A salvação ou aflição entre ser artista e ser arte
Montagem Teatral: Ceci N'est Pas un Artiste
Espetáculo Contemplado pelo Edital Mostra TUCB 2024
Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179
Bianca Ribeiro Viana da Cruz[1]
No dia 27 de Março do ano de 2026, tive o prazer de assistir ao espetáculo Ceci N'est Pas un Artiste. Nessa época o mundo estava girando com tanta desordem dentro da minha cabeça, novo demais, autêntico demais, mil elefantes fazendo pirueta na rodovia entre Belém e Ananindeua enquanto as pessoas em seus carros, voltam de um feriado prolongado, algo mais ou menos assim, para variar. Só sei que o mundo, estava muito contemporâneo para mim, enquanto tentava me encontrar dentro de Belém. Foi dentro do Teatro Universitário Cláudio Barradas que, no meio da coreografia inovadora, das aflições da mente, de fazer o corpo, não só fazer arte, como ser a própria arte, que Ceci, me arrancou e me acolheu. E os dias infinitos tiveram Ceci.
O espetáculo começa, sem você sequer poder definir o que é o começo, nem se teve um meio, apesar de saber das condições finitas de tudo no mundo, ele ainda se prolonga além do que eles nos deixam ver. Ceci N'est Pas un Artiste é a extensão da vida na arte, em sua 1hora e 25minutos de duração, nos confidenciam a fome de ânimo, a vontade de não ser artista, a negação da própria essência, do si, e do que de si foi negado, do que pode ou não mudar, e se pode mudar, por que não muda?
Vai ter Ceci. Vai ter Ceci. Vai ter Ceciiiii.
O único problema, que as vezes é bom, justamente por ser problema, que só existe justamente porque incomoda, é que pouco se aceita onde tem Ceci. Onde tem isto que faz voz mesmo quando não querem que escutem. E o espetáculo brinca com isso. Como falado antes, ele arranca e acolhe, arranca e acolhe...
Arranca. Acolhe.
Vai ter Ceci?
A maneira como tudo é passado, é contemporânea e esperta, ele brinca com o tema, brinca com o público, porque não existe nada mais remediador do que a risada. De se falar alegremente que a vida perfeita não existe, e vamos rir disso, remediar isto, porque por ser pessoa, somos muito pessoas, e para se redimir de uma vida triste, apenas rimos.
"Tenho fome de ânimo"
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
"Eu não quero mais ser artista"
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
"Tá todo mundo na mesma merda"
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
AHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHAHAHA
Durante todo espetáculo, você reconhece um elenco vasto, de pessoas expressivas, que além do que interpretam, envolvem o público a reconhecer que todos são um pouquinho deles.
Todos vão ter Ceci. Todos vão ter Ceci.
Todos vão ter Ceci.
A necessidade de ser visto, os artistas precisam ser vistos, notados, porque a ciência da arte, é um nascer da consciência sobre a dor do próximo, as histórias passadas que não deveriam se repetir. Mas no fim, pessoas são pessoas, né?
O espetáculo desvenda com sua própria ótica, e com uma condenação sútil, mas sincera e assumida, sobre o mundo que coexiste entre a mente das pessoas, entre a ganância, entre a podridão e o ato de ser humano, tudo unido. Quando penso em Ceci, sinto que estamos falando sobre um único ser, que não pode possuir forma, pois é extenso demais para se concretizar nesse mundo, é uma pessoa que é pessoa, mas não precisa ter forma de gente, não precisa falar como gente, as vezes nem age como a gente, será que é gente?
Será que vai ter Ceci?
Será que vai ter Ceci?
Será que vai ter Ceci?
Na ótica de Ceci, o oprimido quer ter seu espaço, um espaço para poder se admirado, para julgar, no ambiente em que ele é julgado e empurrado para o papel de admirador. Ceci serve como um acolhimento para as frustrações da alma de artistas e dos oprimidos socialmente, entendendo que nada toca mais um coletivo do que a identificação por uma realidade que grande parte dos sonhadores determinados enfrentam.
As falas são entregues com carisma, com glamour e principalmente, com verdade. O espetáculo funciona por ser fiel ao seu sentimento, à suas críticas tiradas das dores reais desses sonhadores, que sonham em ter um espaço, um apoio, um respeito, uma dignidade sem precisar se esconder.
O filho gay.
A mulher trans.
O periférico negro.
A namorada e namorade.
Todos cuja existência é razão de orgulho. Eles tem Ceci.
Eles tem Ceci.
Eles tem Ceci.
Ceci é um espetáculo que emociona, reconhece as camadas e as descasca com humor em meio as lágrimas da verdade absoluta, do sentimento de derrota quando toda a vontade é de persistência, Ceci é uma voz, é a beleza na confusão humana de quem sonha em ser arte, nas histórias que ainda não saíram do papel, Ceci arranca para acolher, derruba porque sabe que você se levanta. Todos devem, e na verdade, merecem, assistir ao espetáculo Ceci N'est Pas un Artiste.
Obrigado por ter Ceci.
Obrigado por ter Ceci.
Obrigado por ter Ceci.
Outubro de 2026
[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro; atividade realizada na disciplina Filosofia do Teatro ministrada pelo professor Edson Fernando;
Ficha Técnica:
Ceci N'est Pas un Artiste
Direção e Dramaturgia:
Xviccy
Elenco:
Adria Catarina, Arth Morbach, Cláudio Estrela
Criolinho, Jessica Brito, Josué Pantoja
Julianne Stael, Safira Clausberg, Ste Ribeiro e Well Maciel
Direção de Produção:
Ste Ribeiro
Assistentes de Produção:
Adria Catarina e Nathan Lavareda
Iluminação:
Nathan Lavareda e Rafaela Takemura
Sonoplastia:
Mac Silva e Sofia Alvarez
Equipe de Mídia:
Julianne Stael, Nathan Lavareda e Rafaela Takemura
Espetáculo Contemplado pelo Edital Mostra TUCB 2024
