Passarelas Azuis como comunicação holística da Vila da Barca
Montagem Teatral: Passarelas Azuis
Montagem: Curso de Iniciação Teatral da UNIPOP/2026
Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179
Luane Freitas Mendonça[1]
A apresentação Passarelas Azuis é o resultado do Curso de 2026 de iniciação teatral da UNIPOP, com dramaturgia de Hudson Andrade, inspirada no enfrentamento e lutas contra o racismo ambiental, direito socioterritorial periférico.
Quando falamos de racismo ambiental nos remetemos à floresta. No entanto falar de racismo ambiental que acontece bem aqui no centro da cidade traz à tona várias pautas, como: O que é racismo ambiental? Será que não sofremos racismo ambiental?
A cidade de Belém é predominantemente periférica, porém o que vemos é a elite tomando conta dos subúrbios, tirando seu povo de forma amigável ou não do seu território para fazer um centro de luxo para suas minorias escassas. Logo se vê o racismo ambiental socioterritorial escancarado na problemática do remanejamento dos moradores da Vila da Barca. Sim, Atualmente o governo quer remanejar os moradores da Vila dando um auxílio para à compra de outra casa, o chamado "compra assistida", porém o valor dado às famílias é irrisório para comprarem uma casa confortável no Telégrafo, que por vezes, suas famílias são grandes e não gostariam de sair do centro da cidade. A partir daí o dramaturgo e professor Hudson Andrade escreveu o texto da nossa peça, que foi dirigido por Bonely Pgnatario e Wanessa Grigolleto.
O acontecimento do processo se deu por irmos até à Vila da Barca, no Curro Velho, prestigiar trabalhos culturais e que contribuiram para nossas aulas de teatro, para termos mais contato com o local. Também assistimos uma reunião sobre a situação atual dos moradores da Vila.
Esse é o tipo de arte que me chama atenção pela sua dramaticidade dada a uma situação de opressão ao povo, onde vemos que a Arte, o Teatro, não só tem o poder de entreter como causar uma inquietação para informar, questionar e criticar situações de opressão, dando voz e protagonismo ao povo. Ainda mais se tratando de um assunto tão delicado que muitos desconhecem. Portanto, essa peça foi um grande canal de comunicação para as pessoas.
Passarelas Azuis fala mais que racismo ambiental, dá voz à um povo esquecido pelo resto da cidade, fala de união e da vida de cada um dos seus moradores, por pautar as dificuldades sociais que os afligem e como a pressão para sairem de suas casas deixa tudo pior.
Falar de racismo ambiental, além de ser um tema atual, e que por se tratar de algo que acontece aqui no nosso território, foi de extrema sensibilidade, pois trazer este tema à tona, que poucos conhecem a realidade dos moradores da Vila é no mínimo construtivo. Falar de temas sociais e políticos é sempre muito desafiador e exige muita coragem, e eu fico feliz de ter feito parte de tudo isso.
Ao longo do curso e da peça tive muitos aprendizados pessoais e uma grande evolução como atriz, fiz amigos que jamais esquecerei e me diverti muito.
Para a construção da peça fizemos experimentações com o texto. Acredito que durante essas aulas os diretores estavam avaliando para ver quem ficaria com cada papel.
Confesso que achei pouco tempo para toda a demanda, pois fizemos poucos exercícios de farsa e muitos deles já foram com o texto. Mas entendo que por questões de logística não teria como o curso ser mais longo.
Para mim decorar texto é sempre um desafio, pois não é meu forte. Quando eu soube que teria uma coreografia na peça, desde o começo eu pedi para fazer parte do ballet. Foi instintivo e muito rápido, depois fiquei me questionando se foi a melhor decisão pois a dança é algo que faz parte do meu trabalho e queria experimentar coisas novas, me desafiar e aprender. Mas fiquei feliz com o resultado.
A peça se passava em Humaitá onde o prefeito, pressionado por uma empreiteira, queria fazer do bairro um condomínio e estava pressionando os moradores a saírem de lá e até mesmo começou a obra sem a mudança e autorização de todos os moradores e isso estava causando vários transtornos para a comunidade. As cenas foram construídas entre moradores em conflito com as pessoas que estavam a favor da construção, como o funcionário e a célula do pastor Gabriel.
Eu fui uma das servas do pastor que estava ensaiando para o culto quando a Inaiê chega para resgatar seu filho de uma confusão com o pastor.
Fazer a serva traz uma visão holística sobre a peça pela sua multiplicidade em falar de vários assuntos, mostrou a faceta das igrejas por trás, para conseguir votos, dinheiro e interesses pessoais. Ao final da peça o pastor Gabriel tinha um abaixo assinado, assim como acontece por aí, a maior parte do povo estava com ele, como dizia Nelson Rodrigues: "Os idiotas vão dominar o mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade". Fico feliz em escrachar esse tipo de hipocrisia, essa peça fez justiça em meu ser.
E no final das contas tudo terminou como sempre, sem muitas mudanças e os moradores seguindo suas vidas como podem, não é atoa que Oscar Wilde disse que "a arte imita à vida", pois a muito tempo os moradores da Vila da Barca vem sofrendo racismo ambiental e pouca coisa muda. Se não fosse por sua resistência, viveriam pior. Acontece que não queremos viver de qualquer jeito, queremos dignidade, saúde, educação e respeito.
Agosto de 2026
[1] Atriz, professora e bailarina; cursando Pedagogia na Universidade Paulista - UNIP, sou atriz, professora e bailarina.
Ficha Técnica:
Passarelas Azuis
Elenco:
Adiel Lopes, Amarildo Pastana, Andy Silva Anna Luz, Biana Azevedo,
Dora Alves, Fernanda Bella, Maria Helo, Higor Tarveira
Bel Lopes, Ismael Souza, Jcalp, Jorge Moraes
Joseph Cruz, Leila Souza, Luh Mend's
Lufferr Costa, Negga Black, Nicolly Sena
Alex Gray, Paola Almeida, Tatiana Mira
Raio de Luar, Vini Serrão, SóWill Oliveira
Cenografia:
Walter D'Carmo
Auxiliar de Cenografia:
Andrei Souza, Lufferr Costa e SóWill Oliveira
Iluminação:
Wander Simões
Sonoplastia:
Roseane Pantoja
Figurino e Maquiagem:
Bonelly Pignatário
Assistência de Figurino:
Fernando Gomes e Nete Pamplona Auxiliar de figurinista: Vini Serrão
Coreografia:
Luh Mend's
Arte do Cartaz:
Alessandro Rocha e Danniele Gomes
Produção:
Alexandre Luz, Bonelly Pignatário e Wanessa Grigoletto
Assistência de Produção:
Fernando Gomes e Nete Pamplona
Dramaturgia:
Hudson Andrade
Direção:
Wanessa Grigoletto e Bonelly Pignatário
