Nelson em Náusea ou Das Náuseas do Nosso Tempo – Edson Fernando
Montagem Teatral: Dorotéia: A Farsa Irresponsável.
Montagem: Grupo Gruta.
Tribuna do Cretino - Vol. 02 - N° 02 - 2026 / ISSN 3086-1179
Edson Fernando[1]
Dialogar com Nelson Rodrigues, por meio das montagens teatrais produzidas em Belém, é sempre um prazer; e nem tenho como negar minha admiração pelo anjo pornográfico, afinal o nome do projeto de extensão e desta revista (Tribuna do Cretino) fazem alusão direta a uma de suas frases de efeito: "Ao cretino fundamental nem água". No entanto, antes de me reportar a Doroteia: a farsa irresponsável, nova montagem do Grupo Gruta, me permitirei uma pequena digressão que julgo oportuna para refletir novamente sobre minha sensação de estranhamento diante da atual conjuntura histórica.
Em dezembro de 2017, refletindo sobre a montagem I(MUNDO) UBU – uma adaptação de "Ubu-Rei", de Alfred Jarry, realizada pelo Grupo Imundas – me vi tomado pela sensação da impossibilidade de fabulação em tempos de MBL, da Bancada BBB – Boi, Bala e Bíblia – e dos discursos de ódio que capturaram o sentimento de indignação do povo brasileiro diante daquela conjuntura política que atravessávamos: estelionato eleitoral promovido pelo segundo governo Dilma Rousseff que deflagrou um lento e gradual derretimento, afastamento e/ou anestesiamento de sua base de apoio popular, fundamentalmente aquela vinda dos movimentos sociais; destituição da presidenta Dilma Rousseff via processo de impeachment; ascensão de Michel Temer ao cargo de presidente do Brasil e, com ele, a agenda política do "uma ponte para o futuro", nova fase do neoliberalismo que previu ajuste fiscal e teto de gastos públicos que nos assola até hoje; e, ainda, avanço da extrema direita no Congresso Nacional, dentre muitas outras coisas bizarras que corriam no cenário nacional. E isso tudo sem contar que o pior ainda estava por vir em 2018, quando a armação jurídica realizada por Moro-Deltan Dallagnol encarcerou Lula e abriu espaço para a eleição de Bolsonaro.
Diante desse quadro e refletindo sobre a montagem do Grupo Imundas, naquela ocasião afirmei:
A dramaturgia que o Imundas nos apresenta segue a mesma perspectiva de apropriação da realidade e não se preocupa com nenhum tipo de velamento dos acontecimentos mostrados. Desse modo, muito apropriadamente eles nos dizem que "A ração humana é do Doria". Não se trata de uma paródia de algum governante de uma terra distante, mas sim o prefeito João Doria, citado textualmente para nos lembrar, do modo mais claro e objetivo possível, do controverso programa de alimentação para os pobres, proposto pela prefeitura de São Paulo. O mesmo se dá todas as vezes que a montagem dialoga com outros fatos reais – e não são poucos.
(...) Imediatamente me percebi diante da imundice que nos assola. Como retratar poeticamente tamanha imundice? A montagem responde com simplicidade, conjugando os verbos no presente do indicativo: escrachar, debochar, zombar, troçar, escarnecer, caçoar, achincalhar, ridicularizar... E se há excessos, eles não se encontram nos atuantes, mas, pra nossa tragédia social, nas situações que retratam. (2021, p. 12; ênfases minhas)
Quando afirmo, então, "impossibilidade de fabulação" me refiro a dificuldade de competir com uma realidade que já se apresenta como grotesca, farsesca e burlesca em muitos aspectos da nossa vida social e cotidiana. É como se eu olhasse para a bufonaria, o burlesco ou mesmo a Patafísica de Jarry e as considerasse ineficaz para problematizar o mundo que me cercava àquela altura. Sensação semelhante tenho agora, em novembro de 2025, diante da Doroteia do Gruta e é sobre essa sensação que gostaria de me concentrar nas linhas que seguem.
