Trajetória da Tribuna do Cretino no Fomento da Crítica Teatral na Cidade de Belém do Grão Pará - Márcia Araújo Teixeira
Tribuna do Cretino - Vol.01 - N°01 - 2025 - ISSN: 3086-1179
Márcia Araújo Teixeira[1]
Sou uma CRETINA! de carteirinha, assumidíssima, porque acredito que a cena teatral, tanto profissional quanto experimental precisa ser debatida, esmiuçada, melhorada.
Acredito que a arte, ensina, cura, belisca, alfineta, faz refletir, mas pode ser tão oca quanto um galho seco, depende do referencial, do que se quer ou do que não se quer que seja visto.
Nessa toada, mordida pelo bicho da arte desde os quatro anos de idade, sim, aos dezesseis quando entendi que meu mundo era estar de alguma forma no universo da arte da cena, acompanhava de longe, algumas vezes como tão somente como espectadora, noutras como atriz, algumas como bailarina, ou professora de teatro, e até como diretora, sim artista faz de tudo, o fato é que sempre habitou em mim o desejo de escrever sobre teatro, sobre a cena, aspectos dela, enaltecer sim o que é bom e apontar um ponto de vista absolutamente honesto sem paixões sobre o que pode melhorar.
Assim em 2023 descobri a caverna do Cretino, isso é uma metáfora, e ali fiz a oficina (2023), fui provocada de muitas formas e ainda sou, sim, o professor Edson Fernando é mestre em te confundir e embaralhar as convicções para te fazer abrir a mente e ampliar as percepções. No início tinha uma ideia de que para escrever críticas haveria de se ter um superpoder, um profundo conhecimento sobre teatro, dramaturgia, teóricos, entre outros e a oficina aconteceu um processo de abertura de horizonte da escrita, o que promoveu o desbloqueio, propiciando uma liberdade para escrever honestamente a partir do ponto de partida particular de cada um. Assim, Cretina estou desde então.
O ator e professor Edson Fernando almejava um lugar para que se pudesse discutir formalmente os espetáculos teatrais em Belém, O Blog do Cretino nasceu desse desejo. O Blog cresceu e tornou-se a Tribuna do Cretino, revista que promove através da escrita crítica a difusão, o debate e os diversos pontos de vista de vários, diversos cretinos sobre a cena e seus aspectos. Para além da visão fechada do que se entende ou entendia como críticos tradicionais, seres que partiam de um pseudo poder para destilar venenos e vingancinhas para desafetos ou enaltecer seus "eleitos".
O propósito é um lugar para escrever livremente, um lugar onde cabe o acadêmico, o professor, o artista, a dona de casa, democracia sem gessos ou amarras. Mas, falar do trabalho ou da visão do outro, mexe o ego e nesse lugar, a ousadia traz o significado do nome ser Tribuna do Cretino, uma vez que tribuna é o local mais alto usado para comunicar, falar, atrever-se é o verbo e quem se arrisca a falar vira cretino.
Como atriz, dramaturga, bailarina, discente do curso de licenciatura da UFPA e diretora teatral, vejo os artistas da cena teatral de Belém como heróis, pois é extremamente difícil, caro, levantar um espetáculo por mais simples que seja, ir pra cena é um ato de travessura, sobretudo de resistência, quase que de rebeldia, isso é importante que seja dito.
Mas longe de escritas, ou recadinhos de alguns que distorcem o sentido da crítica, a Tribuna do Cretino um projeto esplendido, especialmente num mundo onde falar honestamente sobre algo, virou um lugar de medo, pois o fato de gostar ou não de algo, pode virar cancelamento, alguns confundem divergência com disputa de ego, nesse lugar a Tribuna aproxima, desmitifica, agrega, convida cretinos, seja de dentro da escola de teatro e dança da universidade federal do Pará, estudantes, professores, quanto aqueles que frequentam as salas de teatro e convida sem distinção a todo ser vivente, amante da arte da cena, ao exercício da escrita, do pensamento, da articulação de ideias, partindo do olhar particular, instiga a investigar, exatamente por isso é necessária!
A Tribuna desmistifica a crítica, vazia, daquele ser amargo, que se acostumou a usar a crítica para destruir, ofender, humilhar, aquele que considera desafeto pessoal, essa construção fez com que haja uma aversão a crítica.
A Tribuna incomoda, mas ao mesmo tempo é singular porque consegue trazer olhares diversos sobre uma mesma obra, justamente em razão das pessoas serem diversas, com perspectivas diferentes. À medida que se escreve o olhar apura?
Pala escrever sobre a trajetória do projeto TRIBUNA DO CRETINO, rojeto que propõe a produção textual crítica sobre espetáculos de teatro produzidos na cidade de Belém do Pará, é imprescindível voltar ao começo, então a Tribuna do Cretino nasceu em julho de 2013 (onde passou por uma fase experimental), em forma de blog[2] . O projeto cresceu e no seu quinto ano de atividades em 2018, foi para um novo espaço virtual, até ali o projeto, já publicara 174 (cento e setenta e quatro) críticas, havia lançado cinco edições impressas da TRIBUNA DO CRETINO: Revista de Crítica Teatral (ISSN 2359-4926) com circulação para várias cidades do Brasil e assim, promoveu o desenvolvimento de várias atividades de formação voltadas ao estudo e fomento da crítica teatral na produção da cena na cidade de Belém do Pará.
É importante lembrar que naquela ocasião (2018) o novo espaço virtual substituiu o blog que abrigou primeiramente o projeto. A partir de 2018 o novo espaço eletrônico dinamizou as ações do TRIBUNA DO CRETINO, porque ofertou a comunidade diversas seções para compartilhamento das impressões críticas de uma montagem teatral, como: Seção Palavra do Artista voltado àqueles envolvidos na montagem teatral pudessem se manifestar sobre sua obra, concordando ou não com as questões apresentadas na seção Palavra do Crítico. Por sua vez a Seção Palavra do Leitor/Espectador é o espaço para que ele, o Leitor/Espectador opinasse concordando ou não com o crítico ou do artista. Ainda, a Palavra Tréplica para reflexões entre os envolvidos no debate da montagem teatral – tanto o Crítico, o Artista ou o Leitor/Espectador.
O nome do projeto é uma homenagem ao dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, que numa de suas inúmeras tiradas de efeito afirmou: "Ao cretino fundamental, nem água!".
Continuo a crer, que para escrever sobre teatro, cenas, suas especificidades, estruturas... é sim preciso ter um mínimo de conhecimento, para que se consiga decodificar as linguagens, as provocações, as diretrizes que determinada obra quer dizer, ou tenta dizer, mas também é possível escrever do ponto de partida do que se sente, a partir do que se vê.
O sonho ou o desejo, portanto, era ampliar o debate, enriquecer o pensamento crítico sobre a cena produzida em nossa cidade e conseguiu, pois, por aí espalhados pela cidade há sempre um cretino ou uma cretina à espreita... escrevendo!!
Outubro de 2025
[1] Atriz, bailarina, dramaturga, diretora cênica, professora de teatro, discente do curso de Licenciatura em Teatro – UFPA; Bolsista PIBIPA/2025 pelo projeto Tribuna do Cretino;
[2] Toda produção desta fase experimental pode ser conferida no link a seguir: https://tribunadocretino.blogspot.com.br/
