TRIBUNA DO CRETINO: reflexões sobre afeto, crítica e o fomento da cena paraense a partir da experiência da "Tribuna"– Paula Barros

Tribuna do Cretino - Vol.01 - N°01 - 2025 - ISSN: 3086-1179

Paula Barros[1]

UMA CRETINICE SÓ!

​ Embora já faça um tempo que me formei, minha relação com a Escola de Teatro da UFPA não cessou totalmente. Deixo-me levar de volta para lá em momentos pontuais, seja para os ensaios do Auto do Círio, para mediações sobre educação inclusiva na graduação, ou, mais recentemente, pelo convite para participar na Gira de Conversa, ação integrada ao evento acadêmico promovido pelo Curso de Licenciatura em Teatro, isto é, o XIV Seminário de Pesquisa em Teatro.

​ Fui surpreendida, no entanto, por EdsonFernando com um convite para escrever este ensaio. Ele propôs que eu abordasse minha relação com o projeto Tribuna do Cretino e a contribuição que percebo dele para a cidade. Imediatamente, o primeiro pensamento que me veio à mente foi o caminho trilhado: como a influência de Edson como educador e a minha participação no projeto foram capazes de remodelar minhas perspectivas, sobretudo a visão que eu tinha sobre mim mesma.

​ Sabe aquela coisa que falam da relação dialógica professor-aluno? É disso que Paulo Freire trata em Pedagogia da Autonomia, quando afirma que "quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender" (1996). Essa é a minha primeira referência do projeto: a de ser provocada, questionada e construída a partir de uma relação horizontal e de afeto. O educador me acolheu e acolheu minha cria — Catarina, que na época tinha 5 meses. Ele percebeu em mim potencialidades que eu não tinha maturidade para reconhecer, sempre me provocando e questionando, mas sem deixar de confiar no que eu poderia vir a ser e fazer. E quando um professor confia, a gente confia também. E isso é dialético.

​ O início da relação com o projeto se deu no curso de extensão de Introdução à Crítica Teatral em 2015. Eu me inscrevi porque havia tirado uma nota "R" na disciplina da qual Edson era professor na Licenciatura em Teatro e achei a avaliação injusta. Logo pensei: "Ah, é! Agora ele vai ter que me aturar fora da aula também". E, na verdade, foi bem assim, principalmente quando eu recebia e-mails sobre o não cumprimento de prazos. Hoje, como professora, percebo a dificuldade que um educando tem em cumprir certas responsabilidades. Na época, eu ficava frustrada por não conseguir entregar as atividades no prazo, e Edson não deixava de me responsabilizar por isso. À primeira vista, pode parecer desumano (o que pensei por um certo tempo) um professor não entender que eu, além de estudante, era mãe, dona de casa e ainda trabalhava para ter o recurso necessário para o básico — uma realidade comum a muitas pessoas. (Naquele momento, eu caía na armadilha da lógica da superprodução: sentia que, se "pausasse" a ação produtiva física para me dedicar a atividades intelectuais da graduação — como ler ou escrever — estaria falhando nas minhas responsabilidades diárias e como mãe. Me culpava profundamente por não "dar conta" de tudo. Havia pressão por "estar sempre ativo", e, isso fala sobre autoexploração que conheci e percebi lendo Byung-Chul Han, que aprofunda a discussão sobre a 'sociedade do cansaço'). No entanto, foram essas "esculhambações" que me fizeram questionar minhas prioridades no momento. Desde então, não quis mais deixar de ser provocada e questionada por coisas que eu mal considerava. ​Assim, iniciamos essa relação.

​ Após o curso, abriu-se a inscrição para a bolsa de pesquisa e, claro, me inscrevi — principalmente pela necessidade do recurso financeiro para continuar a graduação. Com a aprovação, foram dois anos como bolsista. Nesse processo, escrevi algumas "críticas" para a Revista (inicialmente, eram críticas de teatro e dança; após uma revisão, Edson optou por manter apenas a linguagem do Teatro). Ao me autoavaliar, percebi o quanto minha escrita mudou (e um curso ajudou também); eu reescreveria esses textos de outro modo, aprimorando o discurso e o desenvolvimento, mas a essência e os pensamentos permaneceriam. É enriquecedor perceber as coisas que aprendemos e mudamos com o processo, mas também como outras permanecem essencialmente quem ou o que são.

​ Coloquei "críticas" entre aspas porque aprendi, sendo cretina, que o processo de escrever não se resume a fazer julgamentos, dizer se algo é bom ou ruim, ou qualificar/desqualificar uma obra. É, sim, a arte de fruir e tecer ideias pautadas em reflexões e posicionamentos. É um processo de autoavaliação e de discernimento para "se acusar um cretino" (lê-se a apresentação da Revista impressa Tribuna do Cretino Vol. 01, N.1, 2015).

​ Como bolsista, tive a oportunidade de submeter, juntamente com Edson, um resumo expandido no Congresso de Extensão da UFPA, intitulado: "CRETINO EM AÇÃO: Análise de dados de duas edições da TRIBUNA DO CRETINO: Revista de crítica em Teatro e dança". Foi um momento de coletar e analisar dados sobre o desenvolvimento do projeto e seu impacto na cidade. Por esse motivo, também revisamos as questões sobre dança e compartilhamos com a outra bolsista — éramos três na época. A pesquisa me impactou profundamente, pois nesse período pari mais uma criança, Helena. Apenas dois meses após o parto, apresentei a pesquisa na UFPA. Foi um momento de grande empoderamento, que me fez acreditar que era possível realizar o que eu queria, mesmo em meio ao caos. Não foi fácil, claro, mas me abriu caminhos e me tirou de um baby blues (melancolia materna pós-parto, um estado de tristeza, ansiedade e irritabilidade). Edson nem sabia disso, e na época eu mesma mal reconhecia o processo, apenas vivia.

