O Elogio da Loucura: Fragmentos em processos de construção.

25/05/2026

Experimento Cênico: O Elogio da Loucura

Solo Teatral de Claudia Maues 

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Adriana Gilzy Rêgo Azevedo[1]

O desafio de transpor clássicos da literatura filosófica como O Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, para a linguagem teatral reside na capacidade de transformar conceitos densos em corpo, imagem e ação. Na cena curta apresentada, um monólogo de aproximadamente dez minutos ainda em processo de pesquisa, a atriz Claudia Maués propõe uma personificação da própria Loucura, em uma livre adaptação de Erasmo de Rotterdam. Na obra original do século XVI, a Loucura narra sua própria origem como filha de Pluto (Plutão) e assume a palavra não como um defeito, mas como uma divindade benfeitora. Ela argumenta que é a responsável por mover as paixões humanas, a criatividade e as ilusões necessárias para aliviar os fardos da existência. Seu discurso, repleto de exageros humorísticos e alfinetadas brincalhonas, mantém inicialmente um tom satírico que evolui para críticas mais sérias e fúnebres, especialmente sobre os abusos supersticiosos e a corrupção da Igreja da época. O livro combina humor, ironia e erudição, refletindo a tradição humanista do Renascimento. No entanto, o experimento cênico proposto por Claudia equilibra-se em uma corda bamba entre o potencial estético da montagem e a fragmentação de sua dramaturgia.

Diferente da progressão orgânica estruturada por Rotterdam, a dramaturgia firmada por Claudia Maues se manifesta de forma fragmentada e assistemática. Enquanto na obra renascentista há uma condução linear que conduz o leitor da sátira à denúncia institucional, o experimento cênico da atriz opera por saltos temáticos acelerados. Em um curto espaço de tempo, a narrativa justapõe conceitos multifacetados: inicia-se na ancestralidade mítica da deusa, salta para indagações sobre a opressão das mulheres, recua para as fases do desenvolvimento humano, como o lirismo da infância e da velhice, e deságua em uma crítica sociopolítica contemporânea sobre a violência e corrupções. Essa multiplicidade de temas, agravada por mudanças bruscas de tom, acabou por diluir a força de cada argumento, gerando no espectador uma sensação de estranhamento e desconexão.

Compreendendo que se trata de uma obra em processo de experimentação e gestada em um tempo limitado, o diagnóstico definitivamente não invalida a potência da pesquisa, ou a capacidade da atriz de desenvolver o projeto, pelo contrário, é preciso enaltecer a urgência e a relevância da mensagem que Claudia busca transmitir, ao utilizar a loucura como uma lente corajosa para expor feridas sociais, esse propósito temático confere dignidade e peso político ao experimento, mas aponta para a necessidade de um polimento dramatúrgico.

Para que o monólogo amadureça, as peças desse quebra-cabeça textual precisam ser reordenadas, estabelecendo um fluxo. Uma solução prática para a estrutura seria organizar a narrativa em etapas bem delineadas: primeiro, a atriz estabeleceria a gênese mítica da Loucura e os dons que ela concede à humanidade, cativando o público pelo lúdico; em seguida, expandiria para um diagnóstico histórico de como o homem sempre usou o desvario através dos tempos; abrindo caminho para, então, desaguar no clímax da denúncia social sobre as violências contemporâneas. Esse percurso permitiria que o ato final surgisse como um desfecho lírico e impactante que permita ao público absorver a densidade crítica da proposta sem se perder no labirinto das transições.

Se a dramaturgia revelou o estado de esboço do processo, foi na concepção visual e sonora que a montagem revelou um bom potencial e promessa de evolução. O desenho de iluminação destaca-se pela inteligência cromática e simplicidade técnica: posicionada no centro do palco, a atriz é emoldurada por três refletores de LED, uma luz vermelha à sua esquerda, uma azul à sua direita e uma central em tom azul-claro. Esse jogo trifocal projeta três sombras distintas ao fundo que se fundem na cor roxa, criando um efeito belíssimo que materializa, visualmente, a fragmentação da loucura. Há aqui um campo de exploração cênica riquíssimo para o futuro do projeto: a atriz poderá, com o amadurecimento do ensaio, interagir e brincar mais diretamente com esses focos e com a projeção das sombras, utilizando os lados vermelho e azul para demarcar os diferentes estados emocionais da personagem.

O figurino, composto por um vestido simples e florido e coroado por um arranjo de flores na cabeça, constrói uma persona quase lírica que entra em contraste instigante com o aspecto misterioso da maquiagem. A pintura de "olhos" nas mãos e na testa da intérprete cria uma simbologia de onipresença e vigília, funcionando muito bem sob a luz de LED. Como ponto de ajuste técnico para as próximas apresentações, seria interessante repensar o eixo dessas pinturas: quando a atriz posiciona as mãos no rosto, os olhos desenhados acabam ficando na vertical devido ao movimento. Pintá-los verticalmente em relação à anatomia das mãos corrigiria essa distorção, garantindo o impacto ilusionista pretendido quando levados à face e harmonizando-os com os olhos biológicos na horizontal; outra alternativa seria ensaiar novas formas de posicionar as próprias mãos para que o efeito visual surja com maior naturalidade.

A atmosfera sensorial é complementada por uma paisagem sonora que busca referências consolidadas no imaginário poético do desvario. A cena é aberta e encerrada com a faixa "A Deusa da Loucura", de Oswaldo Montenegro (da trilha do espetáculo Noturno, de 1997), conferindo uma estrutura circular interessante à apresentação. No desfecho do monólogo, há ainda a citação textual de "Balada dos Loucos", dos Mutantes. Embora as escolhas musicais conversem diretamente com o tema, o uso dessas canções icônicas pode ganhar novas camadas de sofisticação. Em vez de moldarem o início e o fim de forma tradicional, essas melodias poderiam ser experimentadas em outros momentos da cena ou sob novos tons e intensidades, quebrando o didatismo e potencializando a ironia fina do texto de Roterdã.

Em suma, o experimento cênico de O Elogio da Loucura apresentado por Claudia Maues e dirigido por Elcio Lima revela-se um monólogo próspero, dotado de uma coragem temática admirável para um curto tempo de gestação. Embora a estrutura dramatúrgica ainda se apresente de forma fragmentada, a potência da mensagem e a sensibilidade das escolhas visuais, demonstram que a pesquisa possui uma base estética sólida para se desenvolver. Trata-se de um trabalho em construção de indiscutível valor que, ao reordenar seus fluxos e refinar seus detalhes técnicos, tem todo o potencial para se consolidar como uma obra potente, madura e de grande impacto na cena local. É um processo artístico que, sem dúvidas, merece e deve continuar.

Maio de 2026

[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;

FICHA TÉCNICA:

"Elogio da Loucura"

Solo Teatral de Claudia Maues

Direção:

Elcio Lima

Figurino:

Claudia Maués

Elcio Lima

Apoio:

Thiago Ramos

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