Os Alquimistas Estão Chegando.

21/07/2026

Montagem teatral: Alquimia: Os 7 Portões do Corpo.

Montagem: Espaço das Artes de Belém – Turma de Teatro Ritual/Artaud

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Anotações telúricas sobre o espetáculo "Alquimia: Os 7 Portões do Corpo"

Hudson Andrade[1]

Alquimia: Os 7 Portões do Corpo é um espetáculo teatral. Ou uma experimentação cênica, como prefere o seu diretor, Breno Monteiro. É uma obra de arte cênica.

Acho muito importante começar assim e me posicionar sobre como desenvolverei essa escrita. Como um homem de teatro, meu lugar de fala é nas artes cênicas nesse quesito em particular, então preciso começar dizendo alguns pontos que para mim são importantes.

Alquimia não é uma sessão de arte terapia. Não foi proposto nem executado por arte terapeutas. Alquimia é um espetáculo teatral.

Alquimia não é uma liturgia, posto que não foi oficiado pelo sacerdote, ou sacerdotisa de nenhuma denominação. Alquimia é um espetáculo teatral.

Alquimia promove sensações, desperta emoções, mobiliza reflexões. Alquimia é um espetáculo teatral.

Alquimia pode promover catarse? Pode. Afinal, é um espetáculo teatral.

Dito isso, podemos seguir com estas anotações.

O teatro enquanto ritual não está presente apenas em Antonin Artaud (1896 – 1948), poeta, ator, diretor, dramaturgo e roteirista de teatro francês. Sua obra O Teatro e seu Duplo é uma das referências mundiais do teatro. O polonês Jerzy Grotowski (1933 – 1999) também estudou essa vertente e afirmou que "O teatro é a única dentre as artes a possuir o privilégio da ritualidade.".

Quando pensamos em teatro, pensamos em ritual. Esse fenômeno está na sua origem e não estou apenas me referindo ao culto dionisíaco que originaria o teatro grego, mas a diferentes manifestações religiosas que possuíam sua própria poética, encenação, figurino, adereços, dramaturgia, etc... Grotowski percebe que não é possível retomar uma tal ritualidade do teatro porque seria necessário uma unidade entre religiões, público e elenco e isso não era possível. Não sendo provável a existência de um "ritual laico", Grotowski encaminha sua perspectiva e trabalho ritual para o corpo do/a atuante.

Em sua dissertação de mestrado, o professor Edson Fernando S. Silva aponta que quando se trata de Artaud, somos encaminhados geralmente a duas perspectivas: a primeira um culto sagrado que abrigaria variações de ações catárticas e outra, de premissa semiótica e filosófica (2011). Creio que as escolhas de Monteiro e sua equipe foram por esse primeiro caminho. O que se vê em cena são corpos que buscam uma gestualidade lânguida, uma sexualidade tântrica, elementos simbólicos, musicalidade e interação com a plateia na busca de estimular o corpo e a mente na direção de algo. Artaud não é fácil para ninguém e nem se preconiza que o seja. Quem deseja uma experiência artaudiana precisa mais do que estudar Artaud. Precisa vivê-lo. Precisa apreender seu teatro imagético; seu teatro tem uma função orgânica e para atingir a vida é preciso passar pelo corpo (ele de novo). O mundo de Artaud é efêmero como o próprio teatro, mas tangente ao real, o que exige que seja o mais verdadeiro e vivo possível. E isso tudo é muito complexo porque teatro enquanto arte não é realidade, mas sem realidade, verdade, organicidade, não se tem teatro.

Não se sabe o que acontecerá em uma sessão de Alquimia. Nada é dito no release e nada é explicado ao público de até doze pessoas que pode acessar a sala de espetáculos do EAB. E aqui um adendo importante: o Espaço das Artes de Belém é um espaço cênico e cultural muito significativo, com cursos e produções numerosas. Vale a pena conferir. Retomando: sentamos em três bancos longos de madeira e temos a nossa frente um altar coberto com tecido branco, iluminado. O elenco entra. A música começa e mais não direi para não quebrar a experiência de quem assistir ao espetáculo em outro momento. O que cabe dizer é que o espetáculo se desenrola em sete momentos, como o próprio nome sugere. Confesso que lá pelo quinto eu estava um tanto entediado porque a dramaturgia não possui nenhum momento apical. Ela inicia, desenvolve e encerra sem nenhuma curva, pachorrenta. A própria trilha sonora nos coloca numa condição quase de mantra. Quase, porque não se propõe meditativa. O momento em que há texto é o mais frágil de toda a encenação. Como um dramaturgo, uma pessoa apaixonada por texto e sua projeção, esse foi o momento que me incomodou. Em conversa com parte do elenco, descobri que é uma fala improvisada. Tenso. Para improvisar é necessário uma base muito sólida, um repertório enorme e uma habilidade técnica consistente. De qualquer forma eu me dispus e entreguei ao que me era oferecido sem reservas, sem empáfia, mas sem perder de vista que experenciava um espetáculo teatral, como frisei exaustivamente na introdução desse texto.

O Teatro Ritual pressupõe corpo. Um corpo vivo, dilatado, corpo-alma, corpo sem órgãos. Um corpo fora do corpo e estritamente ligado ao físico, ao material. O elenco tem esse corpo, mas tímido. Talvez algo tenha sido deixado de lado nas escolhas que culminaram na poética apresentada e isso não é bom nem mal, mas escolha e consequência. Talvez a perspectiva de um ritual numa dimensão mais teológica, mística, tenha deixado de lado o vigor de outros rituais, de deuses e deusas mais dinâmicos, dançantes, orgiásticos. Escolhas.

Alquimia: os 7 Portões do Corpo é um trabalho honesto. Corajoso, porque envereda por um caminho, uma teoria, uma prática incomum e espinhosa e mais amadurecido, trará resultados muito interessantes. Afinal, alquimia é, lato senso, a transformação da pedra bruta em ouro puro, e o teatro é, stricto senso, a vida.

Como diria Artaud: "Não concebo uma obra de arte dissociada da vida".

Julho de 2026

[1] Ator e diretor teatral. Participante do Minicurso "Crítica teatral e semiótica: estudos introdutórios" promovido pelo projeto de extensão TRIBUNA DO CRETINO em 2025;  

Ficha Técnica:

Alquimia: Os sete portões do corpo

Elenco:

Taymari Leão, Luiz Santos e Karlos Eduardo

Direção e Cenografia:

Breno Monteiro

Cenografia e Iluminação:

Lauro Sousa

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