Registro de vivências pessoais, de um olhar pessoal sobre o espetáculo “As cinco pedras preciosas” – Por Luane Freitas

29/03/2026

Tribuna do Cretino - Vol.02 - Nº02 - 2026 / ISSN 3086-1179

Luane Freitas Mendonça[1]

O que dizer do espetáculo "As cinco pedras preciosas". Para mim foi um marco na minha história como bailarina, pois nunca dancei tanto nas pontas e foi meu primeiro pas de deux no palco.

"As cinco pedras preciosas" foi apresentado no teatro Cláudio Barradas ano passado em 2025 no mês de dezembro, resultado do projeto de extensão do curso básico de ballet clássico – CBBC.

O ballet se tratava de um conto de uma terra distante, pouco habitada, onde desbravadores da floresta saem em busca do conhecimento da natureza, mas de repente encontram pedras preciosas numa descoberta que parecia pulsar como um fragmento da própria natureza. Essas pedras carregam história antigas, cores profundas e energias distintas. Cada pedra revela um elemento fundamental: a coragem, a sabedoria, a resistência, a força, a transformação e o amor. Todos esses elementos são transformados em dança, numa contemplação de riquezas invisíveis que habitam cada indivíduo.

Não encontrei registros de onde é a região do conto, no entanto, por se tratar de floresta, acredito que seja da região amazônica ligada a uma crença xamã. Algumas religiões xamânicas como wicca e tribos de povos originários da Amazônia acreditam no poder da terra e que cada elemento da terra carrega uma energia, assim como as pedras preciosas do conto do espetáculo carregavam suas energias.

É interessante notar o recorte da nossa realidade à uma arte trazida da Europa. É de extrema sensibilidade, em específico esse espetáculo, que retrata os sentimentos e as energias através das pedras preciosas, se valendo das forças da natureza e do nosso legado enquanto floresta, enquanto povo xamã, para fazer arte, para trazer à tona o poder das pedras pois ainda hoje resistem algumas crenças amazônicas sobre tal assunto.

Desde o ensaio, sentimos muita dificuldade devido a COP 30 e pelo recesso, todos sentimos falta dos ensaios. Eu particularmente, não dançava havia algum tempo, muito menos nas pontas, eu sabia que ia ser um grande espetáculo, que iria ficar por muito tempo nas pontas, mas não tinha entendido a dimensão. Por muitas vezes eu pensei em desistir durante os ensaios, mas se deixarmos para depois acaba-se nunca dançando na espera de melhorar, de se preparar melhor… então eu só fui e me joguei de cabeça nesse espetáculo.

A professora Ana Cristina foi muito compassiva e inclusiva. Todos os bailarinos(a) tiveram a chance de mostrar seu talento, e seu assistente, Júnior Dias, muito didático e paciente, dono de uma energia incrível onde a cada novo passo fazia uma demonstração para nós. Eu fiquei surpreendida e extremamente honrada quando a professora me escolheu para fazer um pas de deux. Nos ensaios não foi difícil, no entanto no palco eu fiquei mais introspectiva e fiz os movimentos pela metade, na primeira sessão, porém havia outras sessões e eu disse para meu partner para ele ir mais devagar com os movimentos.

"– Calma, não é isso. Você só precisa confiar mais em si. Vai dar certo, você está indo bem". Foi o que ele me disse.

Minha coordenadora (de outro projeto que faço parte), me procurou também e disse para eu sorrir mais, que eu estava com expressão muito tensa e disse pra procurar curtir mais.

Seguindo esses conselhos, fui para segunda sessão e realmente me saí um pouco melhor, eu ignorei que tinha pessoas me olhando e procurei sentir mais a música e mergulhei nesse mundo mágico das pedras.

No camarim o João voltou a dizer "você foi melhor". Obrigada João e obrigada Thais, que me filmou e eu pude ver onde eu erro e, a partir daí, vou procurar ser mais simpática.

A partir das observações da Thais, observei as bailarinas experientes na coxia, fiquei extremamente encantada com o gran pas de deux de Kaline Guedes e Júnior Dias. Não pude deixar de notar as expressões da bailarina Kaline que apesar de sua técnica, o que mais me chamou atenção foi sua entrega no palco com sorrisos leves que transpassaram satisfação com o que estava fazendo, como se dissesse "eu sou a transformação e o amor". Além de sorrisos doces a bailarina exibiu expressões enigmáticas onde ficaria a critério do público a interpretação. Não que a bailarina não tenha técnica ou que a técnica não seja importante, mas o que quero dizer é que quando há realmente a entrega do artista, a técnica é plano de fundo pois quando fazemos com sentimento nossa arte somos capazes de provocar atravessamentos para além do questionamento técnico, mas sentir o que se faz, traz consigo uma verdade capaz de transportar o público para a cena. Nietzsche disse "para quem não ouve a música, a dança é loucura".

