Pedrinhas de Aruanda: Uma experiência de memória e pertencimento
Montagem Teatral: Pedrinhas de Aruanda
Montagem: Resultado da disciplina Técnicas Corporais II, apresentado pelos alunos do Técnico em Teatro da ETDUFPA, turma ingressante em 2025
Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179
Arthur Andrade[1]
Assistir a Pedrinhas de Aruanda[2] foi, antes de tudo, uma experiência de encontro. Desde os primeiros momentos, o espetáculo me provocou a sensação de estar diante de algo que não se limitava à representação de uma história, mas que se construía a partir de memórias, símbolos e experiências que atravessam a formação cultural de tantos sujeitos amazônicos. Inspirado na obra "Pedrinhas Miudinhas: ensaio sobre ruas, aldeias e terreiros", de Antônio Simas (2013)[3], o espetáculo, dirigido por Carmem Virgolino, percorre caminhos da memória afro-brasileira-amazônica, articulando ancestralidade, religiosidade, natureza, música, dança e corpo. Entretanto, sua potência esteve justamente na maneira como esses elementos deixaram de ser apenas referências e passaram a constituir uma experiência sensível e dialética diante da plateia.
A narrativa não se apresenta como uma história linear qualquer, e talvez seja justamente essa uma de suas maiores forças. A obra cênica parece construir uma espécie de mosaico de memórias, no qual diferentes imagens e manifestações culturais se encontram e estabelecem relações entre si. Rios, ancestralidades, capoeira de angola, boi-bumbá, negritudes, cantos populares, encantarias, círio de Nazaré, erê e orixás aparecem como partes de uma mesma travessia. Não há a intenção de apresentar uma Amazônia única ou homogênea, mas de revelar a complexidade de histórias que compõem a região e que, durante muito tempo, foram invisibilizadas ou contadas a partir de perspectivas que não correspondiam às experiências de seus próprios sujeitos, com tamanha brutalidade colonial.
Foi nesse aspecto que a experiência teatral me atravessou. Em diversos momentos, tive a sensação de que aquilo que estava sendo apresentado no palco não dizia respeito apenas a uma representação da cultura afro-amazônica, mas a uma memória compartilhada por muitas das pessoas presentes no Teatro Universitário Claúdio Barradas. Havia elementos que pareciam pertencer à experiência coletiva e, ao mesmo tempo, despertavam algo muito particular. Era como reconhecer, no corpo de outros, imagens que de alguma maneira também fazem parte da minha própria história e daquilo que compreendo como pertencimento amazônico.
A atuação foi fundamental para que essa experiência acontecesse. Os atuantes demonstraram uma presença cênica muito potente, utilizando o próprio corpo como instrumento de criação e de narrativa. Em diferentes momentos, era possível reconhecer a água, a rede, o urubu-rei, o erê e as encantarias a partir dos movimentos corporais. O que me chamou atenção foi justamente a capacidade de transformar o corpo em linguagem. Não era necessário que cada elemento fosse explicado; muitas vezes, o movimento, a postura, o ritmo e a relação entre os corpos eram suficientes para produzir uma imagem e permitir que o espectador completasse aquilo que estava sendo apresentado.
Essa construção corporal contribuía para que o espetáculo não se tornasse uma simples exposição de símbolos. Os elementos estavam em movimento, eram recriados e ganhavam novos sentidos a cada cena. O corpo dos artistas se tornava espaço de passagem entre diferentes temporalidades e formas de existência. Havia, naquele processo, algo que remetia à própria transmissão dos saberes ancestrais: aquilo que não se conserva apenas em livros ou registros escritos, mas que permanece nos gestos, nos cantos, nos rituais, nas danças, nas histórias e sobretudo, nos modos de viver.
A cenografia teve papel essencial nessa construção. O espaço cênico não funcionava apenas como pano de fundo para aquilo que acontecia diante de nós. Ele contribuiu diretamente para criar a atmosfera do espetáculo e, principalmente, para aproximar o espectador daquele universo. Em determinados momentos, tive a impressão de que a própria separação entre palco e plateia se tornava menos evidente. A cena parecia nos envolver e nos colocar dentro daquela travessia, estávamos para além de meros observadores daqueles acontecimentos, compartilhávamos, ainda que por alguns instantes, daquele território de memórias e encantarias.
O mesmo pode ser percebido na sonoplastia e na direção musical. Os sons e cantos não estavam presentes apenas para acompanhar as ações dos atores; eles ajudavam a produzir sentidos e conduziam emocionalmente a experiência. Havia momentos em que a música parecia preparar o espaço para aquilo que estava prestes a acontecer, enquanto em outros ela ampliava a força da própria cena. A sonoridade estabelecia uma relação muito forte com os corpos e com os elementos visuais, contribuindo para que a experiência se construísse de maneira integrada.
Ademais, a iluminação merece destaque nesse conjunto. As mudanças de luz, a maneira como os corpos eram destacados ou incorporados ao espaço e a atmosfera criada em diferentes momentos demonstravam um cuidado que ultrapassou a função de simplesmente iluminar a cena. Luz, cenário, música e atuação pareciam estar em diálogo permanente. Essa integração fez com que o espetáculo tivesse uma unidade estética muito forte, na qual cada elemento contribuía para a construção daquele universo.
