Sagração da Floresta:Ritual, Dança e Renascimento da Natureza – Por Elcio Lima
Montagem: Sagração da Floresta.
Mostra Cênica dos Cursos Técnicos da ETDUFPA.
Tribuna do Cretino - Vol.02 - N°02 - 2026 / ISSN 3086-1179
Elcio Lima Corrêa[1]
Muitas criações recentes passaram a erguer bandeiras verdes sobre o palco. Multiplicam-se montagens que anunciam compromisso com preservação ambiental e ancestralidade, como se bastasse alinhar termos sedutores nos formulários de projeto, "sustentabilidade", "consciência ecológica", "natureza", "saberes ancestrais", para que a engrenagem da aprovação gire com facilidade. Em diversos casos, porém, percebe-se mais oportunismo do que convicção. O discurso surge pronto, reluzente, mas raso; bonito na superfície e silencioso na memória. A evocação da herança ancestral vira senha simbólica repetida à exaustão, frequentemente esvaziada de profundidade. A apresentação termina, as luzes se apagam, e quase nenhum vestígio permanece na cabeça de quem estava na plateia.
A mata, contudo, pede outro tipo de escuta. Não é apenas tema, existe algo de sagrado no instante em que a floresta respira antes da chuva, na paciência com que um rio desenha seu percurso, no balé invisível das folhas quando o vento atravessa a copa das árvores. Povos originários compreendem isso há séculos. Ali, o mundo não funciona como cenário; trata-se de uma entidade viva, digna de reverência.
É nesse território simbólico que Sagração da Floresta encontra vigor. Sob a direção de Mayrla Andrade e Eleonora Leal, a linguagem do balé clássico abandona o gesto meramente ilustrativo e abraça uma espiritualidade coreográfica em que corpos parecem brotar do chão, como raízes despertando movimento. Braços se transformam em galhos, giros lembram redemoinhos de sementes, saltos evocam criaturas aladas. O palco ganha contornos de território ritual, lembrando que preservar não significa apenas proteger matéria orgânica, mas reconhecer o mistério que sustenta a vida. Nesse momento, a dança deixa de ser ornamento e se converte em oferenda, uma celebração delicada da ligação entre humanidade e terra.
A força dessa construção também aparece no contexto em que o trabalho nasce. Sagração da Floresta integra a Mostra Cênica dos cursos técnicos da ETDUFPA, reunindo estudantes de Dança Clássica, Figurino Cênico e Cenografia. O encontro entre essas áreas evidencia a potência de uma formação artística coletiva. Mais do que exercício pedagógico, o resultado se afirma como criação sensível, fruto de diálogo entre diferentes saberes da cena.
A proposta dialoga diretamente com o clássico A Sagração da Primavera, apresentado em 1913, com música de Igor Stravinsky e coreografia original de Vaslav Nijinsky. A obra tornou-se um marco na história da dança e da música do século XX. Na estreia, provocou escândalo ao propor ruptura estética radical: ritmos intensos, gestos angulares e uma dramaturgia inspirada em rituais pagãos ligados ao renascimento da terra. Na narrativa original, uma jovem é escolhida para dançar até a morte como oferenda ao solo, sacrifício que simboliza renovação e fertilidade.
A visualidade do espetáculo envolve desde o primeiro instante. Nas extremidades do palco, árvores de raízes longas desenham uma espécie de corredor vegetal que conduz o olhar para dentro de um território quase cerimonial. Troncos estilizados sugerem profundidade, enquanto ramificações parecem procurar o chão e o céu ao mesmo tempo, criando atmosfera que mistura abrigo e mistério. Nesse cenário, folhas gigantes deslocam-se com as bailarinas de um lado a outro, num vaivém hipnótico que lembra entidades de dupla face: ora vegetação viva, ora presença encantada que observa quem passa.
Sob iluminação sensível, intérpretes cruzam o espaço como borboletas luminosas, despertando sentidos e revelando texturas, brilhos e transparências. Cada agrupamento traduz um elemento natural: o solo surge em tonalidades terrosas; a mata vibra em verdes profundos; a flora e fauna explode em matizes delicados; as águas aparecem em tecidos fluidos e reflexivos. Juntos, esses corpos e materiais criam algo próximo de uma pintura em movimento, ligeiramente borrada pelas passagens coreográficas, mas intensamente viva. O resultado enche os olhos e transforma o palco em paisagem sensorial.
A assinatura dos figurinos fica a cargo de Igor Quadros, Rafaela Cruz e Isaac Machado, e o trio demonstra cuidado minucioso ao traduzir elementos da floresta em matéria cênica. Tecidos leves, muitos deles tingidos manualmente, aparecem como superfícies orgânicas que parecem carregar marcas do tempo e da terra. Sobre essas bases delicadas surgem bordados, retalhos e pequenas pedrarias que lembram nervuras de folhas, fragmentos minerais ou gotas capturando luz.
Esses recursos se conectam com harmonia evidente, revelando processo criativo atento à textura, ao deslocamento e ao simbolismo. O encontro entre costuras artesanais, cores naturais e detalhes cintilantes coloca o talento do trio à prova, resultando em um conjunto delicado e expressivo. Há beleza na sutileza dos materiais, mas também força na maneira como cada figurino contribui para a construção de um universo simbólico maior, no qual corpo e paisagem parecem pertencer ao mesmo organismo.
