Os Caixeiros – Iai, Viajou?

23/07/2026

Montagens em Teatro de Caixa: "Saudade do Sonho" – "Bonito, Não?" – "ReTratos"

Montagens: Coletivo de Animadores de Caixa 

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Luana Valadares Pantoja[1]

A experiência com o Teatro de Caixa me surpreendeu pela capacidade de provocar reflexões profundas utilizando poucos elementos cênicos. As três caixas apresentadas – "Saudade do Sonho", "Bonito, Não?" e "ReTratos" – abordavam temas distintos, mas todas estabeleceram um diálogo íntimo com o espectador, seja por meio da memória, da crítica social ou da sensibilização diante das questões ambientais.

A primeira caixa, Saudade do Sonho, foi a apresentação que mais me emocionou. A caixeira permanecia com a caixa acoplada ao corpo, na região do abdômen, estabelecendo desde o início uma relação de intimidade com a cena. No interior da caixa, uma luz amarela iluminava um pequeno boneco que parecia representar uma criança folheando um livro. Durante aproximadamente cinco minutos, apenas essa ação era realizada.

A simplicidade da proposta foi justamente o que lhe conferiu tanta potência. Sem falas, música ou grandes recursos cênicos, a apresentação criava espaço para que cada espectador acessasse suas próprias lembranças. A delicadeza da iluminação, do movimento e da composição despertava memórias afetivas ligadas à infância, mas essas memórias não precisavam ser necessariamente vivências diretas de quem assistia. No meu caso, por exemplo, a cena me levou às histórias que minha mãe contava sobre a infância dela e dos irmãos, quando viviam na Ilha das Onças. Embora eu não tenha vivido aquelas experiências, elas fazem parte da minha constituição, pois foram transmitidas por pessoas que ajudaram a formar quem sou hoje.

A integração da caixa ao corpo da caixeira reforçava essa dimensão íntima, como se aquelas recordações partissem dela e, ao mesmo tempo, encontrassem eco nas experiências, lembranças e heranças afetivas de cada espectador. Foi uma apresentação sensível, capaz de transformar um gesto mínimo em uma experiência profundamente emocional.

A segunda caixa, Bonito, Não? apresentava uma crítica ao desmatamento por meio de uma experiência profundamente sensorial. Diferentemente da primeira, a caixa era sustentada por um dispositivo cenográfico que remetia a um tronco de árvore consumido pelas chamas, elevando-a à altura dos olhos do espectador. A própria caixa também trazia, em sua pintura externa, marcas que evocavam o fogo, fazendo com que toda a composição visual remetesse à devastação provocada pelos incêndios e pelo desmatamento.

Dessa maneira, durante a apresentação, o caixeiro conduzia o público por meio da fala e da interação constante. Apenas ao final, afastou-se da caixa para perguntar a cada espectador qual árvore plantaria se tivesse essa possibilidade. Interpretei esse gesto como um convite para que deixássemos a posição de observadores e refletíssemos sobre nossa própria responsabilidade diante das questões ambientais.

A apresentação articulava fala, música, cheiros, estímulos visuais e até mesmo a escrita, envolvendo diferentes sentidos para provocar reflexão e desconforto. Quando fui questionada, respondi que plantaria um salgueiro, por associá-lo à resistência e à luta. Esse pequeno diálogo tornou a experiência ainda mais pessoal e reforçou a ideia de que cada indivíduo pode assumir um papel ativo diante das questões ambientais. A diversidade de linguagens utilizadas fortalecia a crítica e ampliava o impacto da apresentação.

A terceira caixa, ReTratos, abordava as relações de poder, a consciência de classe e os papéis ocupados pelos diferentes grupos sociais. A estrutura apresentava, na parte superior, figuras associadas ao poder econômico e político; na inferior, trabalhadores como professores, garis e profissionais da saúde. Durante a apresentação, aqueles que estavam embaixo tentavam ascender, mas eram constantemente derrubados pelas figuras do topo, em uma metáfora visual clara sobre as desigualdades sociais.

Ao lado da caixa também estavam imagens de personagens históricos ligados aos movimentos sociais e à defesa dos povos indígenas, ampliando as possibilidades de leitura da obra. Assim como em Bonito, Não? o caixeiro conduzia a experiência por meio do diálogo com o público, perguntando se reconhecíamos aquelas figuras e, principalmente, em qual posição da estrutura nos enxergávamos. Essa interação fazia com que a crítica extrapolasse a cena e convidasse cada espectador a refletir sobre seu próprio lugar dentro da sociedade.

De maneira geral, foi uma experiência extremamente inovadora para mim, especialmente enquanto atriz. O Teatro de Caixa mostrou que não é a dimensão da cena que determina sua potência, mas a capacidade de mobilizar o olhar, a memória e a sensibilidade do espectador. Em um espaço reduzido, cada apresentação construiu universos complexos, despertando emoções e reflexões por meio de recursos simples, mas cuidadosamente elaborados.

Saí dessa experiência enriquecida tanto como artista quanto como espectadora. As três caixas demonstraram que o teatro pode comunicar muito utilizando poucos elementos, desde que exista intenção, sensibilidade e um verdadeiro diálogo com quem assiste. Foi um encontro com uma linguagem delicada, inventiva e profundamente humana, capaz de transformar o pequeno em algo muito grande.

Julho de 2026

[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões: Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;

Ficha Técnica:

Saudade do Sonho

Atuação:

Mariléa Aguiar

Construção do Suporte e Traquinas:

Mariléa Aguiar

Argumento e Encenação:

Mariléa Aguiar

Realização:

Coletivo de Animadores de Caixa

Apoio Cultural:

Ateliê 705 – Casa de Bonecaria


ReTratos

Atuação:

Edson Fernando

Construção do Suporte e Traquinas:

Edson Fernando

Argumento e Encenação:

Edson Fernando

Edição de Trilha Sonora:

Solar dos Silva

Realização:

Coletivo de Animadores de Caixa

Apoio Cultural:

Ateliê 705 – Casa de Bonecaria 


Bonito, Não?

Atuação:

Aníbal Pacha

Construção do Suporte e Traquinas:

Aníbal Pacha

Argumento e Encenação:

Aníbal Pacha

Edição de Trilha Sonora:

Solar dos Silva

Realização:

Coletivo de Animadores de Caixa

Apoio Cultural:

Ateliê 705 – Casa de Bonecaria

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