Transposição de um Mito
Montagem: Eu vi o Boto
3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA
Tribuna do Cretino - Vol.02-N°03-2026/ISSN 3086-1179
Luana Valadares Pantoja[1]
Eu Vi o Boto, espetáculo realizado na Mostra de Espetáculos de Formação MEF, pelos alunos do curso de Produção Cênica da UFPA, com a participação de artistas convidados, parte de um dos mitos mais conhecidos da cultura amazônica para discutir uma realidade profundamente dolorosa e ainda presente em diversas comunidades ribeirinhas do Pará. Ao utilizar a figura mítica do boto como elemento dramatúrgico, a montagem evidencia como essa narrativa popular foi historicamente utilizada para justificar gestações decorrentes de abusos sexuais sofridos por crianças e adolescentes, deslocando a responsabilidade do agressor para o sobrenatural e perpetuando um ciclo de silenciamento.
Mais do que abordar o abuso sexual em si, o espetáculo investiga a estrutura social que possibilita sua manutenção. A dramaturgia apresenta mulheres sem acesso à instrução, famílias marcadas pela vulnerabilidade e uma comunidade cujas próprias crenças e relações de poder acabam produzindo vítimas perfeitas. Nesse contexto, a violência deixa de ser um acontecimento isolado e passa a ser compreendida como resultado de uma organização social que impede essas mulheres e meninas de encontrarem proteção.
A cenografia contribui significativamente para essa construção. Dividido em dois espaços elevados por tablados, o palco apresenta, de um lado, a casa da família da jovem vítima do abuso e, do outro, a igreja. Essa disposição espacial estabelece um diálogo constante entre duas esferas de influência sobre aquela comunidade. A presença da igreja, representada pela figura do pastor, não funciona apenas como elemento religioso, mas como símbolo do poder exercido por determinados homens que, amparados pela autoridade conferida pela fé, encontram meios de acessar famílias socialmente vulneráveis e carentes de informação e autonomia para proteger suas crianças.
A figura masculina é construída como representação da manutenção desse sistema opressor. O espetáculo questiona até que ponto o homem, por ocupar tradicionalmente a posição de provedor, passa a acreditar possuir também o direito de controlar, agredir, violentar e causar sofrimento à própria família apenas por ser homem. Dessa maneira, a obra propõe uma reflexão contundente sobre o machismo estrutural que atravessa essas relações e legitima diferentes formas de violência.
Em determinado momento, a jovem violentada encontra coragem para relatar o abuso sofrido, mas é desacreditada pela própria avó. Talvez esse seja um dos aspectos mais dolorosos da montagem, pois evidencia como a imagem construída pelo agressor – nesse caso, o pastor – também é sustentada pela própria comunidade. O espetáculo demonstra que essa estrutura social inibe denúncias justamente porque quem rompe o silêncio frequentemente encontra desconfiança, descrédito e culpa antes mesmo de qualquer acolhimento.
A montagem amplia ainda mais seu campo de discussão ao abordar a intolerância religiosa. O pastor, que se apresenta como portador da verdade e da salvação, é colocado em contraposição à personagem ligada aos saberes populares – a curandeira, parteira e conhecedora das ervas medicinais. Esse embate ultrapassa a dimensão espiritual e evidencia conflitos históricos entre diferentes formas de compreender o cuidado, a cura e a própria cultura amazônica.
Outro recurso que fortalece o discurso da encenação é a quebra constante da quarta parede, em evidente diálogo com procedimentos brechtianos. Os atores interrompem a narrativa para apresentar dados estatísticos reais sobre violência contra a mulher, abuso sexual e intolerância religiosa. Esses momentos retiram o público do lugar confortável da contemplação e reafirmam que a realidade apresentada em cena não pertence apenas ao universo da ficção.
Visualmente, o espetáculo demonstra grande cuidado compositivo. A cenografia, construída com elementos que remetem à madeira e às casas de palafita, dialoga diretamente com o ambiente ribeirinho onde a narrativa se desenvolve. O figurino também estabelece essa mesma coerência estética, enquanto a direção incorpora danças típicas que inserem imediatamente o público na atmosfera amazônica. Logo na abertura, a presença da dança em torno da figura do boto aproxima a plateia desse imaginário popular para, posteriormente, desconstruí-lo ao revelar sua utilização como mecanismo de encobrimento da violência.
As construções imagéticas ao longo da encenação chamam atenção pela delicadeza e pela força poética. Os enquadramentos cênicos produzidos pela direção revelam um refinamento visual que potencializa a narrativa sem competir com ela. Essas imagens ajudam a desenhar, de maneira sensível, a transposição entre mito e realidade, fazendo com que o espectador compreenda não apenas onde essa narrativa foi criada, mas principalmente a função social que ela passou a exercer.
Saí da experiência profundamente tocada. É um espetáculo que carrega peso, sobretudo nas cenas de violência sexual, cuja construção cênica produz um impacto difícil de ignorar. Nesses momentos, iluminação e desenho de luz desempenham papel fundamental, intensificando a tensão sem recorrer a recursos gratuitos. O desconforto provocado não é um fim em si mesmo; ele existe para convocar o público a olhar diretamente para uma problemática frequentemente silenciada.
A sonoplastia acompanha essa construção com igual competência. Durante todo o espetáculo, mas especialmente nas sequências de dança, a presença da percussão – em particular o tambor – fortalece o ritmo da encenação e amplia sua potência sensorial, contribuindo para a atmosfera criada pela direção.
Caso houvesse um aspecto a ser revisto, seria justamente a forma como ocorrem algumas das quebras da quarta parede. Em diversos momentos, os atores caminham até a boca de cena para realizar suas falas. Na minha percepção, talvez não houvesse necessidade desse deslocamento constante. Permanecer no espaço em que a ação já estava acontecendo poderia preservar ainda mais a força visual da cena e evitar pequenas rupturas na continuidade da atuação. Ainda assim, trata-se de uma observação pontual que não compromete a qualidade da montagem.
O espetáculo apresenta um ritmo consistente, um bom tempo de cena e um elenco bastante coeso. Em termos de atuação, não percebi falhas significativas. Eventuais questões de dicção aparecem em alguns momentos, mas não chegam a prejudicar a compreensão da narrativa.
Eu Vi o Boto é uma obra de grande substância. Ao transformar um mito amazônico em instrumento de denúncia, a montagem evidencia como determinadas narrativas culturais podem servir tanto para preservar identidades quanto para ocultar violências profundamente enraizadas. Mais do que contar uma história, o espetáculo convida o público a confrontar estruturas sociais que ainda hoje silenciam vítimas e protegem agressores. Saí da apresentação profundamente impactada e com a sensação de que essa é uma obra necessária, justamente porque se recusa a permitir que o espectador permaneça indiferente.
Julho de 2026
[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Atividade desenvolvida na disciplina "Conexões: Teatro e Filosofia" ministrada pelo professor Edson Fernando;
Ficha Técnica:
Eu vi o Boto
Elenco:
Anne Satierf, Madu Sousa, Lariih Paes,
Wanderson Moraes, Walan Cardoso, Rafael Lima
Direção e Dramaturgia:
Babi Simões
Cenografia:
Ronald Almeida, Érica Góes e Diogo Lira
Maquiagem:
Laiza Bonifacio e Cibele Maciel
Figurinista:
Josiane Lima
Iluminação:
Diogo Lira
Músicos de Cena:
Priscila Cobra, João de Souza, Mateus Piedade,
Babi Simões, Cibele Maciel
Sonoplastia:
Maria Luz e Adriana Azevedo