Outro aspecto que considero fundamental é a presença dos orixás e a maneira como a espiritualidade aparece no espetáculo. Pedrinhas de Aruanda não trata a ancestralidade apenas como uma referência histórica ou cultural distante. Ela aparece como algo vivo, que continua atravessando o presente. Ao trazer essas figuras para o palco, a montagem também registra e reafirma uma trajetória afro-brasileira e afro-amazônica marcada por resistência, permanência e reinvenção. Há uma importância política e cultural nesse gesto, porque contar essas histórias também significa reconhecer os sujeitos que as mantiveram vivas apesar dos processos históricos de apagamento e marginalização.
Nesse sentido, o espetáculo me fez pensar sobre o próprio papel da arte enquanto espaço de preservação da memória. O teatro, nesse caso, não aparece somente como entretenimento ou como uma experiência estética. Ele se transforma em lugar de registro, transmissão e atualização de saberes. Ao colocar essas histórias em cena, Pedrinhas de Aruanda contribui para que elas continuem circulando, alcançando outras pessoas, além de estabelecer novas relações com quem as assiste. A arte passa a funcionar, portanto, como uma espécie de território onde a memória permanece viva.
Penso que foi justamente essa sensação de travessia que mais me marcou. Aquilo que estava sendo apresentado não parecia distante ou pertencente somente ao passado. Pelo contrário, em vários momentos eu reconhecia elementos que fazem parte da nossa realidade amazônica e que também atravessam a minha história. A experiência de assistir ao espetáculo foi, portanto, uma experiência de reconhecimento. Não apenas reconhecimento de símbolos ou manifestações culturais, mas de uma história que continua produzindo efeitos no presente e constitui aquilo que somos.
Entre todos os momentos do espetáculo, a finalização com Oxum foi uma das imagens marcantes. Depois de acompanhar aqueles corpos contando, cantando, dançando e dando forma a tantas histórias, ver Oxum se aproximar e acariciar cada um dos contadores de histórias produziu um sentido muito particular para o encerramento. Havia naquele gesto uma delicadeza que contrastava com toda a força apresentada ao longo da montagem. Parecia um gesto de cuidado e reconhecimento. Como se, depois de toda aquela travessia, fosse necessário também lembrar que a memória não se sustenta apenas pela resistência, mas pelo cuidado com aqueles que continuam carregando e transmitindo essas histórias.
Essa cena final permaneceu comigo justamente por sua simplicidade e por tudo aquilo que ela parecia dizer sem precisar explicar. Os que estavam em cena eram, naquele momento, mais do que personagens ou intérpretes: eram também aqueles que receberam uma história e que agora tinham a responsabilidade de fazer chegar até nós. E nós, enquanto espectadores, também passávamos a fazer parte dessa cadeia de transmissão, levando conosco alguma coisa do que havia sido compartilhado naquela noite.
Por isso, não consigo fazer esta resenha a partir de uma tentativa de avaliar o espetáculo apenas por seus aspectos técnicos ou de o classificar como bom ou ruim. O que consigo registrar é a experiência que ele produziu de forma singular e as reflexões que permaneceram depois que a apresentação terminou. Pedrinhas de Aruanda me deixou uma sensação profunda de contemplação. Fiquei pensando na força contracolonial que existe em contar essas histórias, em colocar esses corpos em cena e em reafirmar que tudo isso (saberes, memórias e encantarias) continuam e seguirão vivos.
Agosto de 2026
[1] Graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA); ator integrante do Núcleo de Artivismo Mequetrefes.
[2] Pedrinhas de Aruanda, espetáculo resultante da disciplina Técnicas Corporais II, apresentado pelos alunos do Técnico em Teatro da ETDUFPA, turma ingressante em 2025, sob orientação da professora Carmem Virgolino, e apresentado em 9 de julho de 2026, no Teatro Universitário Cláudio Barradas, durante a Noite das Encantarias.
[3] Simas, Luiz Antônio. Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros. MV Serviços e Editora LTDA-Mórula Editorial, 2013.
Ficha Técnica:
Pedrinhas de Aruanda
Atuantes:
Mayara Souza, Gabriel Anjos, Luis Carlos
Priscilla Rosa, Maya Rodrigues, Kamilla Pavão, Kadu Chaves,
Jairo Farias, Pedro Araujo, Caroline Vitória, Leonardo Sousa,
Samantha Pacheco, Inngryday Cristiny, Nazaré Figueiredo, Diego Pimentel,
Carolina Moref e Jonata Navegantes
Direção e dramaturgismo:
Carmem Virgolino
Direção Visual:
Juliano Bentes
Cenografia:
Érica Luana Carneiro Goes, Geane Leite Ferreira, Gisele Vieira da Silva,
Izabella Leão Silva, José Diogo Lira Costa, Marília Garcia Praia
Milena Santa Rosa Alves e Pedro Radhe Shyam Mendes Silva
Iluminação:
José Diogo Lira Costa, Érica Luana Carneiro Goes e Leonardo Sousa
Direção Musical:
Diego Vattos
Músicos de Cena:
Diego Vattos, Mainumy, Carmem Virgolino e Sam Rodrigues
Direção Vocal:
Mainumy
Assistência de preparação de elenco:
Júlia Hassegawa Moura
Produção:
Carmem Virgolino, Juliano Bentes e Mayara Souza
Assistente de Produção:
Wanderson Moraes e Agatha Souza
Identidade Visual:
Dylan
Maquiagem:
Carolina Moref
Fotografia:
Mayara Souza e Lorenzo Paixão
Comunicação:
Mayara Souza, Gabriel Anjos e Priscila Rosa
Fotos:
Elisa Beatriz
Mobile:
Lorenzo Paixão
Intérprete de libras:
Vinicius Oliveira