​ Afinal, tudo se transformou em aprendizado. Desenvolvi a leitura crítica e mudei hábitos de escrita e de pensamento sobre mim e as questões que vivenciava. Se antes eu escrevia muitas cartas e textos curtos sobre reflexões de vida, passei a treinar outros formatos de escrita, a ler outros livros e a caminhar por outras linguagens artísticas, como a dança e as artes visuais. Alguns textos foram finalizados com sucesso, com atenção à fluidez e coerência; outros ainda estão bem guardados na nuvem dos meus e-mails, que revisito vez ou outra para lembrar o que vivi, ou para degustar um momento comigo mesma e tecer pensamentos do que fui, do que sou e do que quero vir a ser. Desse modo, eu dialogo com a arte e com a arte de escrever, o que me levou a participar, no período pandêmico, da bancada crítica do projeto PAN - Potência de Artes do Norte de Manaus. Ali, produzi mais três textos, expandindo minha relação social, meu conhecimento e abrindo novas possibilidades de trabalho, o que me conecta à segunda questão de Edson.

RELAÇÃO CRETINA E A CIDADE DE BELÉM

​ Seria cretinice da minha parte afirmar qualquer coisa sobre o projeto na cidade sem citar os dados que já produzimos. A questão é que, embora tenhamos quantificado e analisado esses dados, não deixamos de perceber a qualidade do processo e as arestas que a produção teatral deixa na cidade.

​ A primeira aresta que os dados nos trouxeram foi a produção cênica centralizada em uma determinada área da cidade, mostrando uma disparidade em relação aos lugares mais periféricos. Isso não significa que não haja produção teatral nos bairros periféricos, mas sim que as críticas impressas nas duas primeiras edições da revista nos levaram a registrar uma quantidade concentrada em um território pequeno, se comparado à área total da cidade. Isso nos leva a questionar: por que, mesmo havendo um território específico de produção teatral centralizado em uma área favorável da cidade, o público — principalmente o dessa área — não acessa essa produção de forma efetiva? O retrato que vemos ao longo dos anos é um público composto por familiares, amigos e professores dos atores (e, às vezes, nem isso), o que reforça a necessidade de pensar a formação de público.

​ São questões que, com certeza, renderiam uma tese. No entanto, nós as levantamos com o intuito de nos avaliar e avaliar o que fazemos como artistas e educadores na cidade. E qual é o cenário, comparando 2017 e 2025?

​ Agora, já temos mais edições publicadas – nove no total das revistas impressas –, o Blog da Tribuna do Cretino foi mantido e a revista está migrando para um formato completamente online. O curso e as ações continuaram, mas, afinal, as coisas mudaram? Em meu ponto de vista, muita coisa mudou desde então, pois a vida está em constante movimento.

​MOVIMENTOS PÓS FORMAÇÃO E EMPREENDEDORISMO LOCAL

​ O processo formativo da universidade, por exemplo, impulsiona os educandos a se voltarem para suas cidades e bairros de origem após a formatura. Com a escassez atual de empregos, eles iniciam movimentos artísticos individuais e empreendedores. Nos últimos dois anos, conheci quatro formandos que estão impulsionando seus próprios espaços. A duras penas, eles buscam parcerias e ampliam seu repertório, garantindo as linguagens artísticas como prática de vida em seus territórios, sustentando-se e transformando o cenário da cidade.

NOVOS NICHOS: AUDIOVISUAL E TEATRO MUSICAL

​ Tivemos ainda a abertura de um novo nicho: o Teatro Musical. Um artista local buscou formação fora e trouxe esse conhecimento para a cidade, dando novos rumos para a exploração de alguns estudantes. Quanto ao público, não tenho tanta certeza: assisti a espetáculos por conhecer os artistas, mas raramente vi pessoas conhecidas na plateia. Não tenho dados nem pesquisa para aprofundar a análise, mas o fato é que essa modalidade abriu uma possibilidade na cidade, mesmo que permaneça centralizada e com objetivos específicos.

​ Com o crescimento do audiovisual, muitos artistas paraenses também estão ganhando força e visibilidade. Vejo o Teatro se expandindo por outros caminhos. Afinal, acredito que tudo nasce a partir da linguagem teatral, que sempre expande as expressões e a teatralidade (o conjunto de elementos e signos que, presentes em uma cena ou situação, produzem um efeito dramático ou performativo, mesmo fora do teatro convencional).

O LEGADO DO PROJETO CRETINO

​ E quanto ao projeto? Acredito que ele cumpriu seu papel de fazer nascer mais "cretinos" nessa relação. A partir do cenário que se forma diante da realidade, conseguimos ampliar a visão crítica, reflexiva e o diálogo, seja consigo mesmo ou com a cidade. A TRIBUNA vem, desde 2015, evidenciando processos históricos da cena local, pois registro é história. Por isso, temos registrado e expandido esses processos de construção por meio da revista online.

​ Não tenho escrito mais críticas. No entanto, a vivência como educanda, bolsista e crítica me levou a lugares que nunca imaginei e continua a me levar. Tenho certeza de que aqueles que têm a audácia de escrever e sair de sua zona de conforto também viverão o inimaginável, além de garantir um arcabouço histórico da nossa cena teatral paraense para o futuro do teatro.

Outubro de 2025

[1] Graduada em Licenciatura em Teatro UFPA; Participante/Colaboradora do Projeto Tribuna do Cretino; 

Referência

Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.