Teatro Bruto e Teatro Sagrado em diálogo com o espetáculo “Grande Sertão: Veredas” – Por Karine Jansen
Tribuna do Cretino - Vol.02 - N°02 - 2026 / ISSN 3086-1179
Karine Jansen[1]
O pensamento teatral de Peter Brook, especialmente desenvolvido em obras como O Espaço Vazio e O Ponto de Mudança, apresenta diferentes modos de compreender a cena. Entre eles destacam-se o teatro bruto e o teatro sagrado, duas categorias que, embora distintas, podem coexistir dentro de uma mesma criação cênica. Ao observar uma encenação de Grande Sertão: Veredas, especialmente em contextos de teatro contemporâneo e universitário, como no espetáculo da Escola de Teatro e Dança da UFPA, é possível perceber como esses dois conceitos dialogam com a poética da obra de João Guimarães Rosa e com a construção da cena.
O Teatro Bruto: Energia, Vitalidade e Presença Popular
Para Peter Brook, o teatro bruto é aquele que nasce da vitalidade do mundo. Ele não se preocupa com refinamentos formais ou com uma estética excessivamente polida. Ao contrário, sua força está na energia direta, na fisicalidade, no humor, na violência e na vitalidade popular. É um teatro que pode ser desordenado, ruidoso e até mesmo caótico, mas que possui uma verdade pulsante que conecta diretamente atores e espectadores.
No universo de Grande Sertão: Veredas, essa dimensão se manifesta de maneira intensa. O romance de Guimarães Rosa apresenta um sertão atravessado por conflitos, batalhas, vinganças e disputas entre bandos, onde a vida é marcada pela dureza do mundo e pela sobrevivência. Quando transposto para a cena, esse ambiente cria um espaço de forte intensidade física: corpos em confronto, deslocamentos constantes, tensões entre personagens e um ritmo que remete às travessias e às guerras jagunças.
A presença dos bandos, como o de Riobaldo/Diadorim e o de Hermógenes, reforça essa dimensão bruta. O coletivo de atores em cena, muitas vezes em movimento, cria imagens de combate, perseguição e resistência. Nesse contexto, o teatro bruto se manifesta na corporeidade dos atores, na oralidade da linguagem rosiana, na musicalidade popular e nas ações diretas, que evocam uma teatralidade próxima das manifestações populares brasileiras.
Essa aproximação também pode ser percebida quando a encenação dialoga com elementos do teatro popular, como cantos, ritmos tradicionais e uma relação direta com o público. Brook afirmava que o teatro bruto possui algo de feira, de festa popular, de encontro coletivo. No caso de Grande Sertão: Veredas, a cena pode assumir essa dimensão de ritual popular onde a narrativa é compartilhada como uma experiência viva.
O Teatro Sagrado: A Busca Pelo Invisível
Em contraposição — mas também em complementaridade — ao teatro bruto, Peter Brook identifica o teatro sagrado, aquele que busca tornar visível algo invisível. Trata-se de um teatro que se aproxima da dimensão espiritual da experiência humana, criando momentos de suspensão do cotidiano e de abertura para o mistério.
Grande Sertão: Veredas possui uma profunda dimensão metafísica. Ao longo da narrativa, Riobaldo reflete constantemente sobre o bem, o mal, Deus, o diabo e o destino. A pergunta central — "O diabo existe?" — atravessa toda a obra, transformando a história de jagunços em uma investigação filosófica e espiritual.
Na cena, essa dimensão pode se manifestar por meio de momentos de silêncio, contemplação e suspensão, em que o tempo dramático se desacelera e a palavra ganha um caráter quase ritualístico. O ator que assume a voz de Riobaldo, por exemplo, pode transformar seu relato em uma espécie de confissão ou meditação diante do público.
O teatro sagrado, segundo Brook, não depende de cenografias grandiosas ou de efeitos espetaculares. Pelo contrário, ele muitas vezes surge da simplicidade do espaço e da intensidade da presença do ator. Nesse sentido, o espaço cênico pode tornar-se um lugar de travessia simbólica, onde as veredas do sertão também se tornam veredas da existência humana.
A relação entre Riobaldo e Diadorim é um dos pontos em que essa dimensão sagrada se intensifica. O amor silencioso, o mistério que envolve a identidade de Diadorim e a revelação final produzem uma atmosfera que ultrapassa o plano da narrativa para tocar questões profundas sobre identidade, destino e transcendência.
A Coexistência das Duas Dimensões na Cena
Peter Brook nunca propôs que o teatro bruto e o teatro sagrado fossem categorias rígidas ou excludentes. Pelo contrário, ele acreditava que um espetáculo vivo pode conter ambas as forças. O teatro necessita da energia do bruto, que o conecta com a vida e com o público, mas também precisa do sagrado, que abre espaço para o mistério e para a reflexão.
Em uma encenação de Grande Sertão: Veredas, essa coexistência se torna particularmente potente. De um lado, há a violência dos combates, o movimento dos bandos, a dureza do sertão — elementos que evocam o teatro bruto. De outro, existem as perguntas metafísicas de Riobaldo, a presença enigmática de Diadorim e a constante reflexão sobre Deus e o diabo — dimensões que aproximam a cena do teatro sagrado.
Assim, o espetáculo pode se tornar um espaço onde a brutalidade da existência e a busca pelo sentido da vida caminham juntas, refletindo a complexidade da própria obra de Guimarães Rosa.
Considerações Finais
Ao relacionar os conceitos de teatro bruto e teatro sagrado com Grande Sertão: Veredas, percebe-se que o pensamento de Peter Brook oferece uma chave fértil para compreender a potência cênica dessa narrativa. O sertão rosiano é simultaneamente um espaço de conflito e de transcendência, de violência e de contemplação.
Quando levado ao teatro, esse universo permite que a cena oscile entre a força física da ação e a profundidade espiritual da palavra, criando um espetáculo que dialoga tanto com a vitalidade popular quanto com a dimensão filosófica da existência.
Nesse sentido, o teatro torna-se, como desejava Brook, um espaço onde o invisível pode emergir através do corpo do ator e da imaginação do público — uma travessia que, assim como no romance de Rosa, revela que as verdadeiras veredas do sertão são também as veredas da alma humana.
Março de 2026
[1] Diretora de Teatro.