Diferente da proposta do Grupo Imundas que trabalha com uma livre adaptação despudorada do texto de Jarry, onde todo e qualquer fato social é apresentado sem nenhum verniz ficcional – articulação direta com a realidade, como no exemplo mencionado do então prefeito de São Paulo, João Dória –, o Gruta trabalha com a dramaturgia de Nelson em toda a sua potência. Desse modo, o que me é apresentado é uma encenação que centra suas forças na valorização de cada linha do texto rodrigueano, dramaturgia colocada em cena com a precisão e meticulosidade que marcam a trajetória do Gruta. Assim, sob a direção de Adriano Barroso, o elenco composto inteiramente por mulheres honra o legado de Henrique da Paz, criador do grupo e que sempre dedicou atenção técnica a esse aspecto, como me fora revelado em entrevista para minha pesquisa de doutorado realizada numa agradável manhã de abril de 2019:
Outra coisa que eu acho que é importante num espetáculo é o texto. Respeito muito o texto, no sentido de você trabalhar o texto, no sentido de você dizer o texto da forma mais impecável... isso sem descartar a emoção, claro. Mas o texto todo dividido, todo corretamente pausado - pausa, semi-pausa, os grandes silêncios, as modulações.
Eu concebo o texto como se fosse uma partitura musical. Então, as palavras, as letras... cada letra é um fonema, cada letra é uma nota, tem um som diferente; se tu juntas essas letras, tu já tens uma palavra que já é a música. Então, eu trabalho o texto muito assim. Eu gosto de ver essa cor, eu gosto de ver a música... não falar cantando, porque o vício das pessoas é cantar o texto. É foda isso. Enquanto o espetáculo não toma jeito com relação a isso, eu não estreio o espetáculo! (Henrique da Paz, transcrição da entrevista, 2019)
Toda essa atenção e cuidado com o texto, citados por Henrique, é dedicada as linhas, curvas e contornos presentes em Doroteia; e, a quase todo momento, o elenco mantém a dinâmica e extrai a teatralidade presente nas linhas rodrigueanas. Mas, curiosamente os traços absurdos das situações desenhadas por Nelson, o comportamento patético das personagens revelado pelos diálogos insólitos que travam e o quadro grotesco que surge desse conjunto não são capazes de me co-mover, de me chocar, de me estarrecer e, por meio de tal operação, me convocar para o riso social crítico. Então, vejo D. Flávia, Carmelita e Maura combatendo com veemência suas pulsões sexuais, como se entre elas estivesse estabelecido o pacto de uma espécie de "seita de todos os desejos reprimidos", parecem se vangloriar e disputar o título de mulher mais feia, mais casta, mais pura, mais reprimida... enfim, o quadro de potências míticas que retratam muito bem estruturas sociais encarnadas em nossa sociedade está todo lá, em cena, reforçado pela cenografia minimalista, figurinos e ambientação sonora incidental; mas, apesar de tudo isso, me domina a sensação de anestesiamento do riso social, do riso que provoca e convoca para reflexões sociais. É claro que não negligencio o fato da temática da obra se voltar diretamente para o feminino, a ponto das personagens masculinas serem abolidas completamente do texto e da cena. Mas não desejo ir por esse caminho, pois acredito que não é preciso ser mulher para ter empatia com as pautas e lutas femininas, compreender a importância e se colocar ao lado delas no campo de batalha. Logo, não quero confundir minha sensação de anestesiamento do riso social com algum tipo de mea culpa ligado ao tão visitado "lugar de fala", pois realmente não se trata disso, mas sim de uma sensação que encontra eco naquela impossibilidade de fabular em tempos tão conservadores e moralmente sombrios quanto o que vivemos.
