O boto no olho de toda paisagem

25/07/2026

Montagem: Eu vi o Boto

3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA

Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179

Hudson Andrade[1]

O ipupiara é uma criatura descrita pelo historiador e cronista português Pero de Magalhães Gandavo, em 1576, como tendo cerca de 3 metros, cauda de peixe, pelos pelo corpo, dentes afiados e longos bigodes. Arrasta-se para fora e de volta para a água onde mora. Confrontado, ergue-se como um homem, emitindo guinchos pavorosos. O povo tupi lhe deu esse nome significando "o que está dentro da água". As expressões "homem-marinho" e "demônio marinho" também usadas demonstram um avançado processo colonizador. Essa criatura pode ser aquilo que, mesclado com outras histórias gerou uma das narrativas mais conhecidas das populações ribeirinhas amazônicas: o boto, do qual não preciso me aprofundar, posto ser algo de domínio público e notório. É importante, no entanto, dizer que os relatos que nos chegam não são apenas aqueles trazidos pela cultura dos povos originários, mas uma mescla com o pensamento do invasor português que, em seu processo de colonização, praticou sérias violências contra as mulheres indígenas por ele escravizadas. Essas violências – física, moral, sexual, patrimonial etc. – se perpetuam até hoje e são sustentadas por aquilo que vulgarmente se chama de "lenda do boto". Mesmo diante de um mundo extremamente tecnológico, com informações científicas disponibilizadas – ainda que pouco acessíveis para a maioria da população e demonizadas com vieses políticos extremistas – seguimos "acreditando" numa falácia para sustentar não apenas as violências, mas valores extremamente deturpados. O espetáculo Eu vi o Boto, da 3ª Mostra de Espetáculos de Formação – MEF, da EDTUFPA, com dramaturgia e direção de Babi Simões, fez a escolha de tratar a violência contra as mulheres (com uma transversalização na intolerância religiosa) a partir dessa mitologia. E o faz de forma confusa, porque inicia o espetáculo afirmando sua realidade para depois negá-la duas vezes, reduzindo essa narrativa às violências supracitadas. Não há aqui demérito nem escusas.

É importante também informar que Eu vi o Boto é resultado de um curso tecnológico ofertado pela UFPA, Produção Cênica. Grosso modo, o curso forma profissionais da direção teatral, com uma grade curricular que abrange diferentes áreas que permitiriam que diretores e diretoras tenham entendimento de todo o processo criativo de um espetáculo teatral, saindo da posição vertical de autoridade inquestionável da carpintaria de uma montagem cênica. Forçoso dizer que em três anos e meio de curso, com uma carga horária bem reduzida, é difícil aprofundar o que quer que seja, sobretudo quando as temáticas ocupam espaços mínimos na grade curricular. Um exemplo é a disciplina Dramaturgia, que tem carga horária total de 60 (sessenta) horas apenas. E destaco essa matéria porque a dramaturgia de Eu vi o Boto é sua estrutura mais frágil. Não há aqui demérito nem escusas. Por ser um curso de formação, a Produção Cênica precisa contar com docentes atentos a todo o conteúdo oferecido. Infelizmente isso não é verdade. Também não é "privilégio" da ETDUFPA que, como qualquer instituição de ensino, tem excelentes docentes, docentes e docentes que já "entregaram pra Deus" (não dispondo de advogado, serei eufêmico). Retomando o aspecto dramatúrgico, acho pertinente, válido e necessário que nossos artistas e futuros artistas sejam estimulados e estimuladas a escrever. Sempre, muito, excessivamente, desde o primeiro dia de aula e sobre qualquer coisa. É necessário criar um repertório e isso se faz com leitura de mundo, leitura, criticismo e reflexão. Desconhecendo como foi o processo de Eu vi o Boto, fico com a sensação desconfortável de que Babi Simões não recebeu a devida orientação quanto ao seu texto. Demérito? Escusas? Não sei. Mas não é à toa que produtores e produtoras locais afirmam que buscam fora até do Estado profissionais para seus trabalhos porque os locais não têm capacitação necessária. Minimamente uma inverdade. Mas.

A formação acadêmica por sua vez, não é para pessoas fracas. Acessar um espaço como esse e se contentar com o diletantismo, com a falta de estudo, com a negação sumária de toda uma base teórica em nome de uma desconstrução que não sabe nem o que está negando, questionar o conhecimento e a experiência de docentes por imaturidade – e não raro leviandade – é o que faz surgirem às mancheias os multiartistas que pululam pela cidade tão seguros de si quanto arrogantemente atacam seus professores e professoras. Não digo, pelo mínimo que conheço da Babi Simões, que esse é seu caso. Não creio que seja. Mas cito essas condições porque ela está inserida nesse contexto e é atravessada por ele, quer deseje, ou não. Todos e todas que lá estamos somos. E aqui não há demérito nem escusas.

