Raízes, Afetos e Rimas: olhares (nem tão) estranhos sobre o teatro.

21/07/2026

Montagem Teatral: Olhares Estranhos

3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA

Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179

Maria Luísa Rodrigues[1]

O teatro é uma arte que atravessa. Que, em algum momento, fará você encarar suas vivências de uma maneira diferente. E foi isso que senti no último dia dezoito de julho, quando assisti a montagem Olhares Estranhos.

Acredito que esse não seja um espetáculo para ser analisado de maneira rápida, dadas as diversas camadas que existiam na encenação. A vivência trazida pelos atores, as músicas, a visualidade… tudo deve ser visto com atenção.

Olhares Estranhos trouxe, para o palco do Barradas, a voz e a vivência da periferia. O diretor utilizou das rimas e do teatro para nos revelar narrativas esquecidas, muitas vezes marginalizadas pela sociedade.

Quanto à questão narrativa, penso que a história oscilou entre os pontos de vista de dois personagens: o do protagonista e o da mãe, que foi o que mais me atravessou.

Os elementos cenográficos deram a entender que a história se passava no início dos anos 2000. O rádio na mesa, o CD dos Racionais que estava nas mãos do protagonista… havia um certo quê de nostalgia ali. Algo sobre um passado que ainda vive e deixa marcas.

Na trama, acompanhamos as vivências de um jovem negro e periférico, que mora com sua mãe e convive diariamente com dúvidas e memórias em sua cabeça. Das memórias que habitam em seu ser, a mais dolorosa é a da morte de seu pai. Sangue derramado violentamente pelo crime.

"Todas essas esquinas me lembram seu pai.", disse a mãe, interpretada por Elaina Ferreira. O baque que tive ao compreender aquelas palavras foi forte, mas não superou o que veio depois. Em seguida, a personagem relatava que seria forte por seu filho, que queria vê-lo feliz e bem, mesmo com a ausência do pai.

Meus olhos começaram a marejar. Me vi lembrando de minhas vivências, enquanto moradora do Guamá e filha de mãe solteira. Lembrei de quando minha mãe me abraçava e dizia que eu deveria ser forte como ela. De quando ela ressaltou o quão importante é o estudo. Ela esteve comigo quando meu nome apareceu no listão da UFPA, comemorando.

Talvez esse seja um dos propósitos do teatro: provocar o espectador para que ele olhe para dentro. Criar mundos (ou retratar pedaços do mundo que já existem).

Agradeço ao Bobeli, diretor do espetáculo, por ter produzido uma obra tão sensível e necessária. Foi incrível!

Julho de 2026

[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro- UFPA; 


Ficha Técnica:

Olhares Estranhos

Elenco:

Davi Henrique e Lasereiosa

Agatha Sou e Osga Mc

Direção:

Bobeli Arts (Leandro Sena)

Direção, Dramaturgismo e Produção (Montagens anteriores):

Jonata Navegantes

Orientação de Disciplina:

Paulo Santana

Assistência de Direção e Mídias:

Yasmin Ramos

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