Em outras palavras, como posso ficar estarrecido diante do trio de primas feias da obra de Nelson quando, num passado recente, a então Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro, Damares Alves, afirmou em alto e bom som, em simplificação patética para o problema da exploração sexual infantil nas ilhas do Marajó: "Especialistas chegaram a falar para nós que as meninas lá são exploradas porque elas não têm calcinhas, elas não usam calcinha porque são pobres." (declaração da ministra amplamente veiculada na mídia no final de julho de 2019).
Em outra ocasião, em outubro de 2022, a mesma ministra ainda repercutindo o assunto da exploração sexual infantil nas ilhas do Marajó, afirmou que crianças de três e quatro anos de idade teriam seus dentes arrancados para não morderem durante a prática do sexo oral e teriam sido obrigadas a se alimentar de comida pastosa para ter o intestino livre para o sexo anal[2]. Cobrada pelo Ministério Público Federal e Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) para apresentar provas das graves denúncias, Damares disse apenas ter "ouvido os relatos nas ruas do Marajó", mas nunca apresentou nenhuma prova.
Num passado ainda mais recente, outra representante do conservadorismo, a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, declarou e defendeu "ação colaborativa" entre homens e mulheres na política, cabendo ao homem o papel de "machão, gestor, administrador" e a mulher a condição de suporte e apoio com as "questões sociais"[3].
Eu poderia citar outros exemplos, até mais recentes, mas acredito que os três mencionados anteriormente sejam bastante ilustrativos do quanto a realidade atual se travestiu de elementos farsescos e grotescos, o que me gera a sensação de viver constantemente numa fábula horrenda, cujo roteiro, cada vez mais, reproduz e mimetiza todo e qualquer tipo de mitificação ultraconservadora capaz de gerar uma espécie de moralismo cristão distorcido e abjeto. Esse tipo de operação, em curso no Brasil pelo menos desde a eleição presidencial de 2018 – por isso fiz associação com a montagem de 2017, do Grupo Imundas – me faz pensar num novo tipo de "estetização da política" em curso na atualidade, diferente daquela denunciada por Walter Benjamin, em 1936, nos seguintes termos:
O fascismo tenta organizar as massas proletárias recém-surgidas sem alterar as relações de produção e propriedade que tais massas tendem a abolir. Ele vê sua salvação no fato de permitir às massas a expressão de sua natureza, mas certamente não a dos seus direitos. Deve-se observar aqui, especialmente se pensarmos nas atualidades cinematográficas, cuja significação propagandística não pode ser superestimada, que a reprodução em massa corresponde de perto à reprodução das massas. Nos grandes desfiles, nos comícios gigantescos, nos espetáculos esportivos e guerreiros, todos captados pelos aparelhos de filmagem e gravação, a massa vê o seu próprio rosto. (...) As massas têm o direito de exigir a mudança das relações de propriedade; o fascismo permite que elas se exprimam, conservando ao mesmo tempo, essas relações. Ele desemboca, consequentemente, na estetização da vida política. (1994, p.194-5; ênfases originais)
Mas, se naquela ocasião a "estetização da política" denunciada por Benjamin remetia a um projeto fascista que transformava a política em espetáculo estético oferecendo as massas uma espécie de "gozo estético" para mantê-las alienadas do cerne das questões revolucionárias, isto é, abolição das estruturas e relações de poder que as oprimiam, na atualidade as peças desse jogo se alteraram passando a operar quase que exclusivamente no plano da pauta moral. Nessa nova ordem de estetização política, quanto mais absurdo, grotesco e estapafúrdio for o relato, maior sua capacidade de reprodução sistêmica e viral nas mídias sociais; seja para contrapor o absurdo ou para encontrar viés de confirmação, o relato, factoide e/ou simplesmente fake News ganha rapidamente visibilidade e concentra toda a atenção nas questões morais, desviando, anestesiando ou eliminando completamente o debate das condições concretas que o mundo do capital nos submete hoje.