Eu ouço a música e quero e vou me entregar mais. Já estudei em outra época com uma professora que dizia: "– Sorriam. Pois, um sorriso vale mais que a perfeição". Portanto, sabendo que a perfeição não existe, eu sorrirei.

Por ter sido um ballet abstrato, possibilitou muitos bailarinos dançarem e aproveitar bem o palco, por tirar o foco de apenas um bailarino(a), como acontece na maioria dos ballet de repertório, como: Gisele, lago dos cisnes, quebra nozes, entre outros.

As pedras representadas no espetáculo foram: pedras de granada, turmalina, ametista, ágata e quartzo rosa. Os figurinos foram lindíssimos cada um representando uma pedra com sua cor respectivamente. Estava impecável o figurino do quartzo rosa, num tom único de cor de rosa. A parte de cima toda trabalhada em veludo que deu uma linda cintilância com a iluminação do palco, como verdadeiras pedras preciosas. Parabéns ao figurinista Marco Alcântara e Nei Braga, por pensar em cada detalhe e achar esses tecidos nessas cores tão incríveis. A maioria dos tuttus eram clássicos, o que gostei muito, acho que o sonho de toda bailarina depois de usar pontas é usar um tuttu clássico, eu particularmente, acho lindo. Depois do tuttu clássico quem ganha meu coração são as roupas esvoaçantes que dão um ar mágico e suave no palco, por isso também gostei muito do figurino das crianças no tom de azul e branco. O remonte de azul e por cima um tecido leve, transparente e branco deixou a peça incrível, o que não perdeu nada também para sua coreografia, que foi simples, por ser para crianças, no entanto, teve deslocamento no palco e sincronização. Todas entraram girando um dos braços passando pela segunda posição e preparatória com intenção de parar na terceira posição de braço, todas organizadas em fila. Para mim deu a impressão que estavam apresentando ao público sempre a próxima coreografia, elas entraram aproximadamente duas vezes no palco.

Ouvi alguns comentários de que acharam a coreografia simples demais. Porém, o que os pais têm que entender é que são apenas crianças, não dá pra exigir muito, por mais que o professor(a) queira colocar mais técnica, tem que entender o tempo de aprendizagem da turma. Ainda sim apesar de simples foi uma bela performance.

O corpo de baile do quartzo rosa, (que foi o que eu dancei), entrou bastante no palco e a cada performance dançamos cada vez mais, as coreografias foram bem dinâmicas, com movimentos leves, delicados e valsados, usamos bastante a terceira posição de braço e fizemos muitos soutenu, movimentos bastante característico do ballet.

O cenário foi simples, apenas uma panada vermelha atrás, muitas vezes, nós, as próprias bailarinas, fizemos o cenário. Por ora, ficamos enfileiradas, paradas em dégagé e as vezes fazendo pequenos movimentos de acordo com os movimentos dos bailarinos do centro. Como dito antes, foi um ballet abstrato e estávamos representando pedras, então poucos elementos eram necessários para fazer este cenário minimalista. No entanto, de acordo com o libreto, na minha leitura, ficaria interessante uma panada de floresta indicando que nós, pedras, tínhamos sido achadas no escuro do interior da floresta. Uma linda panada de floresta verde, sobre a Lua cheia, mas uma lua tão cheia que brilha um leve dourado, em um céu bem estrelado, localizada bem no centro de uma estrada de terra como de uma trilha e de cada lado da trilha, com árvores fortes de raízes profundas e troncos grossos, típico da nossa região.

Foi um lindo espetáculo indecifrável, misterioso, intangível, conceitual. Eu fiquei satisfeita com o conjunto da obra, entretanto eu como bailarina preciso melhorar, pretendo participar de outros ballet's do projeto e assisti-los também. Parabéns a todos que participaram de alguma forma do espetáculo bem como também a cenografia, sonoplastia e iluminação. Eu não citei mais acima, mas é de extrema importância para o conjunto da obra e estão todos de parabéns. Parabéns a professora Ana Cristina por sua personalidade autêntica em criar ballet's, pois apesar de idas e vindas da dança clássica aqui no Pará a professora nunca deixou de acreditar na sua arte e tem feito lindos ballet's na nossa região. É de grande prazer fazer parte do projeto e ter sido sua aluna no técnico.

Março de 2026


[1] Texto de Luane Freitas Mendonça de nome artístico Luh Freitas; aluna do projeto: Curso Básico de Ballet Clássico - CBBC

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