Pastorinhas: a prova viva da resistência e de um legado de uma guardiã – Por Márcia Araújo Teixeira

Montagem Teatral: "Pastorinhas Filhas do Oriente"

Montagem: Ponto de Cultura Mestra Iracema de Oliveira

Tribuna do Cretino Vol.02-N°02-2026 / ISSN 3086-1179

Márcia Araújo Teixeira[1]

O ponto de cultura Mestra Iracema Oliveira apresentou nos dias 05 e 06 de janeiro de 2026, a "Mostra de Pastorinhas: Estrela do Universo, Filhas do Oriente, Filhas de Maria e Filha de Sion".

Esta análise terá o enfoque na apresentação das "Filhas do Oriente".

Já tinha ouvido falar sobre a trajetória e o legado da mestra Iracema Oliveira, mas não tinha tido a oportunidade de assistir, então ao saber que haveria apresentação fui ver de perto para ter a experiência, assim cheguei despretensiosamente e me deparei com uma estrutura pensada para o conforto tanto do elenco, quanto do público, raramente vista até em espetáculos tidos como maiores.

Havia uma tenda com um tamanho considerável sob seu abrigo, as cadeiras que formavam a plateia, ventiladores grandes, uma banda ao fundo, a frente um palco amplo o suficiente bem estruturado, limpo e numa altura que garantia a visão de todo o espaço.

A mestra Iracema Oliveira, explica que Pastorinhas é um drama pastoril ou Pastorinha Campestre, de religiosidade popular.

Feitas as apresentações, os primeiros agradecimentos, o espetáculo começa e o que se vê é um engajamento porque a comunidade da rua Curuçá participa, seja assistindo, seja ajudando ou não fazendo barulho durante as apresentações.

Para chegar até o local, pra onde você pergunta, todos sem exceção estufam o peito e dizem: "– Ahh Dona Iracema? Ela é a Rainha, vá reto, logo você verá a tenda"; prontamente tem alguém que complementa e diz: "– Vem comigo eu te mostro"; ou seja é visível o orgulho que todos sentem e isso é lindo de ver e de sentir.

Atores e atrizes, se misturam entre os que tem experiência e os amadores pertencentes a comunidade. Nessa alquimia há idosos, adultos, adolescentes, crianças de todas as cores, credos, há sensibilidade de ser inclusivo, pois tem tradução em LIBRAS, assim as pessoas são movidas por um legado, pela força da dramaturgia.

É importante ressaltar que é notório o exercício de formação de plateia naquele local, pois todos sabem a hora para falar, calar, assistir, aplaudir, incentivar quem esquece o texto, o pacto entre a encenação e a plateia é respeitado com naturalidade e para parecer natural isso é ensinado, justamente através da prática de assistir espetáculos com regularidade.

Outrossim, pouquíssimas pessoas mantiveram sua atenção nos celulares, a maioria incluindo os mais jovens estavam de fato atentos ao espetáculo, que nos dias de hoje prender o público é uma proeza, e eles conseguem.

Da Encenação

Considerando que se trata de um elenco de teatro amador, levando em conta que alguns sobem no palco pela primeira vez, foram surpreendentes.

Os atores presentes, absolutamente atentos, conseguiram dizer o texto de forma clara, o formato foi adequadamente preparado para ser ao ar livre, possuía opção dos atores usarem microfone ou não, o elenco deu conta do desafio, todos se mostraram inteligentes cenicamente.

Um elenco considerável, cada um, a sua vez, subiam ao palco: Aquiles Pavão dá vida ao anjo Gabriel, Anna Benchimol é Maria, José é Rodrigo Nascimento, Estrela é Ana Paula; Pastora, Ty Aguirre; Pastor, Bel Sérgio; Rei Baltazar, Rosa Rio; Rei Gaspar, Ricky; Rei Belquior, Kauê; Satanás, Anselmo Azevedo; Arcanjo Miguel, Caio Bentes. Na união de suas forças dramatúrgicas, com direito a entradas triunfais e a batalha épica entre Arcanjo Miguel e Satanás, contam a história do nascimento do menino Jesus.

Os figurinos muito bem construídos e acabados é um convite a mais para embarcar na dramaturgia a que se propõe.

A sonoplastia bem executada, em alguns momentos o volume do som era mais alto que a voz de alguns atores, o que era rapidamente corrigido, o que demonstra atenção na execução.

O cenário era simples com painel ao fundo e as cores do palco, do entorno obedeciam a paleta de cores no tom azul e branco.

O elenco conseguiu prender a atenção do público, boas risadas e aplausos calorosos, com alguns pontos a melhorar, por exemplo, a articulação e volume de voz de alguns; mas de um modo geral todos tiveram bom desempenho mantendo a sinergia, com postura cênica e volume de voz suficiente para que a plateia conseguisse compreender o texto.

A plateia diante da sinergia gerada por essa Trupe, não tem como não sentir a potência que essa equipe é.

Assim, debaixo de uma noite estrelada, com ventos gostosos, iluminados pela luz do luar, os Deuses do teatro juntamente com o Deus de Judah, abençoaram e foi lindo, sobretudo especial.

É imprescindível aplaudir de pé e conceder toda a reverência ao elenco, equipe e sobretudo a mestra Iracema Oliveira que leva esse legado da arte, que não é tarefa fácil, essa resistência é coisa de artista, coisa de guardiã.

Artistas são por excelência heróis da resistência!

Dona Iracema de Oliveira é a rainha merece todas as coroas, toda a reverência!

E você, vá ao teatro do seu bairro!!, Se não tiver vá ao ponto de cultura Mestra Iracema Oliveira!

13 de janeiro de 2026

[1] Estudante de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Pará; Atriz, diretora cênica, bolsista PIBIPA/2025 no projeto Tribuna do Cretino;

Ficha Técnica

Pastorinhas Filhas do Oriente

Produzido pelo ponto de Cultura da Mestra Iracema de Oliveira;

Pastorinhas é uma drama pastoril ou pastorinha campestre, origem na religiosidade popular

Elenco:

Anjo Gabriel - Aquiles Pavão;

Maria - Anna Benchimol;

José - Rodrigo Nascimento;

Estrela - Ana Paula:

Pastora - Ty Aguirre:

Pastor - Bel Sérgio;

Rei Baltazar - Rosa Rio;

Rei Gaspar - Ricky;

Rei Belquior - Kauê;

Satanás - Anselmo Azevedo;

Arcanjo Miguel - Caio Bentes,

Coordenação Geral:

Agenor Del'Valle

Direção:

Caio Bentes

Preparação de Elenco:

Caio Bentes

Sonoplastia:

José de Jesus de Souza(careca), Caio Bentes

Figurino:

Henrique Comessanha (in memorian)