Raízes, Afetos e Rimas: olhares (nem tão) estranhos sobre o teatro.
Montagem Teatral: Olhares Estranhos
3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Maria Luísa Rodrigues[1]
O teatro é uma arte que atravessa. Que, em algum momento, fará você encarar suas vivências de uma maneira diferente. E foi isso que senti no último dia dezoito de julho, quando assisti a montagem Olhares Estranhos.
Acredito que esse não seja um espetáculo para ser analisado de maneira rápida, dadas as diversas camadas que existiam na encenação. A vivência trazida pelos atores, as músicas, a visualidade… tudo deve ser visto com atenção.
Olhares Estranhos trouxe, para o palco do Barradas, a voz e a vivência da periferia. O diretor utilizou das rimas e do teatro para nos revelar narrativas esquecidas, muitas vezes marginalizadas pela sociedade.
Quanto à questão narrativa, penso que a história oscilou entre os pontos de vista de dois personagens: o do protagonista e o da mãe, que foi o que mais me atravessou.
Os elementos cenográficos deram a entender que a história se passava no início dos anos 2000. O rádio na mesa, o CD dos Racionais que estava nas mãos do protagonista… havia um certo quê de nostalgia ali. Algo sobre um passado que ainda vive e deixa marcas.
Na trama, acompanhamos as vivências de um jovem negro e periférico, que mora com sua mãe e convive diariamente com dúvidas e memórias em sua cabeça. Das memórias que habitam em seu ser, a mais dolorosa é a da morte de seu pai. Sangue derramado violentamente pelo crime.
"Todas essas esquinas me lembram seu pai.", disse a mãe, interpretada por Elaina Ferreira. O baque que tive ao compreender aquelas palavras foi forte, mas não superou o que veio depois. Em seguida, a personagem relatava que seria forte por seu filho, que queria vê-lo feliz e bem, mesmo com a ausência do pai.
Meus olhos começaram a marejar. Me vi lembrando de minhas vivências, enquanto moradora do Guamá e filha de mãe solteira. Lembrei de quando minha mãe me abraçava e dizia que eu deveria ser forte como ela. De quando ela ressaltou o quão importante é o estudo. Ela esteve comigo quando meu nome apareceu no listão da UFPA, comemorando.
Talvez esse seja um dos propósitos do teatro: provocar o espectador para que ele olhe para dentro. Criar mundos (ou retratar pedaços do mundo que já existem).
Agradeço ao Bobeli, diretor do espetáculo, por ter produzido uma obra tão sensível e necessária. Foi incrível!
Julho de 2026
[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro- UFPA;
Ficha Técnica:
Olhares Estranhos
Elenco:
Davi Henrique e Lasereiosa
Agatha Sou e Osga Mc
Direção:
Bobeli Arts (Leandro Sena)
Direção, Dramaturgismo e Produção (Montagens anteriores):
Jonata Navegantes
Orientação de Disciplina:
Paulo Santana
Assistência de Direção e Mídias:
Yasmin Ramos