Pouco a pouco, toda essa arquitetura visual se funde ao movimento dos intérpretes e transforma a montagem numa verdadeira ode à floresta. Árvores, folhas e cores deixam de ser apenas cenário ou adorno para encontrar continuidade nos gestos coreográficos. Corpos deslizam, ondulam e se entrelaçam como se fossem extensões da própria paisagem. Em certos momentos lembram vento atravessando copas; em outros, o fluxo silencioso de um igarapé ou o pulsar subterrâneo das raízes. Nesse encontro entre imagem e gesto, a dança revela sua potência singular: despertar sentidos e provocar reflexão por meio de uma verdadeira partitura corporal. Cada deslocamento e cada pausa desenham no ar uma ideia que dispensa palavras. O corpo torna-se linguagem capaz de sugerir ciclos, fragilidades e permanências, lembrando que a floresta não é apenas paisagem distante, mas organismo vivo do qual também fazemos parte.
A música orquestrada que embala a coreografia funciona como corrente invisível que conduz atmosfera e respiração da cena. A trilha cria um clima de mistério e expectativa, envolvendo o público numa permanente sensação de escuta. Cada entrada sonora parece abrir clareiras imaginárias por onde os intérpretes transitam, ora em tensão silenciosa, ora em expansão delicada.
Também merecem destaque os acessórios concebidos pela cenografia assinada por Iara Souza, assim como máscaras e adornos de cabeça elaborados pelos figurinistas. Esses elementos surgem como extensões expressivas das personagens, acrescentando novas camadas de sentido e reforçando a dimensão ritual que atravessa a montagem. Percebe-se cuidado evidente na maneira como cada detalhe conversa com os demais, figurino, cenário, luz, movimento e música, formando uma engrenagem sensível em que nenhuma parte parece isolada. Apesar das dificuldades naturais de qualquer processo criativo, o conjunto chega ao palco com surpreendente coesão.
Ao se inspirar numa matriz histórica, Sagração da Floresta desloca o eixo do sacrifício para a consciência ecológica e espiritual. Em vez de um rito de morte, o desfecho sugere chamado à regeneração, transformando a herança simbólica da obra de 1913 em reflexão contemporânea sobre o cuidado com o planeta.
Um ponto a ser observado é como a relação entre o sagrado da mata e o feminino atravessa a criação como sopro silencioso. A natureza surge não apenas como paisagem, mas como princípio gerador, matriz de vida, território de fertilidade e transformação. Nos corpos das bailarinas, esse vínculo aparece em gestos que evocam acolhimento, força e mistério, qualidades historicamente associadas às potências femininas presentes em mitos e cosmologias ligadas à terra. A floresta, nesse sentido, surge como ventre simbólico: lugar onde tudo germina, se renova e encontra abrigo.
No final, a cena assume contornos de rito de passagem. As intérpretes repetem a palavra cura, como eco que reverbera entre gestos e silêncios. Pode ser regeneração da mata ferida, reconciliação do ser humano com suas origens ou restauração da própria existência em seus ciclos de perda e renascimento. A repetição ganha dimensão quase cerimonial, como se cada corpo participasse de uma liturgia simbólica de reconexão reforçada pela conexão criada com o público. A obra encerra sem respostas fechadas, mas com um convite claro: lembrar que regenerar o planeta, e também nossa sensibilidade, começa quando reconhecemos que fazemos parte do mesmo organismo vivo.
Vale ressaltar que num tempo em que tudo se consome em telas minúsculas e clipes de poucos segundos, um espetáculo de dança continua a ter o poder de cutucar a alma de quem está presente. Streaming e feed infinito ensinaram o público a esperar gratificação imediata, likes e cenas rápidas que desaparecem em segundos, tornando qualquer experiência profunda algo quase insuportável de digerir. É nesse cenário que a dança ao vivo se revela subversiva: não oferece botão de pausa, não permite replay instantâneo, não tem filtros que suavizem o impacto. Ela exige presença, atenção e, acima de tudo, entrega, coisas que a era digital pouco incentiva.
O espetáculo segue em cartaz no Teatro Universitário Cláudio Barradas até domingo (08/03), sempre às 19h.
07 de março de 2026
[1] Elcio Lima Corrêa é diretor do Grupo Presságio, figurinista e Professor licenciado em Teatro; também colabora com o Projeto de Pesquisa O Clown Nosso de Cada Dia e com o Projeto de Extensão Tribuna do Cretino.
Ficha Técnica
Sagração da Floresta
Elenco:
Celina Borges, Esther Lourinho, Camillyer,
Thamili Guimarães, Keila Ferraz, Bianca Lemos,
Alicia Azulai, Paola Tabaranã, Mayse Carvalho,
Isabelly Aguiar, Raissota, Carina Moraes,
Samilly Reis, Amélia Tavares (Bambi),
Gabriela Costa Figueiredo e Manuelle Sousa
Direção:
Mayrla Andrade e Eleonora Leal
Coordenação de Figurino e Maquiagem:
Micheline Penafort
Figurinistas:
Igor Quadros, Rafaela Cruz e Isaac Machado
Assistentes de Figurino:
Geovane Trindade, Maria Celeste, Dani Negrão
Apoio de Figurino:
Raphael Arkanjo
Coordenação de Cenografia e Iluminação:
Iara Souza
Assistentes de Cenografia
e Iluminação:
Ana Clara Mata, Isabela
Leão, Michx e Edilma Barros
Adereços:
Ronald Quadros de Almeida
