O sonho enquanto resistência.

13/09/2026

Montagem Teatral: O Eterno Combatente

Montagem: Solo Teatral de Yasmin Ramos

Tribuna do Cretino - Vol. 02 - N° 03 - 2026 / ISSN 3086-1179

Maria Luísa Rodrigues[1]

"O que é liberdade para você? Hein?!", interroga Levi. A criatura-criadora renasceu, tendo sua história contada por uma atuante da cena teatral paraense. O Eterno Combatente, enquanto solo, foi como um portal, que conduzia o espectador para os tempos vividos por Levi Hall de Moura.

A intensa pesquisa e dedicação dos envolvidos no projeto se refletia em cada pequeno detalhe. Nos objetos cênicos, na sonoplastia, na maneira em que a dramaturgia se desdobrou... resultado de noites e dias de trabalho. Todos os caminhos percorridos levaram a um espetáculo sensível, tocante e urgente, especialmente no período atual.

Levi Hall de Moura precisou sobreviver para poder se encontrar. O terror instaurado pela ditadura militar assombrou nossa população, ceifando milhares de vidas e atormentando outras, que tinham medo de deixar a vida e os laços que construíram. E Levi, que sonhava com liberdade, se viu amedrontado.

Não havia nada que lhe encantasse mais que as palavras. Teceu críticas teatrais e literárias, contou histórias e criou universos. No entanto, o que pode surgir de você se tudo o que seu olho vê é a repressão que te persegue? Que palavras ele poderia escrever, se o sistema o queria mudo?

A subversão se tornou, então, sua maior arma. Apesar do caos e da violência presentes no período do golpe, Levi continuou escrevendo. Continuou criando, sem nunca esquecer que a vida é um punhado de terra sobre um sonho.

"É preciso se organizar e lutar", Yasmin, a atuante e dramaturga do solo repetia. Durante o espetáculo, foi capaz de intercalar entre a voz do oprimido e a do opressor. Corporeidades diferentes, sensações diferentes para quem assistia.

Por instantes, ao vê-la interpretando a figura bruta e rígida do militar, pude sentir um frio na barriga. Os olhos pairavam sob os espectadores e eu, que estava lá, não pude ter outra resposta a não ser o choque e as rápidas desviadas de olhar. Era diferente da presença que ela tinha enquanto Levi.

Foi então que refleti que o teatro é sobre entrega. Sobre se doar para (re)viver histórias. No caso de O Eterno Combatente, acredito que o termo "reviver" não descreve o suficiente do que pode ter acontecido no processo da montagem. Reviver, remontar, buscar os pedaços que faltam. Sobretudo, jamais esquecer.

Com isso, retomo ao ponto que citei ao iniciar a crítica: a urgência de haver um espetáculo como esse em uma época como a nossa. Mais do que nunca, devemos perceber que os valores defendidos pela extrema-direita estão voltando a circular por nosso país. O absurdo vêm se tornando cada vez mais normal e, de pouco a pouco, estamos regredindo.

Não precisamos perder nossa liberdade de novo, e é exatamente essa a reflexão trazida pelo espetáculo. A dramaturgia escrita por Yasmin reitera que os tempos mudaram (e ainda podem melhorar), mas que, para isso, precisamos resistir.

Setembro de 2026

[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro- UFPA;

Ficha Técnica:

O Eterno Combatente

Direção geral, Dramaturgia, Produção e Atuação:

Yasmin Ramos

Direção Artística e Sonoplastia:

Rapha B. Rodrigues

Iluminação e Cenografia:

Júlia Favacho

Preparação Corporal:

Paula Bastos

Preparação Vocal e Figurino:

Evs Cris

Videomaker e Social Media:

Oséas Daniel

Artes, Design, Fotografia e Social Media:

Paulo Hugo

Apoio Técnico:

Rafa Takemura

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