O sonho enquanto resistência.
Montagem Teatral: O Eterno Combatente
Montagem: Solo Teatral de Yasmin Ramos
Tribuna do Cretino - Vol. 02 - N° 03 - 2026 / ISSN 3086-1179
Maria Luísa Rodrigues[1]
"O que é liberdade para você? Hein?!", interroga Levi. A criatura-criadora renasceu, tendo sua história contada por uma atuante da cena teatral paraense. O Eterno Combatente, enquanto solo, foi como um portal, que conduzia o espectador para os tempos vividos por Levi Hall de Moura.
A intensa pesquisa e dedicação dos envolvidos no projeto se refletia em cada pequeno detalhe. Nos objetos cênicos, na sonoplastia, na maneira em que a dramaturgia se desdobrou... resultado de noites e dias de trabalho. Todos os caminhos percorridos levaram a um espetáculo sensível, tocante e urgente, especialmente no período atual.
Levi Hall de Moura precisou sobreviver para poder se encontrar. O terror instaurado pela ditadura militar assombrou nossa população, ceifando milhares de vidas e atormentando outras, que tinham medo de deixar a vida e os laços que construíram. E Levi, que sonhava com liberdade, se viu amedrontado.
Não havia nada que lhe encantasse mais que as palavras. Teceu críticas teatrais e literárias, contou histórias e criou universos. No entanto, o que pode surgir de você se tudo o que seu olho vê é a repressão que te persegue? Que palavras ele poderia escrever, se o sistema o queria mudo?
A subversão se tornou, então, sua maior arma. Apesar do caos e da violência presentes no período do golpe, Levi continuou escrevendo. Continuou criando, sem nunca esquecer que a vida é um punhado de terra sobre um sonho.
"É preciso se organizar e lutar", Yasmin, a atuante e dramaturga do solo repetia. Durante o espetáculo, foi capaz de intercalar entre a voz do oprimido e a do opressor. Corporeidades diferentes, sensações diferentes para quem assistia.
Por instantes, ao vê-la interpretando a figura bruta e rígida do militar, pude sentir um frio na barriga. Os olhos pairavam sob os espectadores e eu, que estava lá, não pude ter outra resposta a não ser o choque e as rápidas desviadas de olhar. Era diferente da presença que ela tinha enquanto Levi.
Foi então que refleti que o teatro é sobre entrega. Sobre se doar para (re)viver histórias. No caso de O Eterno Combatente, acredito que o termo "reviver" não descreve o suficiente do que pode ter acontecido no processo da montagem. Reviver, remontar, buscar os pedaços que faltam. Sobretudo, jamais esquecer.
Com isso, retomo ao ponto que citei ao iniciar a crítica: a urgência de haver um espetáculo como esse em uma época como a nossa. Mais do que nunca, devemos perceber que os valores defendidos pela extrema-direita estão voltando a circular por nosso país. O absurdo vêm se tornando cada vez mais normal e, de pouco a pouco, estamos regredindo.
Não precisamos perder nossa liberdade de novo, e é exatamente essa a reflexão trazida pelo espetáculo. A dramaturgia escrita por Yasmin reitera que os tempos mudaram (e ainda podem melhorar), mas que, para isso, precisamos resistir.
Setembro de 2026
[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro- UFPA;
Ficha Técnica:
O Eterno Combatente
Direção geral, Dramaturgia, Produção e Atuação:
Yasmin Ramos
Direção Artística e Sonoplastia:
Rapha B. Rodrigues
Iluminação e Cenografia:
Júlia Favacho
Preparação Corporal:
Paula Bastos
Preparação Vocal e Figurino:
Evs Cris
Videomaker e Social Media:
Oséas Daniel
Artes, Design, Fotografia e Social Media:
Paulo Hugo
Apoio Técnico:
Rafa Takemura