Assim, não é casual que Damares ou Michelle Bolsonaro falem e ajam com histrionismo barato, sem nenhuma preocupação com os dados da realidade, pois mesmo as instituições que, de alguma forma, lhes cobram provas dos absurdos proferidos, mesmo elas (as instituições) não estão preocupadas em trazer para o centro do debate as questões que porventura promovam alterações significativas nas relações e estruturas sociais, mas simplesmente agem para apresentar um verniz de consternação social ou, quando muito, estabelecer limites razoáveis para o debate público, sem nunca escapar das preocupações que giram em torno dos valores morais.
E então, observo que nos vemos enredados numa série de pseudo lutas para desmascarar essas operações de estetização política que se avolumam a cada dia, mas sem conseguirmos pautar a discussão com o que de fato deveria nos interessar como, por exemplo, a crítica a nova fase do projeto econômico neoliberal em curso que rege nossas vidas e que tem conseguido, com êxito, estagnar e/ou estrangular os serviços públicos e os setores estratégicos para o desenvolvimento da nação; temos um estado cada vez menor que precisa dar conta cada vez mais das demandas sociais reprimidas. Essa conta não vai fechar nunca, pelo menos não para nós que nos encontramos na base da estratificação social.
Minha sensação de desconforto e/ou anestesiamento diante da Doroteia do Gruta, portanto, passa por esse quadro maior que tentei esboçar aqui; uma articulação particular que fiz da obra com minha percepção de conjuntura. Mas, também é importante lembrar que Benjamin apresenta como alternativa de luta ao projeto de "estetização da política" o processo de "politização da arte" pelo qual é necessário que nós, artistas, façamos uso consciente e crítico das tecnologias de reprodutibilidade técnica e de nossa arte em favor do desmascaramento operado pela ideologia dominante. E aqui, certamente, a Doroteia do Gruta tem muito a contribuir – assim como a obra de Nelson Rodrigues – desde que se coloque como fronteira dessa luta sem que se deixe pautar pelos trilhos da "estetização política".
Novembro de 2025
[1] Ator e diretor teatral desde 1996; Coordenador do Projeto Tribuna do Cretino; Editor da Tribuna do Cretino: Revista de Crítica Teatral; Membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro AICT-Brasil.
[2] Se você tiver estômago pode conferir a ilustre ministra dizendo tudo, literalmente, no vídeo disponível no link a seguir: https://www.youtube.com/shorts/2R8ELQR38Zs
[3] Isso vale também para a fala de Michelle Bolsonaro que pode ser conferida no link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=Zv3Cs2NMlys
Referências
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.
SILVA, Edson Fernando S. Tribuna do Cretino. Vol. 04, N°07, Belém, 2021, pp. 11-13.
Ficha Técnica:
Dorotéia: A Farsa Irresponsável
Elenco:
Zê Charone
Mariana da Paz
Iracy Vaz
Alessandra Pinheiro
Krystara
Concepção Cenográfica:
Boris Knez
Montagem de cenografia e luz:
José Igreja (Zezinho)
Figurinos:
Ézia Neves
Élcio Lima
Produção de figurinos e customização de objetos:
Bach Sampaio
Costureira:
Verbena
Criação de luz e sonoplastia:
Isabella Bravim
Operação de sonoplastia:
Jon Rentes
Concepção de maquiagem:
Mariana da Paz
Social Media Designer:
Brunno Euller
Produção:
Zê Charone
Direção:
Adriano Barroso
Realização:
Grupo Gruta de Teatro
Apoio:
Centro de Dança Ana Unger
Tv Norte
Teatro Casa Saulo Sisnando
Casa Teatro Cuíra
Os Sentinelas
Agradecimentos:
Monalisa da Paz
Waleria Costa
Allan Carvalho
Mayra Paz
Edyr Augusto
Jerusa Lopes
Samia Gabriel
Aury Pastana
Brenda Gonçalves
Guaracy Junior
Eliana Fonseca
Alexandre Urquisa
Amarildo Natanael Pastana
Edgar Castro
Solange Seixas
Rafaela Paulo
Isabela Paulo
Manoela Paulo
Monielly Cristine
