e direção cênica de Carmem Virgolino, direção visual de Juliano Bentes, direção musical de Diego Vattos e direção vocal de Mainumy. Ela foi inspirada na obra Pedrinhas Miudinhas, de Antonio Simas, e é o resultado da disciplina Técnicas Corporais II, cujo objetivo é trabalhar o corpo mediante a investigação da memória, da ancestralidade e da relação com o ambiente daqueles que vivem cotidianamente as múltiplas realidades afro-amazônidas. A poética resulta em uma confluência de manifestações populares, encantarias e saberes tradicionais que atravessam as vivências negras, indígenas e caboclas da Amazônia. Sob essa ótica, as danças negras, a capoeira angola, o boi bumbá, as mulheres ancestrais e as canções populares são alguns dos elementos que constituem uma dramaturgia coletiva tão rica.

Em cena, essas expressões ganham corporificação e movimento. Os corpos-atuantes, em estado extracotidiano, revelam ao espectador a poética e a beleza do cotidiano e do ordinário daqueles que ocupam e vivem essa Amazônia multiforme. Um corpo-ator é motor de barco: e eu ouço o rugido cantando na pele. Um corpo-atuante é água, é onda: e eu sinto o rio. Um corpo-atuante é puxado por uma hélice: e eu tenho medo dela me arrastar. Um corpo-atuante brinca na rede: e eu me empolgo com o seu embalar. Um corpo-atuante é urubu: e eu o vejo voar. Tais momentos, assim como diversos outros no decorrer do espetáculo, coloca-nos de frente com elementos tão estimados e instalados no imaginário popular amazônico que é impossível não se sentir tocado, afetado. A magia do corpo em cena está na corporificação do invisível: daquilo que, de olhos já tão fatigados e acostumados, tornou-se imperceptível, comum, mas que carrega raízes ancestrais.

De forma semelhante, as sonoridades produzidas pelos músicos, fusionadas com os corpos em cena, transfiguram-se em matéria palpável e familiar. O som vira um personagem-entidade que intensifica organismos já potentes. Somado a isso, canto e voz se tornam substância-corpo capaz de trazer à cena a magia da palavra. A oralidade, herança das culturas africanas e indígenas, juntamente com a performance corporal, faz-se presente na forma de produzir conhecimento e fixar saberes ancestrais. A palavra é tecnologia ancestral. Transmissão de conhecimento vivo que atravessa gerações. É nessa perspectiva que Leda Maria Martins, dramaturga e ensaísta brasileira, lembra-nos, em Performances do Tempo Espiralar: Poéticas do Corpo Tela,que a palavra oraliturizada se inscreve no corpo, produzindo experiências de temporalidade e de expansão dos conhecimentos tradicionais.

É nesse entrelaçamento entre voz e gesto que a cena se constrói. Os corpos-atuantes em cena narram histórias de mães, de avós, de rios: a palavra vira poema. A mãe ribeirinha, a mãe negra e a mãe indígena ficam prenhes de verbo. Após as contrações e o parto, corre pelo mundo que nasceu mais um menino preto, nasceu mais uma menina indígena e o futuro deles é belo, é triunfal. As ancestralidades são vividas como uma celebração, uma rememoração: "a minha avó me contou", "a minha mãe me contou", "eu ouvi do rio", "eu ouvi dos ribeirinhos". Toda a nossa cultura é permeada por essas narrativas-corpo, por essas vocalidades-corporais: no fim, a atriz-rainha retorna, como esse tempo ancestral espiralado em que as temporalidades se encontram. Junto a ela, vemos a grande mãe-corpo-palavra acalentando e abraçando seus filhos-corpos-ouvidos como se dissesse: "vocês serão cuidados, protegidos, ninados; saberão dos seus ancestrais, da sua cultura; e terão um futuro: um futuro bonito e glorioso".

Agosto de 2026

[1] Programa de Pós-graduação em Artes (PPGArtes) – Universidade Federal do Pará (UFPA) – Atriz e Professora;

Pedrinhas de Aruanda

Atuantes:

Mayara Souza, Gabriel Anjos, Luis Carlos

Priscilla Rosa, Maya Rodrigues, Kamilla Pavão, Kadu Chaves,

Jairo Farias, Pedro Araujo, Caroline Vitória, Leonardo Sousa,

Samantha Pacheco, Inngryday Cristiny, Nazaré Figueiredo, Diego Pimentel,

Carolina Moref e Jonata Navegantes

Direção e dramaturgismo:

Carmem Virgolino

Direção Visual:

Juliano Bentes

Cenografia:

Érica Luana Carneiro Goes, Geane Leite Ferreira, Gisele Vieira da Silva,

Izabella Leão Silva, José Diogo Lira Costa, Marília Garcia Praia

Milena Santa Rosa Alves e Pedro Radhe Shyam Mendes Silva

Iluminação:

José Diogo Lira Costa, Érica Luana Carneiro Goes e Leonardo Sousa

Direção Musical:

Diego Vattos

Músicos de Cena:

Diego Vattos, Mainumy, Carmem Virgolino e Sam Rodrigues

Direção Vocal:

Mainumy

Assistência de preparação de elenco:

Júlia Hassegawa Moura

Produção:

Carmem Virgolino, Juliano Bentes e Mayara Souza

Assistente de Produção:

Wanderson Moraes e Agatha Souza

Identidade Visual:

Dylan

Maquiagem:

Carolina Moref

Fotografia:

Mayara Souza e Lorenzo Paixão

Comunicação:

Mayara Souza, Gabriel Anjos e Priscila Rosa

Fotos:

Elisa Beatriz

Mobile:

Lorenzo Paixão

Intérprete de libras:

Vinicius Oliveira

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