Feita esta longa e proposital introdução, quem chegou até aqui acompanhe comigo anotações sobre Eu vi o Boto. E quero começar exatamente pela dramaturgia que eu reiteradamente citei acima. O texto do espetáculo é frágil, simplista e, para usar um termo comum na cena, panfletário. Ser panfletário é uma escolha. Ser frágil e simplista, não. É consequência (vide parágrafo 2). Cada vez que um personagem fala, solta aos borbotões frases feitas, clichês, slogans. A propositiva brechtiana de distanciar o personagem do e da atuante que narra estatísticas e considerações sobre feminicídio, abuso psicológico e sexual, extorsão, abuso de autoridade baseado em fundamentalismo religioso, intolerância religiosa e racismo, patriarcado, machismo, não se sustenta na medida em que apenas repetem o que os personagens já haviam dito de forma a não permitir que percebamos nuances nas figuras dramáticas. Além de que os e as atuantes não se distanciam de verdade, apenas interpretando alguém que narra um dado, criando uma outra cena. É uma escolha. Sem deméritos nem escusas. No entanto, esse caminho pode não encontrar eco numa população pouco educada, saturada por programas desnecessários como os tantos policiais da TV aberta que tratam esses e outros crimes de forma simplória e maniqueísta; pelo onipotente tribunal da internet, pela polarização política. Quando parte do público reage e aplaude durante a encenação não é por catarse, mas por REação. Um impulso semelhante àquele que temos ao apoiar um linchamento porque "já que a justiça falha vai soltar, é melhor cortar o mal pela raiz. Afinal, bandido bom..." A temática do espetáculo é sensível e imprescindível, mas o teatro não resolverá o problema do feminicídio e da violência sexual nas comunidades ribeirinhas. Nem é essa sua premissa. Mas é função política do teatro levantar essa questão mostrando todos os lados, suas minúcias, seus agentes, suas múltiplas causas, a fim de criar na assistência o sincero desejo de conhecer e AGIR. Teatro é ação. Dentro e fora dos palcos.

A cenografia é simples, mas eficiente. Não se pretende simbólica, mas igualmente não é realista. Trabalha-se com o que se tem e se tem muito pouco. Os trapiches são resultado do desmonte de uma estrutura de madeira que ficava numa tenda no estacionamento da ETDUFPA. Se é verdade que a penúria estimula a criatividade, também é justo que se ofereça o necessário. A iluminação consegue alcançar as muitas mudanças e espaços que ocorrem no desenrolar da apresentação, sem excessos. Objetiva. O que é um fato digno de nota, posto que a iluminação cênica é uma das últimas coisas que chega aos espetáculos da ETDUFPA (e de outros equipamentos da cidade), nos 45 minutos da prorrogação por pênaltis, o que provoca repetidas dificuldades para os trabalhos, nem sempre por responsabilidade técnica. É um grave problemas que sendo a Escola de Teatro uma instituição de ensino técnico, tecnológico e superior em artes cênicas, tendo um teatro como equipamento de ensino, não faça dele esse espaço com a devida propriedade.

Em tempo: Essa é sim uma crítica a um espetáculo teatral, mas não me parece justo dissociar minhas falas do contexto em que tal trabalho foi realizado, por risco de colocá-lo na injusta posição de algo "malfeito".

Voltando. As interpretações de atores e atrizes vaõ do incipiente, passando pelo frágil, até o possível. As escolhas da encenação não permitem grandes passos, por mais que se pretenda desenvolver uma prosódia, um corpo, posto que os personagens não têm camadas mais profundas e a dramaturgia (ela de novo) não pressupõe subtextos. A direção é firme. Se a proposta do curso é que os e as discentes de Produção Cênica saibam muito bem o que enfrentarão no mercado de trabalho, o objetivo foi alcançado. Babi Simões traçou sua linha e a seguiu com firmeza. Sem deméritos nem escusas. Posso garantir que segurou um búfalo à unha e é a maior responsável por ter conseguido apresentar Eu vi o Boto ao público de Belém. O que vimos em cena é o resultado do seu processo formativo, do seu repertório, da sua experiência de vida, dos seus desejos e valores. Nenhum demérito. Nenhuma escusa. Eu honro profundamente o que ela fez e teria muita alegria em trabalhar com ela.

Vida longa ao teatro universitário paraense.

E que vejamos mais e além do que os monstros e demônios com que insistem em nos assombrar.

Julho de 2026

[1] Ator, diretor teatral, dramaturgo e escritor. Atualmente é aluno do curso técnico de figurino cênico da ETDUFPA e coordenador do curso Atuação Cênica, com turmas de teatro semestrais com metodologia baseada nos estudos de Constantin Stanislavski e Jerzy Grotowski.

Ficha Técnica: 

Eu vi o Boto

Elenco:

Anne Satierf, Madu Sousa, Lariih Paes,

Wanderson Moraes, Walan Cardoso, Rafael Lima

Direção e Dramaturgia:

Babi Simões

Cenografia:

Ronald Almeida, Érica Góes e Diogo Lira

Maquiagem:

Laiza Bonifacio e Cibele Maciel

Figurinista:

Josiane Lima

Iluminação:

Diogo Lira

Músicos de Cena:

Priscila Cobra, João de Souza, Mateus Piedade,

Babi Simões, Cibele Maciel

Sonoplastia:

Maria Luz e Adriana Azevedo

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