Pelas Grades da Cela, Eu Vi Uma Realidade Cruelmente Livre
Montagem teatral: Barrela
Montagem: Atuação Cênica 2026.1 – Turma Stanislavski – Cia Nós Outros

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Eduarda Falesi[1]
Eu já começo dizendo que fiquei impunemente impactada desde o momento que me sentei na plateia, com a organização da cena: a claustrofóbica cenografia, o silêncio perturbador do público, os ruídos de esgoto da sonoplastia e a distribuição espacial dos atores amontoados entre si. A ideia de já receber e colocar a plateia no clima do espaço de cárcere foi uma preparação psicológica que o público precisava para se conectar com que estaria por vir.
Em relação aos atuantes, achei que o diretor foi certeiro na escolha dos personagens. Não sei se foi uma audição ou se foi pelo estereótipo de cada um, porém, senti que todos se entregaram muito bem aos papéis. Senti que todos defenderam bem seus personagens, mas destaco aqui o Marco Araújo (Bereco) pela presença muito forte no papel que lhe foi dado. Eu me senti dentro da história, dentro de um filme e dentro do Teatro. Vale ressaltar que todos sem exceção estavam presentes em cena, e isso era visível nos corpos inquietos, às vezes dilatados, às vezes sutilmente por algum gesto nas mãos, ou nos pés, ou no rosto, mas todos presentes em cena. As nuances no Marco, Walan e Ana estavam muito bem trabalhadas a meu ver de espectadora.
A iluminação manipulada por Isabela Bravim também estava muito bem calculada, o que foi essencial para nos fazer perceber a mudança de tempo e transições de cenas. Apesar do calor que os aparelhos de ar-condicionado desligados provocaram no espaço fechado e sem nenhuma outra ventilação, propositalmente idealizado pelo diretor, eu gosto da ideia de adotar essa experiência sinestésica, o que vale também para a escolha dos atuantes em não ter lavado os figurinos usados diversas vezes nos ensaios, o que é uma estratégia positiva a meu ver, para preparar ou colocar o atuante ainda mais imerso na construção da personagem no contexto da história.
O que mais me tocou e talvez uma das intenções mais importantes para capturar a atenção do público na peça, foi o clima de tensão do início ao fim. A plateia ficou atenta já prevendo que alguma desgraça iria acontecer. Particularmente, cenas de abuso sexual me incomodam bastante por ser mulher, por ter crescido com medo e passando por situações de vulnerabilidade e traumas desse tipo. Apesar da atriz Anna Mathis ter feito muito bem o papel do garoto playboy naquelas condições, ainda sim, para mim foi difícil não enxergar a mulher fazendo o personagem masculino. Isso porque eu me coloquei naquele estado de terror em ser uma mulher naquela condição. Talvez, se fosse realmente um homem naquele papel, eu teria uma outra visão, ainda sim dilacerada, mas sem identificação psicológica com a personagem. De qualquer modo, acredito que uma mulher fazer o papel de um garoto que sofre estupro dentro de um presídio foi uma sacada positiva para fazer todos, independente do gênero se sentissem dilacerados.
Assim como a escolha estética de como fazer a cena optando por apagar as luzes e o terror psicológico, o que sai da zona de espetacularização da violência, dói muito mais por mexer particularmente na imaginação de cada espectador, o que também se assemelha a forma como o teatro grego na antiguidade não mostrava explicitamente as cenas de violência, fazendo com que os personagens saíssem da cena e o coro narrava a fatalidade (como em Édipo, quando sua mãe se mata e não se vê a atriz em cena mostrando seu enforcamento, mas a cena é narrada por quem está no palco). Por esse cuidado com a violência visual e optar pelo psicológico (apesar de que na antiguidade eram mais por questões religiosas), ainda vejo as melhores escolhas para o cuidado com a plateia.
Por fim, fiquei muito feliz por presenciar a evolução dos colegas atores e o diretor ao seguir a linha dos clássicos brasileiros que continuam tão atuais quanto, trazendo elementos contemporâneos, escolhas de caracterização não estereotipadas, mas que fortemente são associadas a ideias de sujeira, ratos, condições desfavoráveis e muito presentes não só em cárcere, mas livremente nas ruas e calçadas que muitas vezes são ignoradas por nós.
Espero que o grupo continue buscando e fazendo com que cada espetáculo aconteça com o frescor do primeiro dia. Eu acredito que não existe um dia igual ao outro e assim como não podemos nos acomodar em cena, também não devemos nos acomodar em relação ao sistema falho que transforma os detentos em bichos movidos por instinto, intensificados pela crueldade que lhes foi dada, fora e atrás das grades.
EVOÉ!
Julho de 2026
[1] Discente do Curso Técnico de Teatro 2026 da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA). Atividade profissional: Atriz, Dançarina e Coreógrafa.
Barrela
Atuação Cênica 2026.1 – Turma Stanislavski – Cia Nós Outros
Da obra teatral de Plínio Marcos (1958)
Elenco:
Anna Mathis, Marco Araújo, Rafael Lima,
Taymari Leão, Walan Cardoso
Adaptação, Montagem e Encenação:
Hudson Andrade
Iluminação:
Isabela Bravim
Figurino:
Josiane Lima e Hudson Andrade
