O caos e a coragem de ser o que se é: notas sobre o espetáculo “E Quem Paga o Pato” – Por Ana Flávia de Mello
Montagem: E quem Paga o Pato?
Mostra dos Cursos Técnicos da ETDUFPA
Tribuna do Cretino - Vol.02-N°02-2026 / ISSN 3086-1179
Ana Flávia de Mello Mendes[1]
28 de fevereiro de 2026. Último dia do mês do carnaval. A Defesa Civil alerta: chuvas intensas em Belém do Pará. "Cuidado com o caos", pensei. Tive medo? Sim. Ainda assim, arrisquei sair de casa para assistir ao espetáculo E Quem Paga o Pato?, mais um trabalho resultante da desejada e pavorosa disciplina Prática de Montagem, que reúne estudantes dos cursos de Cenografia, Figurino e Intérprete-Criador em Dança da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará.
Saí preocupada com possíveis alagamentos em torno de casa, mas especialmente com aquele, já crônico, que se forma em uma das esquinas da Doca de Souza Franco a caminho da escola. Para minha surpresa, as ruas estavam tranquilas. Mal sabia eu, contudo, que o caos já estava instalado dentro da ETDUFPA. Ok, ok! Caos por lá não é nenhuma novidade, eu sei… Mas, desta vez, foi diferente. E não me pergunte o porquê. Não sei. Da mesma forma, não sei responder à pergunta que o espetáculo lançou no meu peito — embora desconfie de que os pagadores do pato sejamos nós, reles trabalhadores sem penduricalhos.
Militâncias à parte, a obra é um desbunde que estapeia o espectador com doses de realidade e deboche. A visualidade chega a ser surrealista, com uma potente colagem de cabeça de boiúna, cipós e raízes flutuantes de manguezal. A ambiência, para além do visual — apesar da paleta de cores terrosas —, lembrou-me o gesto criador de Jackson Pollock arremessando tintas ao acaso sobre suas telas.
Poderia ser também um happening, uma ballroom, uma roda de capoeira ou até uma juerga flamenca. A mí me gustan todas estas cosas, inclusive a aparente falta de lógica e a "desordem" que o roteiro fragmentado produz ao recontar a história do Brasil. Um verdadeiro e maravilhoso caos — no melhor sentido que ecoa a filosofia de Félix Guattari e seus coirmãos de pensamento sobre o ato de pensar. Pós-estrutura, pós-dramaturgia, pós-coreografia… Sei lá! Não consegui entender nada mesmo — como bem alertaram Contra e Regra, personagens que têm a função de alinhavar e fazer uma colcha de retalhos com os fragmentos de episódios históricos, referências múltiplas e pedaços da cultura amazônica presentes no espetáculo.
É mais ou menos assim: alguém que parece um pajé anuncia o início da encenação. Exu abre os caminhos no feminino-masculino de seus tridentes rústicos. Indígenas ritualizam o cotidiano, enquanto escravizadores em marcha rasgam seus corpetes e batinas, revelando vergonha, ridículo e hipocrisia. Entre encantarias em jetés, pirouettes e grand battements, surge um cisne. Não é branco nem negro… É ela: a dourada Oxum Marshelly, Anastácia liberta da máscara de ferro e adornada com filás de pedrarias, deslizando em reluzente baile pelo rio-mar até encontrar nossa querida Nazinha em manto cor de ouro. A mãe, pasme, traz no colo não o menino, mas uma menina dançarina de carimbó. Contra e Regra ensinam que ela se chama Belém, e ela baila entre promesseiros do Círio girando sua saia.
Na Amazônia pop, K-poppers são gente de colarinho que compra e vende flora e fauna. Oxóssi é um b-boy high-tech parido de alguma I.A. reflorestada. O caçador mata de amor uma onça-jaguar pintada de glitter. Teria ela saído direto do desfile das escolas de samba da festa tardia de Momo em Belém? Outra vez: não sei. Só sei que do carimbó ao xirê, forças ancestrais são evocadas para guiar, proteger e festejar.
E Quem Paga o Pato? é tudo isso e muito mais: escracho, cara de pau, estranheza, apologia ao erro e coragem de romper com os ideais de beleza e perfeição preconizados no mundo da dança. Aliás, é bom que se diga: o espetáculo transcende a própria dança. Nem mesmo suas complexas sequências coreografadas garantem a certeza de que se trata apenas de um espetáculo de dança. Aqui, como diria Pina Bausch, importa mais o que move o corpo do que como o corpo se move.
E o que move essa cena compartilhada em forma de pergunta? Difícil afirmar o que pulsa em cada criador dessa experiência cênica. No entanto, ao acolher a perspectiva coletiva do trabalho, sinto na pele a dor e a inquietação que atravessam aquilo que nós, brasileiros, somos: impuros, vira-latas de quinta categoria, bichos sem pedigree. Somos os pagadores de patos, os costas-largas, aqueles que levam o farelo e o destempero. Ainda assim, somos cheios de graça e força para transformar a falta de tudo em presença de arte, amor e vida. Sigamos!
01 de março de 2026
[1] Artista-professora-pesquisadora, doutora e mestra em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia e pós-doutora em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Ficha Técnica:
E Quem Paga o Pato?
Intérpretes-Criadores:
Anastácia Marshelly, André Sindor, Arth Morbach, Barahuna, Jean Silva, Jean Vitti, Julia Beatriz,Keron Reis, LEEA.H, Léo Gomez, Lourdes Martins, Luísa Gonçalves, Maisa Pires, Marcelo Rudolph, Reinaldo Brito, Renan Oliveira, Suelen Azevedo, Tayssa Monteiro, Túlio Araujo, Vinícius Baía, Wes Souza.
Orientação de Coreografia:
Eder Jastes.
Orientação de Cenografia:
Ju Bentes.
Cenógrafos:
Josi Braga, Reinaldo Netto.
Assistentes de Cenografia:
Milena, Cinthia Neves, Renato Sousa Darla Romeiro.
Orientação de Figurino:
Ézia Neves.
Figurinistas:
Fê Pinheiro, Izi.
Assistentes de Figurino:
Auxiliadora Costa, Darphine Santos, Ramon Calvo.
Apoio de figurino:
Waxel lifschiit, Victória Cavalcante, Thaise Farias, Inaê Nascimento, Paula Bastos, Babi Simões, Sidiane Nunes, Elaína Ferreira, Jacy Guimarães, Dani Negrão, Maria de Deus Marinho, Sdiyany Silva.
Coordenação de iluminação:
Iara Souza.
Iluminação:
Josi Braga e Reinaldo.
Sonoplastia:
Capela.
Direção da Escola:
Tarik Coelho, Grazi Ribeiro.
Coordenação do Teatro Cláudio Barradas:
Valéria Frota.
Equipe técnica do Teatro Cláudio Barradas:
Natasha Leite, Artur Mello, Jully Campos, Mac Silva, Gabi Nunes, Gilberto Almeida.
Mídia da Escola:
Bueno.
Marketing do Espetáculo:
Léo Gomes, Marcelo Rudolph.
